Por que o Alasca removeu o ônibus de ‘Na natureza selvagem’

Veículo estava abandonado em trilha desde a década de 1940, e ganhou um status místico ao longo dos anos por história retratada na literatura e no cinema

    Quem estivesse no Parque Nacional de Denali, interior do estado americano do Alasca, na sexta-feira (19), e olhasse para o céu, veria um ônibus enferrujado sobrevoando as árvores, erguido por cabos e helicópteros.

    A visão inusitada representou o desfecho para a história do veículo, que adquiriu um status místico para parte dos aventureiros que nutrem o desejo de desbravar o Alasca.

    Em 1992, o ônibus, abandonado no meio da mata na década de 1940, foi o abrigo de Christopher McCandless, jovem americano de classe média alta, nascido na Califórnia, que decidiu renegar sua família e origens, e partir para uma vida vagante em meio às paisagens naturais dos EUA.

    Foi naquele ônibus que McCandless morreu, aos 24 anos, no verão daquele ano, de causas que até hoje não foram completamente esclarecidas.

    A história do jovem foi contada pelo jornalista Jon Krakauer, que escreveu uma reportagem sobre McCandless e o livro “Na natureza selvagem”, lançado em 1996. Em 2007, a obra foi adaptada pelo ator e cineasta Sean Penn no filme de mesmo nome, estrelado por Emile Hirsch (“Era uma vez em Hollywood”).

    Livro e filme se solidificaram no imaginário popular, e aventureiros do mundo todo, ano após ano, decidiram refazer a trilha do jovem rumo ao ônibus – nem sempre com resultados positivos.

    Seguidores em apuros

    Dois mochileiros se afogaram no rio Teklanika tentando chegar até o ônibus, em 2010 e 2019. Cerca de outras 20 pessoas precisaram ser resgatadas da trilha entre 2009 e 2020, de acordo com dados divulgados pelo Departamento de Recursos Naturais do Alasca.

    Os resgates embasaram a decisão de remover o ônibus. “Nós encorajamos as pessoas a conhecerem as áreas selvagens do Alasca em segurança, e nós entendemos o papel desse ônibus no imaginário popular”, disse uma nota publicada pelo Departamento de Recursos Naturais. “Contudo, esse veículo abandonado e deteriorado estava exigindo resgates perigosos e custosos, e mais importante, estava custando a vida de alguns visitantes."

    As autoridades alasquianas ainda não sabem o que farão com o veículo. Ele ficará guardado até uma decisão.

    O resgatado mais recente foi o brasileiro Gabriel Dias da Silva, 26 anos, que, em abril de 2020, precisou pedir socorro.

    Silva estava no estado desde fevereiro, trabalhando em um hotel que precisou fechar as portas pela pandemia do novo coronavírus. Ele então decidiu se aventurar na trilha Stampede, no Parque Nacional de Denali, para refazer o caminho de McCandless e chegar ao ônibus.

    O brasileiro, paulista do município de Cândido Mota, chegou ao ônibus atravessando um rio congelado, e pretendia passar três meses no local. Porém, ele logo percebeu a dificuldade da tarefa – além da comida escassa, ursos pardos viviam na região e havia risco de degelo dos rios da trilha.

    Munido de um seguro de viagem que incluía resgate em áreas remotas, Silva pediu ajuda e foi retirado da trilha por meio de um helicóptero.

    Quem foi Christopher McCandless

    Christopher Johnson McCandless nasceu em 1968, na cidade de El Segundo, ao sul de Los Angeles, Califórnia, em uma família de classe média alta. Seu pai era um engenheiro espacial que fez carreira na Nasa e sua mãe, uma secretária de uma empresa de desenvolvimento aeroespacial.

    “Chris”, como era chamado pelos parentes e amigos, desde cedo demonstrou um certo desconforto com o mundo, de acordo com relatos registrados no livro “Na natureza selvagem”, de Jon Krakauer.

    Semanas após se formar em história e antropologia na Universidade de Emory, na Geórgia, em maio de 1990, ele doou os US$ 24 mil que tinha em sua conta – que usaria para pagar um curso de direito – para a Oxfam, organização sem fins lucrativos de combate a pobreza, e partiu, sem rumo, atravessando a América do Norte.

    McCandless não avisou a família de seus planos. Seu objetivo era conhecer o continente e passar uma temporada no Alasca.

    Nessa jornada, o jovem abandonou sua identidade original e assumiu o nome de Alexander “Alex” Supertramp, em referência à banda de rock britânica sucesso nos anos 1980.

    Viajando, ele passou pela Califórnia, pela Dakota do Sul e pelo Arizona, conhecendo pessoas no caminho – a maior parte delas entrevistadas por Krakauer para o livro. Todas relatam algo em comum: que Chris, ou Alex, bradava aos quatro ventos que faltava verdade no mundo, e que sua jornada era uma forma de viver 100% de acordo com seus ideais, sem as supostas hipocrisias do mundo moderno.

    “Há dois anos ele caminha pela Terra. Sem telefone, sem piscina, sem animais de estimação, sem cigarros. A liberdade plena. Um extremista. Um esteta viajante cujo lar é a estrada. Fugiu de Atlanta. Tu não vai retornar, porque ‘o Oeste é melhor’. E agora, depois de dois anos, vem a última aventura. A batalha para matar o falso ser e concluir a revolução espiritual”

    Christopher McCandless

    em seu diário, encontrado no ônibus na trilha Stampede

    As versões sobre a morte de McCandless

    Em abril de 1992, prestes a completar dois anos na estrada, McCandless rumou para o Alasca. Lá, viveu por cerca de 120 dias no ônibus abandonado. Sua intenção era viver de forma primitiva, comendo apenas o que caçava, e sem nenhum tipo de contato com a civilização.

    Seus planos, porém, foram frustrados de várias maneiras. Inexperiente na caça, o jovem não soube preservar a carne de um alce e se viu forçado a comer plantas e raízes.

    De acordo com Krakauer, McCandless teria morrido de inanição após ingerir uma grande quantidade de sementes de batata-silvestre venenosas.

    O veneno em questão seria a swainsonina, toxina que impede que o corpo transforme comida em energia utilizável – mesmo que venha a ingerir uma quantidade considerável de alimentos ultra-calóricos.

    É essa hipótese que foi originalmente impressa no livro “Na natureza selvagem” e adaptada visualmente para o filme dirigido por Sean Penn.

    O corpo de Chris foi encontrado por caçadores em setembro de 1992, já em estado de decomposição, dificultando testes para determinar com precisão a causa de morte.

    Uma outra hipótese, proposta por Ronald Hamilton, um bibliotecário aposentado da Universidade da Pensilvânia, diz que o envenenamento veio das sementes de batata-silvestre, mas não pela swainsonina – uma toxina alcaloide –, e sim por um aminoácido que pode vir a causar paralisia nas pernas.

    Nesse cenário, McCandless teria morrido de inanição simplesmente porque não conseguia andar e sair em busca de alimentos.

    “Eu tive uma vida feliz, graças ao Senhor. Adeus e que Deus abençoe a todos!”

    Christopher McCandless

    em bilhete deixado no interior do ônibus

    Em 2015, Krakauer publicou uma reportagem na revista New Yorker ventilando também a possibilidade de que a ingestão das sementes tenha causado em McCandless um envenenamento por canavanina, que causa fraqueza intensa se ingerida em grandes quantidades. Novas edições de “Na natureza selvagem” contam também com essa versão.

    ‘Na natureza selvagem’: uma história polarizante

    A história de McCandless ganhou as livrarias em um best-seller e as telas de cinema com um filme sucesso de crítica.

    Porém, a jornada do jovem é polarizante, tanto entre aventureiros, como entre o público em geral. Para muitos, ele é um herói, alguém que viveu de acordo com seus ideais. Para outros muitos, um tolo egoísta que teve uma morte precoce, evitável e desnecessária.

    “O debate sobre a morte de Chris McCandless, e a pergunta sobre ele ser digno de admiração, tem circulado e ressurgido por mais de duas décadas”, escreveu Krakauer num artigo publicado no Medium em 2016.

    Familiares de McCandless também estão cientes de como a história suscita fortes sentimentos. “Muitos admiravam Chris por sua coragem e se inspiraram em seus princípios transcendentes”, afirmou à revista Outside Carine McCandless, irmã mais nova do jovem.

    “Outros o consideram um idiota e criticam-no por sentirem que Chris era arrogante e irresponsável. Há também quem simplesmente acredita que ele era instável mentalmente e foi para a natureza sem nenhuma intenção de voltar”, disse.

    Em 2014, Carine escreveu o livro “The wild truth” (A verdade selvagem, em tradução livre), na qual relembra a vida da família McCandless, o desaparecimento do irmão e tudo que veio depois. No livro, ela revelou, pela primeira vez, que seus pais eram abusivos dentro do ambiente familiar, e atacavam os filhos verbal e fisicamente.

    Entre os aventureiros, as críticas giram em torno de Chris ter saído em sua jornada sem experiência e preparo prévio – nem um mapa da região estava em suas mãos. Para eles, o lugar que o livro e o filme ocupam no imaginário popular podem inspirar outros jovens incautos.

    “Ele é glorificado depois de morto porque estava despreparado. Você não pode vir para o Alasca e fazer isso”, escreveu em 2006 o colunista Dermot Cole no principal jornal de Fairbanks, cidade que abriga a trilha Stampede.

    Entre o público geral, a história de McCandless também é divisiva, e dezenas de críticas ao jovem podem ser encontradas nas redes sociais.

    “‘Na natureza selvagem’ pode ser um filme bonito, mas o protagonista é só um branco mimado que tinha tempo e dinheiro pra ser desapegado de bens materiais”, disse uma usuária do Twitter, em uma crítica repetida com frequência.

    As críticas a Krakauer

    Krakauer, e a forma como ele apresentou a história de McCandless, também são alvos de críticas.

    Para Dermot Cole, o jornalista ganhou dinheiro ao criar um mito que acabou incentivando aventureiros que se arriscam na trilha em busca do ônibus. “Ele se recusa a tomar responsabilidade pelo papel que teve em encorajar as pessoas a fazerem ‘coisas estúpidas”, em seu blog na sexta-feira (19).

    Ao jornal Washington Post, Krakauer disse, na sexta-feira (19), que sentia uma parcela de responsabilidade nos incidentes que levaram à remoção do ônibus. “Eu gostaria que o ônibus tivesse permanecido lá. Mas eu escrevi o livro que ajudou a arruiná-lo”, afirmou.

    David A. James, colunista do jornal Anchorage Press, da região centro-sul do Alasca, também critica uma suposta beatificação que o autor proporcionou a McCandless.

    “Jon Krakauer tinha uma paixonite por McCandless, e subestimou ou ignorou seus erros fatais, apresentando o jovem como um herói fabricado cuja morte foi um acidente cruel do destino, e não consequência de seus atos. Se Krakauer tivesse se afastado da história e olhado tudo objetivamente, teríamos um livro diferente”, afirmou, em texto publicado no dia 15 de agosto de 2019.

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