A cineasta Suzana Amaral em 3 longas-metragens

Diretora morreu em São Paulo aos 88 anos, com carreira marcada por adaptações literárias

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    A cineasta Suzana Amaral morreu em São Paulo no fim da tarde de quinta-feira (25), aos 88 anos. Segundo a família, a causa de morte não tem relação com a covid-19, doença causada pelo coronavírus.

    Amaral ingressou no audiovisual em 1968, aos 36 anos, mãe de nove filhos e quase avó, quando prestou vestibular para o curso de cinema da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Depois, fez uma pós-graduação em direção na Universidade de Nova York, nos EUA.

    “As pessoas achavam que eu estava parada na minha cozinha, tive uma ideia do nada e fui fazer um filme”, afirmou Amaral ao jornal Folha de S.Paulo em 2015. “Dona de casa, até parece! Fazia dez anos que eu estudava cinema, trabalhei na TV Cultura por 18 anos. Ninguém vai fazer ‘A hora da estrela’ de sua cozinha. Até porque eu odeio cozinha, como todo dia fora de casa. Dessas coisas femininas, eu só tive uma porrada de filhos. E isso porque eu gostava de transar.”

    O período na TV Cultura ao qual ela se refere vai da segunda metade da década de 1970 ao início dos anos 1980, quando a cineasta integrou a equipe do extinto programa Câmara Aberta, que produzia e exibia documentários de temas diversos.

    Um dos trabalhos de Amaral nessa época, “Minha vida, nossa luta”, sobre uma mulher da periferia de São Paulo que deseja abrir uma creche na comunidade, venceu o prêmio de melhor documentário em média-metragem do Festival de Brasília em 1979.

    A carreira nos longas-metragens começou em 1985, limitando-se a três obras – número que, se dependesse dela, seria maior.

    “A menos que você faça ‘Cidade de Deus’ ou blockbusters, você só vê dinheiro por binóculos”, disse, na mesma entrevista à Folha em 2015, afirmando que tinha roteiros prontos, que poderiam ser filmados a qualquer hora.

    Abaixo, o Nexo relembra os três longas-metragens dirigidos pela cineasta paulista.

    “A hora da estrela” (1985)

    A estreia da cineasta nos longas se deu na metade da década de 1980, com “A hora da estrela”, filme que adapta o livro homônimo escrito por Clarice Lispector em 1977.

    A trama gira em torno de Macabéa (Marcélia Cartaxo), uma nordestina pobre que vai para São Paulo em busca do sonho de ser datilógrafa, vivendo uma grande desilusão amorosa.

    Segundo a Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), “A hora da estrela” é um dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos, ocupando a 42ª posição.

    Suzana Amaral recebeu o Prêmio da Crítica do Festival de Berlim em 1986, e foi indicada ao Urso de Ouro, troféu máximo do evento. Cartaxo recebeu o Urso de Prata por sua interpretação de Macabéa.

    “A hora da estrela” foi o primeiro filme dirigido por uma mulher a ser pré-indicado para representar o Brasil no Oscar. O feito só se repetiu em 2015, com “Que horas ela volta?”, de Anna Muylaert.

    “Uma vida em segredo” (2002)

    Adaptação do livro de mesmo nome escrito por Autran Dourado em 1964.

    A trama, ambientada no século 19, acompanha Bilela, uma jovem que cresceu numa fazenda de café e gado e que se muda para a cidade após a morte do pai, tendo dificuldade em se adaptar aos novos costumes.

    Sabrina Greve, intérprete da protagonista, venceu o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Brasília.

    O longa venceu nas categorias de melhor filme, melhor atriz, melhor fotografia e melhor direção de arte do festival Cine Ceará.

    No Grande Prêmio Cinema Brasil, premiação mais importante do cinema nacional, foi indicado nas categorias de roteiro adaptado, figurino, maquiagem, direção de arte e fotografia.

    “Hotel Atlântico” (2009)

    O terceiro e último longa dirigido por Suzana Amaral é “Hotel Atlântico”, adaptação do livro de mesmo nome escrito por João Gilberto Noll em 1989.

    O filme acompanha Alberto, um ator desempregado que, ao ver um corpo ser retirado do hotel onde vive, decide abandonar a vida na cidade grande, caindo na estrada e encontrando muitas figuras peculiares no caminho.

    “Hotel Atlântico” recebeu o prêmio de melhor filme no Festival de Lima, no Peru. O ator Gero Camilo venceu o prêmio de melhor ator coadjuvante no Festival do Rio de 2009. O longa também integrou a programação da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo naquele ano.

    Outros trabalhos

    Além dos três longas, Suzana Amaral escreveu e dirigiu “Procura-se”, minissérie portuguesa de suspense exibida em 1993 pela emissora RTP.

    Dirigiu curtas institucionais e comerciais, incluindo a aclamada campanha “Gente que faz”, do extinto banco Bamerindus.

    Também trabalhou como crítica de cinema do jornal Folha de S.Paulo na década de 1990 e professora dos cursos de cinema da Universidade de São Paulo e da Faap (Fundação Armando Álvares Penteado), entre 1999 e 2001.

    Pouco antes da realização de “Uma vida em segredo”, escreveu o roteiro do filme “O caso Morel”, adaptação do livro homônimo de Rubem Fonseca. O projeto nunca foi para frente.

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