A busca por culpados pela explosão da pandemia na Suécia

Comissão independente deve investigar responsabilidades pelo descontrole de casos da covid-19. País escandinavo dispensou imposição de isolamento social

    Governo e oposição chegaram a um acordo na Suécia para instaurar uma comissão independente que vai apurar as responsabilidades na gestão da pandemia que, até sexta-feira (26), havia deixado mais de 63 mil contaminados e 5.000 mortos no país – números muitas vezes superiores ao de todos os vizinhos escandinavos.

    A Suécia apostou num modelo liberal de gestão da crise. O governo local apenas recomendou a quarentena e as regras de distanciamento social, em vez de ter imposto medidas restritivas. A circulação de pessoas, dentro e fora do país, também não foi posta sob controle desde o registro do primeiro caso da doença no país, em 31 de janeiro. O resultado pode ser medido em números.

    Vítimas fatais

    Gráfico mostra número de pessoas mortas pela covid-19 nos países escandinavos

    Pessoas diagnosticadas

    Gráfico mostra número de pessoas contaminadas pela covid-19 nos países escandinavos

    O número de mortos pela covid-19 na Suécia é quatro vezes maior que a soma de todas as vítimas fatais registradas nos outros quatro países nórdicos. Já o número de contaminados na Suécia é o dobro do que em todos os países da mesma região, somados.

    A discrepância colocou em questão a estratégia seguida pelo primeiro-ministro Stefan Löfven. Ele é líder do Partido Social-Democrata, de centro-esquerda, desde 2012 e primeiro-ministro da Suécia desde 2014.

    Não foi Löfven, entretanto, o idealizador das medidas. Na Suécia, a lei impõe limites estritos aos políticos quando se trata de conceber políticas de saúde pública. As linhas gerais do programa seguido durante a pandemia foram concebidas pela Autoridade de Saúde Pública da Suécia, cuja face pública mais conhecida é a do epidemiologista Anders Tegnell.

    Em sua frente técnica, a investigação pretende avaliar erros e acertos. Uma avaliação criteriosa permitiria ao país adotar protocolos científicos de maior eficácia em epidemias futuras, ou mesmo em novas ondas da covid-19.

    Já na frente política, o peso deve recair sobre o premiê Löfven e os parlamentares do Partido Social-Democrata, que são os responsáveis pela implementação dos programas. A Suécia é uma monarquia parlamentarista e, como tal, confere pouca estabilidade ao governo de turno, cuja confiança pode ser posta em nova eleição qualquer hora.

    Se não houver qualquer solavanco político, a próxima troca de governo deverá ocorrer após as eleições nacionais de setembro de 2022. O relatório final da comissão independente está programado para sair em algum momento do primeiro trimestre desse mesmo ano, e suas conclusões poderiam dificultar a formação de um novo governo social-democrata.

    Governo mantém a popularidade

    É um erro supor, no entanto, que Löfven e a centro-esquerda sueca como um todo estejam na berlinda. Embora os números de contaminados e mortos na pandemia sejam desastrosos, muitos suecos consideram que preservar as liberdades individuais e apostar no discernimento pessoal foi uma atitude acertada.

    No mês de junho, mesmo com os gráficos da covid-19 mostrando a Suécia em mau momento, 33,7% dos eleitores diziam pretender votar no Partido Social-Democrata do premiê Löfven. Esse percentual é 8,7 pontos percentuais maior que o registrado na pesquisa anterior, de novembro de 2019, e 5,4 pontos maior que o percentual de votos obtidos pela legenda do atual governo na última eleição nacional, realizada em setembro de 2018.

    A oposição se sai muito pior. O partido Democratas Suecos, expoente da extrema direita nacionalista anti-imigração, teve uma queda de 5,6 pontos percentuais nas intenções de voto entre as pesquisas de junho de 2020 e novembro de 2019.

    Os Moderados, maior partido de oposição no país, de direita, permanece com os índices de intenção de voto inalterados, antes e depois da pandemia, com 20,1%.

    As pesquisas de opinião mostram ainda que a sociedade está dividida a esse respeito da política adotada no combate à pandemia. Entrevistas feitas pelo instituto Novus nos meses de maio e junho mostram que as ações implementadas pelo governo sueco são respaldadas por 45% da população. O patamar é considerado alto, mas já foi maior – em abril, 63% tinham essa mesma opinião.

    Particularidades da política sueca

    Embora o governo sueco tenha relutado em tomar medidas duras para garantir o distanciamento social, a posição adotada no país não é comparável ao que acontece em lugares como Brasil, EUA, Turcomenistão e Bielorrússia.

    Enquanto os presidentes desses países adotaram uma postura incrédula e negacionista, muitas vezes sabotando ou desprestigiando medidas sanitárias, sobretudo no início da crise, o governo sueco, por outro lado, nunca negou o perigo que a pandemia representava nem estimulou seus cidadãos a retomarem a vida normalmente.

    A diferença está na abordagem. As autoridades suecas apelaram ao bom senso e ao discernimento da população, em vez de estipular altas multas e até pena de prisão para os infratores, como ocorreu, por exemplo, na França, na Itália e na Espanha.

    Outra singularidade sueca está no fato de que todos os espectros significativos da política local apoiaram o governo, numa espécie de trégua, que se manteve intacta na maior parte da crise. Aos poucos, a partir de junho, entretanto, esse acordo de convivência começou a se romper.

    No dia 8 de junho, líderes dos principais partidos políticos do país participaram de um debate na televisão – no formato normalmente seguido nos debates eleitorais – nos quais o tema central foi a política do governo para a pandemia.

    A voz mais estridente contra o gabinete de Löfven foi a do líder de extrema direita Jimmie Åkesson, que chegou a pedir a renúncia do epidemiologista Anders Tegnell, da Autoridade Nacional de Saúde.

    Os demais partidos não atacaram a política de saúde, fundamentalmente, mas expressaram descontentamento com pontos em particular, como a pouca quantidade de testes, o alto número de mortos em abrigos para idosos e a inexistência de restrições para o trânsito internacional de pessoas no país. Todos esses pontos devem ser cobertos pela investigação independente acordada entre o Parlamento e o Executivo.

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