3 boatos verificados sobre a pandemia para você ficar de olho

O ‘Nexo’ integra o Comprova, coalizão de 28 veículos jornalísticos que busca combater a desinformação

    As redes sociais são um importante meio de comunicação para cidadãos e governos, ao divulgar e esclarecer assuntos de interesse público. Mas nelas também se proliferam posts, imagens e vídeos fabricados, manipulados ou retirados de contexto que podem causar danos. É um ambiente em que conteúdos podem ser disseminados rapidamente, sem preocupações com fonte ou veracidade.

    Para combater a desinformação nas redes surgiu o Comprova, do qual o Nexo faz parte. A iniciativa, que teve início em 2018, está agora em sua terceira fase e conta com a colaboração 28 veículos de comunicação para monitorar e verificar conteúdos suspeitos sobre políticas públicas do governo federal, as eleições municipais de 2020 e a pandemia da covid-19, doença causada pelo novo coronavírus.

    Devido ao cenário crítico do país em relação ao controle da doença, a checagem de fatos sobre a pandemia adquiriu um nível de importância ainda maior, uma vez que a desinformação afeta diretamente a saúde das pessoas. Nesse sentido, tem havido uma prevalência de checagens sobre o assunto.

    O Nexo selecionou, abaixo, três verificações da semana sobre a pandemia.

    É falso que repasses de verbas aos estados estejam relacionados ao número de mortos e infectados

    São falsas as afirmações feitas por um enfermeiro do Rio de Janeiro, Anthony Ferrari Penza, em um vídeo publicado no YouTube que viralizou. Na publicação, o enfermeiro diz que corpos de vítimas da covid-19 são vendidos por milhões de reais a governos estaduais e municipais, que lucrariam a cada registro de óbito. Penza também afirma que 60% das pessoas mortas pelo coronavírus “não morreram de covid; morreram por estarem assustadas, morreram por causa da corrupção, morreram porque muitos falaram ‘fique nas casas”.

    Nenhuma das afirmações é verdadeira. Em checagem publicada no dia 22 de junho, o Comprova verificou que a União disponibiliza verbas para que estados possam usá-las para o combate ao vírus – com hospitais de campanha e compras de equipamentos de proteção, entre outras necessidades. Mas não há relação entre o número de infectados e mortos com os repasses, segundo informou o Ministério da Saúde.

    O Ministério Público Federal também foi procurado e informou que não há qualquer investigação envolvendo possíveis fraudes em óbitos por covid-19 no estado. Além disso, os verificadores entraram em contato com outros órgãos, como a Polícia Federal, a Polícia Civil, o Ministério Público do Estado do Rio e a Secretaria Estadual de Saúde do Rio.

    Também foi feito um levantamento de informações sobre Penza. Ele tem registro profissional de enfermagem. Conselhos regional e federal de enfermagem dizem que Penza tem diversas denúncias nas ouvidorias dos dois órgãos e que há um processo administrativo para apurar eventuais infrações. Em entrevista com o enfermeiro, ele afirmou que pode confirmar suas “denúncias”, mas não apresentou nenhuma prova.

    A verificação foi realizada por Folha, O Popular e Jornal do Commercio e foi validada por outros veículos. Veja a verificação na íntegra.

    Homem no Ceará foi preso por crime militar e não por criticar compra de ventiladores

    Postagens que viralizaram nas redes sociais alegam que um cidadão do município de Cascavel, no Ceará, foi preso por criticar o governador do estado, Camilo Santana (PT), sobre a compra de respiradores para o tratamento de pacientes com covid-19. O conteúdo é acompanhado de um vídeo mostrando a entrega de um mandado de prisão preventiva, sem indicar os envolvidos ou a localidade. Na legenda, aparece a seguinte frase, com teor irônico: “Governo democrático é outra coisa”.

    Em checagem publicada em 23 de junho, o Comprova mostrou que as informações são enganosas. Na verdade, o vídeo não mostra a determinação de prisão preventiva de um civil, mas, sim, de um policial militar. Trata-se de Paulo José Monteiro da Cunha, conhecido como Cabo Monteiro. A gravação não foi feita em Cascavel, como dizem as postagens. A cena do vídeo ocorreu na capital, Fortaleza, onde mora o Cabo Monteiro, no dia 17 de junho.

    O policial responde a uma denúncia de crime militar na Justiça do Ceará, com base nos artigos 160 e 166 do Código Penal Militar. A legislação tipifica como crimes o desrespeito a superior diante de outro militar e também críticas públicas a atos de superiores ou a qualquer resolução do governo. A denúncia apresentada pelo Ministério Público Estadual do Ceará faz referência a sete vídeos gravados e publicados pelo Cabo Monteiro entre março e abril de 2020.

    Neles, Monteiro faz críticas ao prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio (PDT), ao governador do estado, Camilo Santana (PT), e ao comandante-geral da Polícia Militar do Ceará, coronel Alexandre Ávila de Vasconcelos, sobre assuntos como a distribuição de materiais de higiene e equipamentos de proteção individual aos policiais, o atendimento médico de emergência a agentes feridos e gastos do poder público durante a pandemia. Mas em nenhum dos vídeos Monteiro aborda a compra de respiradores, como foi afirmado no conteúdo enganoso que viralizou.

    Para realizar a checagem, o Comprova buscou informações junto à Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará, ao Tribunal de Justiça do Ceará, à Controladoria Geral de Disciplina dos Órgãos de Segurança Pública e ao Ministério Público Estadual do Ceará. Depois da remoção do sigilo de Justiça, o Comprova também obteve a íntegra da decisão judicial.

    Os verificadores também entraram em contato com a irmã do Cabo Monteiro, além do advogado do PM, Carlos Bezerra Neto, que considerou a prisão abusiva. Para a Justiça, a alegação de que houve violação de liberdade de expressão não caberia no caso.

    A verificação foi realizada por Estadão, O Popular e Diário do Nordeste e foi validada por outros veículos. Veja a verificação na íntegra.

    Uso correto de máscaras reduz chances de contaminação pelo coronavírus e não torna o sangue ácido

    Um vídeo com título Médico diz para que serve a máscara!! Enfim, lucidez, inteligência e seriedade foi compartilhado no Facebook e no WhatsApp e traz afirmações enganosas. O conteúdo mostra um médico chamado João Vaz dizendo que o uso prolongado de máscara não tem eficácia para combater a propagação do novo coronavírus.

    Vaz afirma que a proteção “só tem uma serventia, não para nós, mas para o vírus”. De acordo com ele, isso ocorreria porque, ao inspirar novamente o ar que foi antes expirado na máscara, o corpo absorveria partículas de gás carbônico – e isso tornaria o sangue mais ácido e “um meio propício, ideal, para o vírus”.

    O Comprova consultou especialistas sobre o conteúdo do vídeo. Segundo essas fontes, Vaz está “completamente errado” e o que ele diz “é contra qualquer racionalidade”. Leonardo Weissmann, infectologista do Instituto de Infectologia Emílio Ribas e consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia, afirmou que “o uso correto de máscaras, cobrindo nariz e boca, reduz a transmissão do vírus e não causa qualquer mal ao organismo”. Weissman também disse aos verificadores que a máscara não causa, em nenhuma situação, o aumento de gás carbônico no sangue: “Os poros das máscaras, mesmo não sendo visíveis, permitem as trocas gasosas. O indivíduo que está protegido com máscara não vai inalar seu próprio gás carbônico”.

    Os verificadores também acessaram documentos da OMS (Organização Mundial da Saúde) e da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). De acordo com documento publicado em 5 de junho pela OMS, o uso prolongado de máscara pelo público em geral podem acarretar em malefícios como dificuldades respiratórias, lesões cutâneas e agravamento de acne. Mas o órgão não cita nenhuma desvantagem sobre a troca de gases, comentada por João Vaz. A Anvisa, no texto “Orientações Gerais – Máscaras faciais de uso não profissional”, divulgado em 3 de abril, reforça que os equipamentos não fornecem total proteção contra infecções, mas reduzem sua incidência. A agência recomenda o uso de máscaras em locais públicos, como supermercados e farmácias.

    O Comprova também entrevistou João Vaz. O médico respondeu o seguinte: “É a minha opinião. Tenho 49 anos de profissão, doutorado na Alemanha. Não estou para discutir com ninguém. Cada um que aprenda”. Questionado sobre a existência de estudos que comprovem suas afirmações, ele respondeu que tem “evidência pessoal com os 5.200 pacientes” que disse ter atendido até a data da conversa, em 23 de junho. Em maio, João Vaz já havia aparecido em uma verificação do Comprova que considerou suas afirmações enganosas. Dentre outras declarações, ele criticava o isolamento social e o uso de respiradores.

    A verificação foi realizada por Folha, SBT, Piauí e Estadão e foi validada por outros veículos. Veja a verificação na íntegra.

    Você recebeu algum conteúdo sobre o novo coronavírus que gerou dúvida e gostaria que o Comprova checasse? Envie uma mensagem de WhatsApp para (11) 97795-0022 ou pelo site do Comprova.

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