Como investidores chineses financiam o tráfico de onças

Estudo aponta que a maior parte do comércio ilegal de presas, ossos e peles de grandes felinos na América Latina sai do Brasil, mas país mais cooptado pelo mercado asiático é a Bolívia

Pesquisadores da Universidade Oxford Brookes, na Inglaterra, associaram o crescimento do tráfico de onças-pintadas na América Latina à presença de investimento privado chinês.

O estudo, publicado na revista científica Conservation Biology no dia 2 de junho, não implica o governo nem a população da China de modo geral, mas aponta que boa parte do dinheiro que financia a atividade ilegal é proveniente do país.

A descoberta sobre a América Latina segue uma tendência de outras regiões do mundo, como a África e Sudeste Asiático, onde o tráfico de animais silvestres cresceu impulsionado por uma demanda vinda da China.

De forma geral, espécies de grandes felinos são ameaçadas de extinção por ação do homem. Soma-se ao tráfico, o atropelamentos em rodovias, a destruição de habitat e as mortes por fazendeiros que tiveram o rebanho predado. No caso das onças-pintadas, a caça quase levou a espécie à extinção no século 20. Na época, os EUA eram os principais importadores — só nos anos de 1968 e 1969, o país importou mais de 23 mil peles do animal.

60 mil a 170 mil

é o número estimado de onças-pintadas no mundo atualmente

Em 1975, a Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora proibiu o comércio internacional de animais silvestres para os membros da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza). China e EUA fazem parte da organização.

O tráfico de felinos na América Latina, segundo o estudo

Para fazer a pesquisa, foi analisado o número de apreensões de felinos (como onças, pumas e jaguatiricas) nos países da América Latina, excetuando o México e as ilhas do Caribe, entre 2012 e 2018.

Em 34% dos casos, os relatórios indicavam que os eventos tinha conexão com a China. A dinâmica do tráfico para o território asiático envolvia grandes volumes: em média, 13 vezes mais animais do que os que tinham como destino o mesmo país de captura. Em dois casos, foram encontradas mais de 30 onças-pintadas em uma mesma apreensão.

1.038

é o número de felinos apreendidos entre 2012 e 2018 nos países analisados pela pesquisa. Desses, 857 eram onças-pintadas

O Brasil é o país onde houve mais apreensões: 35,1% do total. Isso pode ser explicado pela extensão da área habitada pelos felinos, a maior na América Latina. Já a Bolívia é a nação que tinha mais apreensões com a China como destino final. Os pesquisadores descobriram também que a quantidade de felinos apreendidos em um país é maior:

Segundo o estudo, pobreza e corrupção fazem com que mais nativos se envolvam em atividades ilegais. O tráfico de animais silvestres acaba sendo um meio de ascensão social e financeira bem mais rápido do que por vias lícitas, que ainda se beneficia de governanças locais e fiscalização ambiental geralmente fracas. Em 2018, uma presa de onça-pintada era anunciada nos mercados ilegais da Bolívia por valores entre US$ 120 e US$ 150; o equivalente a meio salário mínimo boliviano na época.

As próprias cadeias legais de mercado podem providenciar estrutura para as ilegais, seja mascarando o fluxo de produtos ilícitos, transportando junto em remessas regulares ou fornecendo redes de contato. Na última década, grupos privados chineses capitanearam o desenvolvimento econômico de regiões isoladas na América Latina, e os pesquisadores afirmam que o tráfico de felinos provavelmente é um efeito colateral disso.

A hipótese é de que parte dos chineses que agora chegam à América mantêm contatos atuais com o mercado asiático ilegal, estimulando redes de tráfico locais. Segundo os cientistas, não houve correlação entre os chineses que já residiam há mais tempo nos países estudados com uma maior taxa de apreensão de felinos.

A melhor forma de combater o tráfico do lado dos fornecedores é melhorar o treinamento de fiscais ambientais e promover campanhas de conscientização aos povos locais, fomentando atividades de extração natural e ecoturismo. “Se combatermos isso no começo, quando o tráfico está crescendo, podemos mudar o curso das coisas antes que seja tarde demais”, diz a brasileira Thaís Morcatty, autora principal da pesquisa, ao jornal The New York Times.

O problema é que dificilmente os traficantes são presos. À revista Nature em 2018, Vincent Nijman, outro pesquisador do grupo, disse que “a sociedade nesses países, de modo geral, não está interessada”.

Como a demanda chinesa impacta a procura por felinos

Para combater o tráfico do lado da demanda, os pesquisadores pedem por campanhas na China desincentivando o uso de produtos animais de origem silvestre. Mas é uma tarefa difícil, por serem costumes bastante antigos. Ossos de felinos são utilizados, por exemplo, na medicina tradicional, e as presas servem como joias e amuletos, normalmente associadas à força. Há também quem mantenha certas partes da carcaça para atrair poder espiritual ou status social.

Com a ascensão de uma classe média urbana, impulsionada pelo crescimento da economia chinesa, houve também um aumento na procura desses produtos. Historicamente, essa indústria é alimentada pelo tráfico de leões da África e tigres de outros países asiáticos. Mas com a maior fiscalização no tráfico de tigres, as peças foram ficando mais caras, o que, segundo os cientistas, pode ter motivado consumidores a aceitar substitutos felinos mais baratos.

31%

dos mamíferos apreendidos em aeroportos no mundo são de grandes felinos ou de partes deles. A China foi o destino mais registrado, segundo relatório Tráfico de Animais Selvagens no Setor de Transporte Aéreo

Dos itens apreendidos analisados pela pesquisa, 94% eram de presas de onça-pintada. O que é um problema porque depois de esculpidas ou adicionadas a peças de joalheria, torna-se mais difícil reconhecer e identificar de quais espécies elas vieram, e assim reforçar a fiscalização nas áreas que o animal costuma habitar. Além disso, no fim da cadeia, esses produtos podem ser lavados como produtos legais.

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