Como a pandemia impulsiona um mercado ilegal na medicina

Países em desenvolvimento veem crescer a oferta de suprimentos médicos em fontes paralelas, com preço inflacionado e sem eficácia comprovada

    A pandemia da covid-19 que, até quarta-feira (24), tinha contaminado mais de 9 milhões de pessoas em 188 países e regiões do mundo está impulsionando um mercado clandestino milionário de insumos médicos.

    O comércio ilegal ocorre sobretudo em países em desenvolvimento, nos quais os sistemas públicos de saúde são inexistentes ou insuficientes, e a regulação dos insumos e tratamentos é menos rigorosa.

    Em países da América Latina, da Ásia e da África, suprimentos essenciais para o tratamento das vítimas são encontrados com preços até 1.000% mais altos, nas mãos de fornecedores informais. A mercantilização dos insumos vitais cresce à medida que a pandemia se move dos países desenvolvidos da Europa na direção de países mais pobres.

    A restrição nas rotas aéreas e marítimas do comércio mundial dificulta a distribuição de insumos dos grandes centros produtores para as periferias consumidoras do mercado global da medicina, o que favorece o surgimento de redes paralelas de fornecimento.

    Esse mercado inclui tanto insumos médicos de eficácia comprovada e de necessidade vital, como os cilindros de oxigênio usados nos hospitais, quanto materiais de efeito duvidoso e de uso potencialmente perigoso, como no caso da transfusão de sangue feita a partir de pessoas que se curaram da doença e que, numa tese sem comprovação científica, poderiam doar anticorpos a pessoas que ainda não foram infectadas, e que buscam imunização.

    Plasma à venda no Paquistão

    Uma reportagem publicada na terça-feira (23) pelo jornal britânico The Guardian revela como funciona o mercado negro de sangue humano em clínicas privadas da capital do Paquistão, Islamabad.

    Paquistaneses que sobreviveram à infecção pela covid-19 estão vendendo bolsas com o próprio plasma para compradores que acreditam poder se imunizar do vírus, a partir dos anticorpos adquiridos.

    Não existe comprovação médica sobre a eficácia desse procedimento, que ainda vem sendo testado em caráter experimental em hospitais do Reino Unido. Também não há consenso sobre o fato de que pessoas que sobrevivem à infecção desenvolvam os anticorpos para a doença. Ainda assim, médicos paquistaneses dizem presenciar transações desse tipo diariamente nos arredores dos hospitais do país.

    O acerto ocorre entre quem vende e quem compra, sem participação dos médicos ou do sistema de saúde local. Em seguida, as partes procuram uma clínica privada para que aceite efetuar a transfusão ou a “transação”.

    Cada bolsa de plasma chega a ser vendida pelo equivalente a quase R$ 25 mil. As ofertas também circulam em mensagens de texto de celular, alimentando um mercado negro que se expande à medida que a doença avança no país.

    A Suprema Corte local mandou suspender a quarentena obrigatória nacional no dia 18 de maio, e hoje o país tem uma das mais altas taxas de infecção do mundo, com 5 mil novos pacientes contraindo a doença por dia, e com projeção de que o número total de infectados chegue a 1,2 milhão até o fim de julho, num país cuja população total é de 212 milhões de pessoas.

    Cilindros de oxigênio em falta

    No Peru, cilindros de oxigênio, usados para salvar a vida de pacientes internados com insuficiência respiratória, estão em falta em muitos hospitais. Parentes das vítimas chegam a pagar quase R$ 7 mil por cada garrafa do produto no mercado negro.

    O preço é até 1.000% mais caro do que antes da pandemia, e o produto pode ser encontrado em anúncios que circulam oficiosamente por celulares e em contas privadas em redes sociais.

    “Quase tivemos de vender a nossa casa porque minha mãe precisava de oxigênio o tempo todo”, disse Fiorella Soroza ao site britânico de notícias BBC. A mãe dela, Edda Merchán, acabou morrendo, vítima da covid-19.

    A falta de oxigênio também afeta países da África, como a República Democrática do Congo. Na capital, Kinshasa, médicos relatam que os cilindros disponíveis são suficientes para atender no máximo metade dos pacientes atendidos. Situação semelhante é relatada em Lagos, maior cidade da Nigéria.

    A tecnologia para engarrafar oxigênio não é sofisticada, mas fatores como falta de higiene e umidade excessiva podem dificultar o processo, e frequentemente resultam em insumo de baixa qualidade nos países menos desenvolvidos.

    A Organização Mundial da Saúde disse que planeja aumentar em até US$ 250 milhões a oferta de cilindros de oxigênio para os países que sofrem com a falta do produto, no momento em que a pandemia cresce sobretudo nos países em desenvolvimento.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.