Por que a reabertura nestas capitais aconteceu antes do tempo

Estudo de pesquisadores de Oxford, USP e FGV mostrou que oito cidades brasileiras retomaram atividades sem cumprir critérios previstos pela Organização Mundial de Saúde

    As medidas de combate à pandemia do novo coronavírus no Brasil, adotadas principalmente por estados e prefeituras, foram eficazes ao alertar a população sobre a gravidade da doença e reduziram de forma expressiva a mobilidade da população. Mas o afrouxamento das restrições aconteceu sem que o país atingisse critérios da OMS (Organização Mundial de Saúde) para uma reabertura segura.

    A conclusão é de um estudo de pesquisadores da Escola de Governo de Oxford, no Reino Unido, da Escola de Administração Pública da FGV (Fundação Getulio Vargas) do Rio e do departamento de ciência política da USP (Universidade de São Paulo).

    Eles analisaram o impacto de uma série de políticas públicas adotadas em oito capitais brasileiras: São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Recife, Fortaleza, Goiânia, Manaus e Porto Alegre.

    Também usaram dados de mobilidade de telefones celulares e os resultados de uma pesquisa com 1.654 moradores dessas cidades, realizada entre 6 e 27 de maio. Ao final, os pesquisadores fizeram recomendações para auxiliar os gestores públicos.

    A OMS declarou a covid-19 como pandemia em 11 de março de 2020, quando a doença já havia atingido 113 países e territórios. A primeira morte pelo coronavírus no Brasil ocorreu seis dias depois, mas desde 26 de fevereiro o país já registrava oficialmente casos de infecção.

    Em 14 de abril, em meio a discussões sobre a reabertura de vários países, a organização decidiu divulgar seis critérios que deveriam ser levados em consideração pelos governos para a retomada das atividades.

    Os critérios da OMS

    Transmissão controlada

    Quando o número de novos casos da doença caem por 14 dias ou mais, a situação é considerada sob controle. O ideal é que as novas transmissões sejam esporádicas ou ocorram na forma de grupos de casos. O número de infectados tem que atingir uma quantidade mínima que o sistema de saúde consiga gerenciar.

    Capacidade de detectar e isolar

    O sistema de saúde precisa conseguir identificar e quebrar cadeias de transmissão da infecção por meio da detecção de novos casos, testagem, isolamento e tratamento de todos os doentes.

    Minimizar risco de novos surtos

    Os governos precisam reduzir os riscos de uma explosão de novos casos com medidas em hospitais, onde há alto risco de contaminação, locais fechados e pouco ventilados como cinemas e teatros, e espaços públicos, onde o distanciamento físico deve ser aumentado.

    Prevenção em locais de trabalho

    Empresas precisam adotar protocolos de distanciamento físico, higiene (como lavar frequentemente as mãos ou usar álcool em gel), utilizar máscaras ou cobrir tosses e espirros com o braço, e monitorar a temperatura dos funcionários. O trabalho remoto deve ser encorajado.

    Controlar os riscos de importações de casos

    Os países deverão monitorar a entrada e saída de viajantes, identificando origens e rotas da doença. Isso pode ser feito por meio de triagens em locais como aeroportos. Também será necessário gerenciar rapidamente casos suspeitos entre os viajantes.

    Educar, engajar e empoderar as comunidades

    A população deve entender que haverá um “novo normal” após a flexibilização das restrições e que todos terão um papel a desempenhar na prevenção ao surgimento de novos casos.

    Os achados do estudo

    A pesquisa demonstrou que as medidas restritivas nas oito capitais estudadas de fato afetaram a mobilidade da população. Elas levaram a uma maior permanência em casa e reduziram o número de deslocamentos não essenciais e da distância percorrida, embora o registro de casos de covid-19 continuasse crescendo em todo o país.

    “Isso é um indício de que essas medidas tiveram sim um efeito no comportamento das pessoas, que estão se movimentando menos”, disse Beatriz Kira, pesquisadora da Escola de Governo da Universidade de Oxford e uma das autoras do estudo, ao Nexo. A pesquisa também foi feita por Anna Petherick (Oxford), Rafael Goldszmidt (FGV) e Lorena Barberia (USP).

    80%

    das pessoas ouvidas nas oito capitais disseram considerar a covid-19 muito mais grave do que uma gripe comum

    Apesar de as medidas terem tido um impacto na mobilidade, elas não foram suficientes para barrar a epidemia no Brasil. Em muitas cidades, o índice de isolamento permaneceu abaixo dos 50%, enquanto especialistas defendem que a taxa ideal para frear a infecção é de 70%.

    Em cidades como São Paulo, houve críticas ao plano de reabertura por dar maior peso à capacidade hospitalar do que à evolução da pandemia em si. Especialistas disseram que os governos do estado e da capital priorizaram o comércio. Os shoppings foram reabertos em 11 de junho, às vésperas do Dia dos Namorados, por pressão de lojistas.

    A retomada das atividades no Brasil ocorreu antes do pico da doença — enquanto muitos países, como a Itália, esperaram mais de um mês após a fase mais aguda para flexibilizar as restrições. E ela não atendeu no Brasil a nenhuma das recomendações da OMS. O estudo ressalta que os critérios da entidade não foram “amplamente discutidos” no país.

    7%

    dos entrevistados pela pesquisa que disseram ter tido sintomas da doença foram testados; outros 13% tentaram realizar exames mas não conseguiram

    Os motivos para reabrir mesmo assim

    Para a Beatriz Kira, a retomada das atividades em meio ao agravamento da pandemia ocorre devido aos “altos custos da manutenção das medidas rígidas por muito tempo”.

    “As medidas estão sendo eficazes, mas são muito custosas. E a maior parte desse fardo econômico da manutenção de medidas rígidas é carregado, principalmente, pelas parcelas mais vulneráveis da população. São pessoas de baixa renda, trabalhadores informais e microempreendedores”

    Beatriz Kira

    pesquisadora da Escola de Governo da Universidade de Oxford

    Segundo o estudo, a redução da renda em relação à fevereiro, antes da pandemia, foi mais comum entre empreendedores formais (77% disseram ter sido afetados) e trabalhadores informais (67%). Entre os trabalhadores formais, 39% disseram que tiveram perdas salariais.

    34%

    dos entrevistados pela pesquisa disseram que sofreram redução da renda pela metade após a pandemia

    7%

    declararam perda total de rendimentos após as medidas de isolamento social

    Para a pesquisadora, as discrepâncias surgidas com as políticas adotadas precisam ser levadas em conta na avaliação de relaxar ou não as quarentenas. Ela lembra, por exemplo, que o fechamento de escolas por todo o Brasil tem efeito desigual e prejudica muito mais alunos de escolas públicas.

    “Essas escolhas são difíceis. Não é uma questão dicotômica entre saúde ou economia. A longo prazo, os impactos econômicos de agora podem levar à falta de recurso para investir em saúde pública no futuro”, afirmou.

    A pesquisadora considera ainda que a aplicação de lockdowns em cidades do país continua sendo uma possibilidade, considerando que, na maioria dos países, as medidas restritivas acompanham a evolução da pandemia e se alternam entre um maior e um menor rigor.

    Ela lembrou que, embora nenhuma das capitais estudada tenha atingido as seis metas da OMS no momento de flexibilizar as quarentenas, isso não é uma marca exclusiva do Brasil e que a maioria dos países estão reabrindo ainda distante dos critérios.

    As recomendações do estudo

    Campanhas de informação

    É preciso reforçar que o auto-isolamento de doentes ou suspeitos de terem se infectado significa ficar em casa sem sair por ao menos 14 dias, mesmo para comprar itens essenciais, tendo a ajuda de alguém para isso

    Teste e rastreamento

    Um programa mais robusto de teste e rastreamento de contatos pode, com o tempo, reduzir a necessidade de fechamentos e medidas mais rigorosas

    Distanciamento no trabalho

    Locais de trabalho devem ser incentivados a implementar amplamente as medidas de distanciamento físico de seus funcionários para evitar novas transmissões do vírus

    Apoio à renda

    Os grupos que estão recebendo o auxílio emergencial tiveram as maiores reduções de renda desde fevereiro, segundo o estudo, que considera improvável uma recuperação rápida após a reabertura das atividades. Por isso, os pesquisadores sugerem o prolongamento do auxílio além dos três meses iniciais

    A volta do fechamento

    Algumas das cidades que decidiram flexibilizar o isolamento já estão voltando atrás por causa do aumento de novos casos de covid-19. Na terça-feira, o prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan (PSDB), assinou um decreto determinando que setores como o comércio, a indústria e a construção civil deverão interromper novamente as atividades a partir de quarta-feira (24).

    O texto é parecido com o que foi assinado no fim de março, decretando estado de calamidade pública e só permitindo serviços essenciais. A reabertura do comércio e de restaurantes havia acontecido em meados de maio. De 2 a 21 de junho, o número de pacientes internados em UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) na cidade pulou de 42 para 94. Uma estimativa da prefeitura previu que 200 leitos seriam ocupados nos próximos 15 dias se um novo fechamento não ocorresse.

    Devido ao tempo de incubação do vírus no organismo, pesquisadores dizem que o impacto da flexibilização das quarentenas só é sentido duas semanas depois. O Brasil também enfrenta um problema de subnotificação de casos e mortes por causa da falta de testes.

    1.145.906

    casos de infecção por covid-19 foram confirmados no Brasil até a terça-feira (23), segundo o Ministério da Saúde

    52.645

    era o número de mortes pela doença até a mesma data, de acordo com o órgão

    Em Florianópolis, o prefeito Gean Loureiro (DEM) também decidiu adotar novas restrições a partir de quarta-feira (24), por ao menos mais 14 dias, devido ao aumento de novos casos da doença na cidade.

    A prefeitura havia decidido reabrir academias e shoppings desde o final de abril. A decisão de voltar atrás ocorreu após a cidade registrar duas novas mortes na segunda-feira (22). Florianópolis tem dez mortes e 1.122 casos confirmados. A taxa de transmissão do vírus chegou a 1,3, o que significa que 100 infectados passam a doença para outras 130 pessoas. Índice superior a 1 indica que a transmissão não está controlada.

    Em Campo Grande, o prefeito Marquinhos Trad (PSD) ampliou o toque de recolher na cidade. A partir de sexta-feira (26), as atividades serão interrompidas das 22h às 5h. Desde abril, o fechamento dos estabelecimentos ocorria à meia-noite. A decisão ocorreu depois que um bar com música ao vivo foi flagrado cheio de pessoas, em desrespeito às regras da prefeitura. Segundo Trad, a população “não soube usar” a permissão que havia sido concedida.

    Um modelo desenvolvido por pesquisadores da USP apontou que uma em cada cinco cidades do país registrava até a terça-feira (23) crescimento acelerado de casos do novo coronavírus. Em 20 das 27 capitais a doença avança com velocidade.

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