Por que homens tendem a resistir mais ao uso de máscara

Pesquisas mostram relutância masculina em adotar comportamento preventivo. Atitude inclui líderes como Bolsonaro e Trump

    Durante a pandemia do novo coronavírus, o uso de máscara facial se tornou uma medida importante para reduzir o risco de transmissão do vírus em locais públicos. Sua utilização tem sido declarada obrigatória em várias partes do país e pode passar a ser exigida em todo o território nacional, conforme um projeto de lei federal que aguarda sanção do presidente.

    Apesar das recomendações, muita gente ainda se recusa a usar a máscara. A resistência pode estar ligada à desinformação quanto à eficácia da proteção e ao desconforto de ficar com o rosto parcialmente coberto.

    Para além desses fatores, pesquisas têm apontado que questões de gênero também tem um papel no comportamento relativo à máscara. Ainda que deixar de usá-la possa ser comum a mulheres e homens, eles teriam uma tendência maior de resistir ao uso da proteção.

    Os resultados dos estudos

    Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Middlesex, no Reino Unido, e do Instituto de Pesquisa em Ciências Matemáticas, nos EUA, avaliou as diferenças de gênero entre mulheres e homens quanto à intenção de usar alguma cobertura no rosto para prevenir a disseminação do novo coronavírus.

    O artigo foi divulgado em maio em versão preliminar (“preprint”, em inglês), e ainda aguarda avaliação dos pares, adotando um procedimento mais ágil de difusão de descobertas científicas que se tornou comum durante a pandemia.

    Feito online, o experimento contou com 2.459 participantes residentes nos Estados Unidos, compondo uma amostra heterogênea e representativa da população de áreas urbanas, segundo os pesquisadores.

    Os resultados mostraram que menos homens do que mulheres relatam ter intenção de usar máscara ou outro tipo de cobertura facial contra a disseminação do vírus — a diferença no comportamento dos dois gêneros diminui em lugares onde o uso de máscara é obrigatório.

    Em parte, essa diferença se explica pelo fato de que, segundo a pesquisa, os homens acreditam menos na possibilidade de ser seriamente afetados pela covid-19 em comparação às mulheres. Eles têm uma percepção subjetiva maior de que não serão pegos pela doença e que, caso aconteça, serão capazes de se recuperar facilmente. O estudo lembra que essa crença é irônica, dado que as estatísticas têm mostrado uma letalidade maior do vírus entre homens.

    Também foram observadas diferenças de gênero nas emoções negativas associadas ao uso de cobertura facial que os participantes relataram. Com maior frequência em relação a mulheres, homens concordaram com as afirmações de que o uso da máscara é vergonhoso, estigmatizante, não é legal e é um sinal de fraqueza. Essas emoções também estão relacionadas ao fato de que menos homens pretendem usar máscara.

    Os autores do estudo sugerem que governos adotem ações especificamente voltadas para os homens com o objetivo de impactar seu comportamento quanto ao uso da máscara.

    Os resultados vão ao encontro de descobertas de pesquisas anteriores, como a de que homens têm se engajado menos em comportamentos de prevenção durante a pandemia do novo coronavírus e que, em pandemias anteriores, como a da Sars (Síndrome respiratória aguda grave) e de H1N1, mulheres também tinham maior probabilidade do que homens de utilizar máscaras faciais.

    Uma outra pesquisa, também conduzida nos EUA pela empresa de pesquisa de opinião Gallup, mostrou que 67% das mulheres disseram ter usado máscara fora de casa contra 56% dos homens. Participaram 2.451 adultos americanos e a margem de erro é de três pontos percentuais.

    O comportamento masculino de não usar máscara se encaixaria em uma postura mais ampla relacionada à saúde, segundo professores de psicologia ouvidos pelo jornal New York Times. Socialmente condicionados a ser “durões”, acabam tendo problemas em demonstrar fragilidade, medo ou preocupação com relação à própria saúde e à dos outros, significados implícitos do uso da máscara.

    “O fato de um número significativo de homens (incluindo Donald Trump) acharem que máscaras os fazem parecer fracos é mais um lembrete de como estereótipos de gênero são prejudiciais”, escreveu a colunista do jornal The Guardian Arwa Mahdawi. “A masculinidade tóxica mata”.

    Esses estereótipos também fazem com que muitos homens não procurem ajuda quando enfrentam problemas de saúde mental e que evitem ir ao médico, comportamentos que acabam levando-os a viver menos.

    Gênero e política: a irresponsabilidade de líderes

    Líderes que negaram a gravidade da pandemia ou relutaram em tomar medidas para combatê-la, como o presidente americano Donald Trump, aparecem frequentemente sem máscara.

    O próprio presidente Jair Bolsonaro circula sem ela, a ponto de uma decisão da Justiça Federal divulgada na terça-feira (23) obrigá-lo a ficar de máscara em espaços públicos do Distrito Federal, sob pena de uma multa diária de R$ 2 mil.

    Em contextos de polarização e desacordo entre instruções de lideranças políticas e autoridades de saúde, como EUA e Brasil, seu uso (ou não uso) se tornou também uma afirmação política. Mas pesquisadores afirmam que a atitude de figuras como Trump e Bolsonaro quanto ao uso da máscara também tem um componente de gênero.

    Para esses líderes, a obsessão por não demonstrar fraqueza e manter uma imagem pública de “machões” pesa mais do que dar o exemplo para a população na adoção de uma medida preventiva importante. Cada situação é uma disputa em torno da masculinidade que tem que ser vencida por eles.

    Em um artigo para a Scientific American, o pesquisador e professor da Universidade de Lawrence Peter Glick explica, com base em uma pesquisa coordenada por ele em 2018, como a adoção de comportamentos de prevenção se choca com normas da masculinidade tradicional.

    “O coronavírus expôs o quanto algumas lideranças masculinas valorizam projetar uma imagem de durões mesmo sob risco de contrair ou disseminar o vírus”, escreveu. Além de Trump, Glick também cita Bolsonaro e Boris Johnson como líderes para quem a necessidade de executar “bravatas masculinas” e provar que são infalíveis supera a preocupação em salvar vidas.

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