Por que o Ártico vem batendo recordes de calor

Cidade na Sibéria chegou a 38 ºC, temperatura mais alta desde o início dos registros, em 1885. Incêndios, prejuízos animais e derretimento do permafrost são algumas das consequências

Verkhoyansk, na Sibéria, é uma das cidades mais frias do mundo. Em 20 de junho, no entanto, os termômetros locais registraram 38 ºC. Segundo a Organização Meteorológica Mundial, os dados russos parecem consistentes, mas ela ainda pretende avaliar os equipamentos, calibragem e técnicas utilizadas na medição. Se confirmada, essa será a temperatura mais alta já observada acima do Círculo Polar Ártico desde o início dos registros na região, em 1885.

Um dia depois, em 21 de junho, os termômetros registraram 35,2 ºC. De forma geral, segundo o serviço meteorológico da região, a temperatura média em Verkhoyansk no mês de junho fica em torno de 20 ºC. No pico do verão no hemisfério Norte, em julho, pode alcançar 30 ºC.

A Sibéria vem registrando temperaturas acima da média em 2020. Segundo o Serviço de Mudança Climática Copernicus, da União Europeia, a região teve o mês de maio mais quente desde 1979, quando as datações começaram, com temperaturas cerca de 10 ºC acima do esperado. É um evento meteorológico que, segundo Martin Stendel, climatólogo especializado no Ártico, deveria acontecer uma vez a cada 100 mil anos, não fossem os efeitos da crise climática.

Segundo o serviço, todo o inverno e a primavera na região (de dezembro de 2019 a maio de 2020) tiveram períodos sucessivos de temperaturas do ar acima da média.

6 ºC

foi quanto a temperatura média cresceu em 2020 na porção ocidental da Sibéria em relação à média registrada na região entre 1979 e 2019

Os recordes seguem uma tendência maior, que ocorre em vários países que estão acima do Círculo Polar Ártico. Ainda na Rússia, mas fora da Sibéria, cidades bateram os 45 ºC no dia 19 de junho. Canadá e países escandinavos também tiveram marcas anômalas para o período.

O que causa os recordes de temperatura no Ártico

Segundo cientistas, os recordes de temperatura vêm do efeito causado por ondas de calor. Uma onda de calor é formada quando há grande pressão atmosférica sobre uma área. Em linhas gerais, isso acontece quando uma coluna de ar desce do céu pressionando todo o ar que há embaixo. A pressão alta tanto esquenta o ar do solo como expulsa as nuvens de dentro da coluna, o que deixa o caminho aberto entre sol e solo.

Quanto mais tempo uma área é submetida aos efeitos da pressão atmosférica, mais ela esquenta. A sensação é de estar dentro de um “fogão natural”. A isso somam-se algumas particularidades da região polar. Em outros lugares do mundo, a noite ajuda a esfriar um pouco a temperatura. Mas, durante o verão polar, o sol nunca se põe, o que garante 24 hhoras de banho de calor diário.

O ano de 2020 registrou também o inverno mais quente do hemisfério Norte na história, o que derreteu a neve em várias partes do Ártico. A neve naturalmente reflete o calor do sol, mas sem ela, a lama e as plantas o absorvem. O solo então seca e, com menos umidade, há menos evaporação para resfriar o ar da superfície.

Há um debate na comunidade científica em torno da influência da crise climática nas ondas de calor. É difícil mensurar, por exemplo, o efeito em um fenômeno desse isolado. No entanto, alguns cientistas defendem que os impactos das emissões do homem geram ondas de calor mais intensas em latitudes maiores, como as polares, ou com mais frequência do que no passado.

A crise do clima

Causas

A mudança climática começa com atividades como a queima de combustíveis fósseis, a agropecuária, o descarte de lixo e o desmatamento, que emitem grande quantidade de gases que acarretam no efeito estufa, fenômeno que torna o planeta mais quente. Entre as emissões de gases, destacam-se as de metano, óxido nitroso e gás carbônico (CO₂), que representa mais de 70% dos lançamentos. São poluidores os setores de energia, transportes e alimentos, entre outros.

Efeitos

A emissão de gases poluentes formadores do efeito estufa pelas atividades humanas, intensificadas após a era industrial, tem causado o fenômeno que se chama de aquecimento global. Suas consequências mais visíveis têm sido o aumento das temperaturas do ar e da água, o derretimento de calotas polares e a elevação do nível de mares e oceanos. A expressão “mudança climática” é um sinônimo abrangente de aquecimento global, que engloba outras reações do clima à poluição.

Previsões

Em 2018, um estudo do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) da ONU disse que a temperatura mundial pode aumentar 0,5ºC em uma década se as emissões de CO₂ não tiverem cortes imediatos. Outras projeções do clima mostram que o aquecimento pode chegar até 6ºC até 2100 se o ritmo da economia continuar o mesmo. As consequências da crise do clima devem ser sentidas nas próximas décadas, e, se o aumento das temperaturas se concretizar, o quadro de grandes tempestades, incêndios florestais, escassez de alimentos, inundações e secas severas deve piorar.

As previsões para o Ártico

O que é certo é que os polos estão esquentando mais rápido que o resto do planeta. Em condições normais, o banco de gelo, formado por água do mar congelada, cria uma capa nessa região do globo que reflete o calor do sol. Com o aquecimento do planeta, parte desse banco derrete, e as águas profundas, pelo contrário, retêm o calor.

É quando acontece o fenômeno chamado de amplificação polar. Com a água mais quente, o banco de gelo demora mais para se formar. Com isso, a água que não congelou absorve mais calor, e o ciclo se repete sucessivamente.

0,75 ºC

é quanto o Ártico esquentou na última década, segundo estudo publicado na revista Science Advances em 2019. O planeta como um todo demorou 137 anos para aquecer 0,8 ºC

De acordo com a pesquisa, se as emissões de gases poluentes continuarem no ritmo atual, em 20 anos o Oceano Ártico não terá mais gelo. E até o final do século 21, as temperaturas do Ártico serão 13 ºC mais altas do que as de hoje nos meses de outono, época em que o banco de gelo está em sua forma mais reduzida. Atualmente, a região esquenta duas vezes mais rápido que o resto do mundo.

Temperatura em alta

Gráfico de linha que mostra o crescimento da temperatura no Ártico no período estudado

Isso significa que as ondas de calor encontram condições para serem ainda mais intensas quando se formam. “Em 2100, em um cenário de calor extremo, podemos esperar ver um evento desse por ano”, diz Robert Rohde, climatólogo da organização Berkeley Earth, em entrevista à revista National Geographic.

Os impactos causados pelos recordes de calor

Com a temperatura cada vez mais alta, o gelo do Ártico começa a derreter antes do esperado. Quando chega a época de fato do degelo, há muito mais água, o que faz rios transbordarem. Muitas vezes blocos de gelo maiores se desprendem sem derreter completamente e se acumulam em trechos mais estreitos do rio, obstruindo o fluxo da água e gerando mais transbordamentos.

Na Rússia, por exemplo, onde os maiores rios correm de sul para norte, o fenômeno é comum, já que a porção sul é irradiada pelo sol antes e, por isso, derrete antes, encontrando à frente obstáculos ainda congelados. O resultado é que várias cidades precisam ser evacuadas, prejudicando principalmente povos indígenas, que costumam viver nas áreas mais ao norte do globo.

O calor também atinge os solos permafrost, que misturam terra, rocha e gelo, e supostamente nunca derretem. Mas estão derretendo, ameaçando infraestrutura e cidades inteiras construídas sobre eles. No começo de junho, o derretimento do permafrost fez com que o pilar de um tanque de combustível cedesse, lançando mais de 20 mil toneladas de petróleo de uma usina elétrica russa no rio Ambarnaya. Cerca de dois terços do país são cobertos por permafrost.

O presidente Vladimir Putin declarou dias depois estado de emergência na região, ao que é considerado um dos piores derramamentos de petróleo da Rússia moderna. Foram envenenados peixes, aves e outros animais, cujos efeitos levarão 10 anos para ser revertidos.

Os animais, aliás, são outro grupo bastante ameaçado pelo aquecimento acelerado. Com menos gelo, ursos polares morrem afogados ao nadar distâncias enormes até encontrar um lugar para caçar e descansar; e focas e morsas mais jovens morrem atropeladas em praias abarrotadas por falta de opção de onde ficar.

Já peixes e crustáceos se deslocam cada vez mais ao norte em busca de águas frias, predando a vida marinha que antes vivia lá. Até mesmo espécies de plantas da Groenlândia estão nascendo antes do tempo e morrendo, já que os insetos polinizadores não acompanham esse novo ciclo.

Por fim, as ondas de calor secam solo e vegetação, criando condições propícias para incêndios. No começo de junho, a região ártica da Rússia teve quase 50 milhões de km² debaixo de chamas. E em abril, o Alasca americano registrou os chamados “incêndios zumbis”, quando focos antigos parecem ter sido apagados, mas continuam queimando debaixo do solo até emergir à superfície.

As chances de 2020 para ano mais quente da história

Além do Ártico, 2020 viu uma série de outros recordes serem quebrados. Janeiro e maio foram os mais quentes em 141 anos. E outros meses não ficam para trás: fevereiro, março e abril foram os segundos mais quentes desde que os registros começaram. A Antártida também registrou as maiores temperaturas da história em fevereiro: 18,3 ºC para a porção continental.

Com todos esses números, meteorologistas preveem uma chance de 50% de que 2020 seja o ano mais quente da história. Por outro lado, é quase certo, com 99,9%, de que 2020 esteja entre as cinco maiores marcas. Se assim for, os últimos sete anos despontarão entre os sete registros mais quentes do ranking.

As quarentenas impostas ao redor do mundo para o combate ao novo coronavírus reduziram temporariamente as emissões em 2020, mas cientistas afirmam que elas não ajudaram a esfriar o clima, que exige medidas mais profundas e duradouras.

“Temos a chance única de reconsiderar nossas escolhas e usar a crise do coronavírus como um cataclisma para meio de transporte e produção de energia mais sustentáveis, via incentivos, impostos e preço do carbono”, disse Karsten Haustein, climatólogo da Universidade de Oxford, em entrevista em abril ao jornal The Guardian.

Colaborou com o gráfico Marcelo Roubicek.

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