Por que a pandemia não arrefece no Brasil. E onde ela cresce mais

Alta de 22% nos registros de infectados pelo coronavírus no país frustrou tendência de estabilização esperada pelo Ministério da Saúde. Regiões Centro-Oeste e Sul apresentam aumento mais expressivo

    Temas

    A estabilização da pandemia do novo coronavírus no Brasil, esperada pelo Ministério da Saúde para o mês de junho, não se confirmou por causa de um aumento de 22% no número de casos de infecção na semana de 14 a 20 de junho, em comparação com a semana anterior. Os sinais de uma possível desaceleração da doença no país haviam sido reconhecidos pela própria OMS (Organização Mundial de Saúde).

    Segundo especialistas, a reabertura prematura das atividades econômicas em algumas regiões pode ter contribuído para frustrar a formação de um platô na curva de casos. Esse platô ocorre quando os registros permanecem altos, mas sem grandes oscilações, até começarem a cair gradualmente, indicando que a pandemia passou pelo pico.

    O Ministério da Saúde havia chamado a atenção para o início da estabilização, mas ressaltou que era necessário esperar até duas semanas para que a tendência se confirmasse, o que não ocorreu.

    “A gente tinha falado na semana anterior que parecia que a curva tenderia a uma certa estabilização ou a uma diminuição dos números de casos. A gente vê que, nesta semana, tivemos um aumento significativo de casos novos”

    Arnaldo Correia de Medeiros

    secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, em entrevista na quarta-feira (24)

    Segundo o secretário de Vigilância em Saúde, Arnaldo de Medeiros, que assumiu o cargo no início de junho por indicação do centrão, grupo de partidos fisiológicos no Congresso, a curva de mortes, embora também tenha crescido, não teve a mesma “inclinação agressiva” da curva de casos. Enquanto os casos aumentaram de uma semana para a outra em 22%, as mortes subiram 7%. “Há uma tendência clara de que o número de óbitos não foi na mesma velocidade com que o número de casos registrados”, afirmou.

    1.274.974

    casos de infecção pela covid-19 foram confirmados no Brasil até a sexta-feira (26), segundo o Ministério da Saúde

    55.961

    era o número de mortes pela doença até a mesma data, de acordo com o órgão

    As diferenças por região

    Os números apresentados pelo Ministério da Saúde também indicam um arrefecimento da pandemia na região Norte, que vem apresentando uma redução de casos e mortes em junho. Na semana de 14 a 20 de junho, os registros de infectados caíram 4%, e a queda nos óbitos foi de 27%, de acordo com os números apresentados pela pasta.

    A maior queda nas mortes, de 39%, ocorreu no Pará. Em Manaus, onde o sistema de saúde chegou a entrar em colapso, a redução nos óbitos foi de 21%. Um hospital de campanha para atender exclusivamente doentes de covid-19 foi desmontado devido à baixa procura.

    A região Nordeste também teve diminuição de 11% nas mortes, principalmente na Paraíba (queda de 23%) e no Ceará (20%). Mas, ao contrário do Norte, o número de casos na região subiu 14%.

    As maiores altas foram sentidas no Centro-Oeste, com aumento de 98% nos casos e de 59% nas mortes. No Sul, o crescimento foi de 76% e de 46%, respectivamente. Algumas cidades como Porto Alegre e Florianópolis, que haviam optado por flexibilizar as quarentenas, decidiram na semana iniciada em 21 de junho, endurecer novamente as restrições por causa do avanço da pandemia.

    Já no Sudeste, o agravamento da pandemia coincidiu com a flexibilização das quarentenas. Desde o início de junho, estados como São Paulo e Rio de Janeiro vêm retomando atividades não essenciais, com a reabertura de lojas e shoppings.

    Os casos cresceram 26%, e as mortes, 30% na região. Na cidade de São Paulo, o prefeito Bruno Covas afirmou que os bares devem voltar a funcionar a partir do dia 29 de junho, apesar do agravamento da doença no estado.

    Apagão de dados e reabertura

    Professor associado do departamento de medicina social da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto e chefe do Laboratório de Inteligência em Saúde, Domingos Alves disse ao Nexo discordar do efeito de estabilização apontado pelo Ministério da Saúde.

    “O que houve foram pequenas flutuações, inclusive aferidas mais propriamente em finais de semana. Eu queria lembrar que, duas semanas atrás, estávamos vivendo uma polêmica do sumiço dos dados, da mudança na maneira de divulgar esses dados”, afirmou.

    Segundo ele, uma desaceleração chegou a ser observada por poucos dias coincidindo com a tentativa do governo federal de esconder os números oficiais da pandemia. O Ministério da Saúde parou de apresentar os dados acumulados de casos e óbitos em 6 de junho, mas uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, dois dias depois, obrigou a retomada da divulgação nos canais oficiais do governo. A confusão fez com que veículos da imprensa formassem um consórcio para realizar uma contagem paralela usando números coletados diretamente dos estados.

    “As flutuações estão relacionadas ao represamento de dados que ficam para ser lançados no sistema, com atraso de até uma semana. Aos finais de semana, os Lacens [laboratórios centrais que processam os exames] não lançam os dados. Você vê uma flutuação de três a quatro dias, uma pretensa queda de até uma semana, mas na verdade isso não é uma queda, é uma flutuação”

    Domingos Alves

    professor associado do departamento de medicina social da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto, ao Nexo

    Os dados divulgados pelos boletins oficiais refletem uma realidade que ocorreu semanas atrás, devido a dificuldades técnicas dos laboratórios e das secretarias de saúde em computar os números, especialmente os de mortes, de acordo com o professor. As informações das secretarias municipais e estaduais muitas vezes não batem entre si.

    Alves diz que desde o início de junho a inclinação da curva tem sido mais acentuada do que vinha sendo observado antes. “Isso está relacionado, por exemplo, aos planos de reabertura no Brasil feitos de maneira heterogênea. A ideia de flexibilização ou de quarentena heterogênea não existe nos anais da medicina”, afirmou.

    Ele considera não haver nenhum platô, por enquanto, nas curvas de casos e mortes. Sobre a curva de óbitos, que segundo o Ministério da Saúde não acompanhou a de casos em relação ao seu crescimento, o professor afirma que os dados de mortes por coronavírus costumam ser defasados em uma ou duas semanas quando comparados aos números de casos, devido ao tempo de manifestação da doença. Por isso, segundo ele, na semana iniciada em 28 de junho deverá haver um pico de mortes igual ao de casos observado na semana entre 14 e 20 do mesmo mês.

    O professor critica também os planos de reabertura econômica, como o de São Paulo. “Tem um apagão entre o que o corpo científico está falando e o que os gestores estão falando. A prerrogativa é econômica. A saúde pública já foi para o espaço”, afirmou.

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