O estudo que põe em dúvida a ideia de passaporte da imunidade

Pesquisadores chineses apontam que níveis de anticorpos em pacientes que se curaram da covid-19 caíram significativamente depois de um período de dois a três meses

    O nível de anticorpos presentes no organismo de pessoas que contraíram o novo coronavírus e se curaram da doença diminui significamente dois ou três meses após a infecção, segundo um estudo conduzido por pesquisadores chineses. O trabalho foi publicado na revista científica Nature Medicine, em 18 de junho.

    Os anticorpos são uma defesa natural do organismo que evita que o vírus continue se reproduzindo num indivíduo infectado. Em tese, eles criam imunidade, ou seja, impedem que uma pessoa volte a manifestar a doença na hipótese de ter contato com o vírus novamente.

    Países como a Alemanha estudam a possibilidade de que pessoas que se curaram voltem a circular livremente. A ideia de um passaporte de imunidade, documento que comprovaria que a pessoa está protegida da doença, foi defendida no Brasil pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, em abril, como uma estratégia para a retomada da economia.

    “Se você fez o teste [rápido, que identifica a presença de anticorpos] e deu positivo, você pode circular. Você fez o teste e deu negativo, você tem que ir para casa. Não é agora. Agora nós estamos em isolamento. Nós estamos planejando uma saída, lá na frente e termos esse teste em massa. As pessoas vão sendo testadas, pode ser semanalmente, e quem estiver livre continua trabalhando”

    Paulo Guedes

    ministro da Economia, em abril, ao defender a adoção de um passaporte de imunidade no Brasil

    O novo achado, porém, coloca em dúvida se essa imunidade adquirida por pessoas que já se curaram persiste por muito tempo e se a estratégia de liberá-las para trabalhar funcionaria.

    9 milhões

    de pessoas em 188 países e regiões haviam sido contaminadas pelo novo coronavírus até a segunda-feira (22), segundo dados compilados pela Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos

    469.939

    era o número de mortos pela doença até a mesma data, segundo a instituição

    O que diz o estudo

    A pesquisa intitulada “Avaliação clínica e imunológica de infecções assintomáticas por SARS-CoV-2” analisou 37 pacientes assintomáticos no distrito de Wanzhou, em Chongqing, na China. Seu objetivo era tentar entender como se comporta, em relação aos anticorpos, o organismo de indivíduos que não manifestaram sintomas da covid-19 (como febre, tosse e falta de ar) ao longo de 14 dias. O estudo foi feito por cientistas da Universidade Médica de Chongqing.

    A presença do vírus no grupo foi comprovada por meio de testes RT-PCR, feitos a partir da coleta de secreção das vias respiratórias. Os 37 pacientes infectados mas sem sintomas foram comparados com outros dois grupos do mesmo tamanho e com as mesmas características de idade, sexo e comorbidades: um com pacientes sintomáticos e outro que apresentou resultado negativo nos testes.

    Entre as pessoas pesquisadas, havia pacientes de 8 a 75 anos, sendo que a média de idade era de 41 anos. Do total, 22 pacientes eram mulheres, e 15, homens.

    Os cientistas constataram que a presença de anticorpos IgG nos pacientes assintomáticos é significativamente menor. O IgG é o anticorpo que o indivíduo carrega pelo resto da vida. Antes dele, o organismo produz, como uma resposta inicial à doença, outro anticorpo, o IgM, de 12 a 15 dias após a infecção. Com o tempo, o IgM vai sendo lentamente substituído pelo IgG.

    Em teoria, ter os anticorpos IgG cria imunidade e impede que uma pessoa transmita o vírus. O estudo mostrou que doentes com sintomas têm níveis maiores de IgG se comparados aos assintomáticos, ou seja, quem não apresenta sintomas têm uma resposta imune mais fraca.

    Mas tanto os sintomáticos quanto os assintomáticos, segundo a pesquisa, apresentaram uma redução em mais de 70% nos níveis desses anticorpos IgG de dois a três meses depois da infecção.

    Professor de virologia da Universidade de Hong Kong, Jin Dong-Yan afirmou a agências de notícias internacionais que, apesar da redução nos níveis de anticorpos, isso não significa que a proteção contra o coronavírus pelos infectados tenha sido completamente eliminada. Ele não participou do estudo.

    Segundo ele, algumas células memorizam como reagir ao vírus quando são infectadas pela primeira vez e podem se proteger com eficiência na hipótese de um segundo contágio. “A descoberta neste estudo não significa que o céu está desabando”, afirmou à agência Reuters. Ele disse ainda que o número de pacientes estudados é pequeno.

    O problema do passaporte

    Em relação a algumas doenças, os anticorpos produzidos após a primeira infecção podem proteger a pessoa de contatos posteriores. É assim, por exemplo, com o sarampo, como lembrou ao Nexo, em 29 de abril, a virologista Giliane Trindade, professora associada do departamento de microbiologia da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

    “Alguém que teve sarampo, por exemplo, raramente vai ter sarampo duas vezes na vida, assim como alguém que teve febre amarela. Ele monta uma resposta imune que vai protegê-lo provavelmente até o resto da vida”, afirmou.

    Mas em outros casos essa lógica não se aplica, como em pessoas infectadas pelo HIV. Eles até têm anticorpos, mas o vírus desenvolve mecanismos de persistência no organismo. Não se sabe exatamente como isso funciona no caso da covid-19, que é uma doença nova e ainda pouco conhecida pela ciência.

    Em abril, a OMS (Organização Mundial da Saúde) afirmou esperar que “a maior parte das pessoas infectadas com covid-19 desenvolva uma resposta de anticorpos que forneça algum nível de proteção”. A entidade criticou a ideia de um passaporte de imunidade devido às chances de nem todas as pessoas infectadas desenvolverem essa proteção e por não se conhecer, na época, o tempo de duração de uma possível imunidade contra o coronavírus.

    Tanto o estudo publicado pela Nature Medicine, que mostra a queda nos níveis de anticorpos com o passar do tempo, quanto as dúvidas sobre a capacidade de imunidade de quem já se infectou levantam questionamentos em relação ao uso do passaporte de imunidade. Por isso, segundo especialistas, as melhores medidas para combater a pandemia do novo coronavírus ainda são o isolamento social.

    A virologista Giliane Trindade defende, porém, a ideia do passaporte caso se comprove, de fato, qual a porcentagem de pessoas que ficam protegidas após uma primeira infecção. “Vamos ter que considerar esse passaporte senão a vida vai paralisar por completo”, disse.

    Na hipótese de comprovação da imunidade de quem já se curou, o problema recairia sobre a qualidade dos testes rápidos. Conhecidos como sorológicos, eles são feitos com amostras de sangue e podem apontar a presença de anticorpos. São práticos, por levarem de 10 a 30 minutos para dar o resultado, mas muitos apresentam até 80% de falso negativo. Isso significa que, de cada cinco pessoas com anticorpos testadas, apenas uma descobrirá isso fazendo esse tipo de teste.

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