Como as festas de São João são celebradas na pandemia

Avanço do novo coronavírus impediu a realização das tradicionais festividades, de grande valor cultural e econômico

    É 24 de junho. As ruas estão cheias, repletas de festividades, música, risos, alegria, fogueiras, comilanças e aglomerações em celebração ao Dia de São João.

    Mas é 2020, ano de freio brusco e indefinido nas nossas vidas. Assim como todo o resto, nesta quarta-feira o Dia de São João não é comemorado como sempre foi.

    Em condições normais, o ciclo junino costuma atrair centenas de milhares de visitantes para a região Nordeste. Apenas em Caruaru, no estado de Pernambuco, mais de 3 milhões de turistas compareceram nas festas de 2019.

    Para além do valor cultural, a falta das festividades trará um impacto econômico: um prejuízo de cerca de R$ 1 bilhão para os estados do Nordeste, de acordo com uma estimativa divulgada pelo jornal Folha de S.Paulo que leva em conta apenas as festas de grande porte.

    Diante do cenário de pandemia, as festas juninas tiveram que se adaptar para aquilo que tem sido chamado de “novo normal”.

    O que está sendo feito

    Em Pernambuco, prefeituras pensaram em alternativas para a data não passar em branco. Na capital Recife, forroviocas (trenzinhos com sistemas de som) circularão pela cidade até o dia 29, levando aos recifenses quatro apresentações musicais por noite, sempre das 18h às 22h.

    Em Caruaru (PE), que abriga uma das maiores festas de São João do país, a prefeitura tem promovido shows virtuais semanalmente, além da ação São João Solidário, que busca arrecadar cestas básicas para os 18 mil trabalhadores diretos e indiretos que perderam uma fonte de renda importante com a impossibilidade de se realizar as comemorações em seu formato tradicional.

    A principal festa junina da Paraíba, realizada em Campina Grande, foi adiada para outubro e novembro. Para não deixar o mês de junho em branco, a prefeitura organizou três shows virtuais. O primeiro ocorreu na terça-feira (23), o segundo será realizado nesta quarta-feira (24) e o terceiro será feito no sábado (27), com transmissão no YouTube.

    No Distrito Federal, o Sesc (Serviço Social do Comércio) organizou as festividades. A partir das 15h desta quarta-feira (24), o canal de YouTube da associação transmite shows de forró. Moradores da região podem também retirar pratos típicos juninos nas unidades Guará, Taguatinga, Gama e Ceilândia do Sesc, com preços que vão de R$ 2 a R$ 5.

    Em São Paulo, no Centro de Tradições Nordestinas, zona norte da capital, é possível retirar pratos típicos das festas juninas em um sistema de drive-thru até o dia 26 de julho. No cardápio, é possível encontrar tapiocas, baião de dois, sarapatel, buchada de bode, feijão tropeiro, escondidinho, entre outros. Os valores vão de R$ 12 a R$ 105.

    Shows virtuais

    Além de prefeituras, artistas estão se mobilizando para a realização de shows virtuais para celebrar o Dia de São João.

    Nesta quarta-feira (24), às 20h, a cantora paraense Fafá de Belém vai transmitir um show ao vivo para comemorar a data.

    Na sexta-feira (26), a partir das 20h, o cantor pernambucano Alceu Valença apresenta uma live com participações especiais. O músico também vai comandar shows que acontecerão no sábado (27) e domingo (28).

    Um dia depois, no sábado (27), a cantora Elba Ramalho fará uma apresentação beneficente para ajudar a ONG Amigos do Bem, que atua na região de Pernambuco, Alagoas e Ceará.

    Outras iniciativas juninas

    Estão acontecendo também outras iniciativas para comemorar as festas juninas, mas sem relação com governos ou artistas consagrados.

    No Twitter, usuários estão exibindo suas festividades caseiras por meio da hashtag #FestaJuninaEmCasa, publicando fotos e vídeos.

    Algumas escolas de ensino infantil, fundamental e médio, que costumam celebrar o ciclo junino anualmente, optaram por realizar encontros virtuais para não deixar a data passar em branco.

    “O repertório das festas juninas está ligado à cultura popular e é muito rico, traz muitas possibilidades que favorecem a relação nas famílias”, disse Patrícia de Sena, diretora da escola Terra do Saber, em Belo Horizonte, ao site Canguru News, especializado em conteúdos relacionados à infância.

    A origem e a importância das festas juninas

    As raízes das festas juninas estão nas religiões pagãs da Europa, em especial as escandinavas, que celebravam seus deuses e o solstício de verão (21 de junho).

    A fogueira, imagem marcante das nossas festas juninas, pode ser encontrada na Noite de Kupala, celebrada até os dias de hoje no leste europeu, e no festival Jani, na Letônia.

    As festas juninas chegaram ao Brasil no século 16, trazida pelos portugueses, e já incorporadas com o catolicismo, em especial a celebração dos dias de Santo Antônio (19 de junho), São João Batista (24 de junho), São Pedro e São Paulo (29 de junho).

    Com o passar dos anos, apesar da predominância do catolicismo, as festas juninas no Brasil começaram a incorporar também elementos da cultura indígena do país e das religiões de matriz africana, que contam com forte presença no Nordeste do país.

    Junto ao Carnaval, o ciclo junino é a festividade mais importante para a região Nordeste – tanto por seu valor cultural, como pela movimentação turística e econômica.

    “O calendário de Caruaru é dividido em dois períodos: antes do São João e depois do São João. É o momento em que a gente se enxerga protagonista durantes dois meses”, disse ao jornal Zero Hora a prefeita de Caruaru, Raquel Lyra (PSDB).

    “Estamos todos muito tristes, mas tristeza maior é esta pandemia. Entendemos que não havia clima para celebrar nada quando estão morrendo 1.200 pessoas por dia no país”, afirmou à Folha de S.Paulo o prefeito da cidade baiana de Cruz das Almas, Orlando Peixoto (PT).

    De acordo com estimativa divulgada pela Folha, a não realização das festividades juninas trar�� um prejuízo de cerca de R$ 1 bilhão para os estados do Nordeste.

    O valor foi levantado com base na movimentação econômica das principais festas da região, realizadas em Pernambuco, Paraíba, Bahia e Rio Grande do Norte – estes dois últimos não realizarão nenhum tipo de festividade, nem mesmo virtualmente.

    O prejuízo vem da não realização das festas em si, mas também da falta de movimento no setor hoteleiro e da baixa procura de produtos como os tradicionais licores artesanais e fogos de artifício.

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