O avanço descontrolado da pandemia no Peru e no Chile

Países sul-americanos com populações muito menores que a do Brasil vivem salto no número de casos e sobem no ranking de contaminação e mortalidade pela covid-19

    Peru e Chile só perdem para o Brasil em número de infectados pela covid-19 na América Latina, de acordos com dados da primeira quinzena de junho, compilados pela Universidade John Hopkins, dos EUA.

    O número de contaminados em ambos países é ainda mais impressionante quando se leva em conta que o Brasil, líder do ranking, tem 209 milhões de habitantes, contra apenas 32 milhões de habitantes no Peru e quase 19 milhões do Chile.

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    Gráfico mostra contaminados durante a pandemia na América Latina

    A explosão de casos no Peru e no Chile tem tido relativamente pouca repercussão internacional. Enquanto a atenção mundial é monopolizada pelo Brasil – cujos números absolutos só ficam atrás dos EUA, tanto em número de contaminados quanto de mortos – os dois vizinhos sul-americanos veem crescer sem parar suas curvas de contágio.

    Peruanos e chilenos vivem momento de maior estabilidade política que os brasileiros. Menores em território e em população, ambos tiveram estratégias sanitárias mais coordenadas que a do presidente Jair Bolsonaro, que na segunda-feira (15) completou um mês sem um titular à frente do Ministério da Saúde.

    Ainda assim, essas condições favoráveis não se mostraram suficientes para que ambos os países freassem os casos, cuja explosão começa a provocar reflexos na economia e na reprovação de ambas populações a seus presidentes.

    Peru e Chile estão entre os países latino-americanos que decretaram as quarentenas mais precoces na América Latina. Ainda no mês de março, assim que os primeiros casos foram registrados, os dois países se fecharam e adotaram as primeiras medidas de confinamento. A medida, celebrada no início como sinal de prudência, foi aos poucos relaxada, levando ao crescimento no número de casos registrados com o passar dos meses.

    Peru: mortalidade aumenta em zonas mais pobres

    Em pouco tempo, o Peru passou a Itália e a Espanha. O país também superou rapidamente o Equador, cujas cenas de corpos nas ruas tinham percorrido o mundo, fazendo da cidade de Guayaquil uma espécie de “Bergamo tropical” – em referência à cidade italiana onde caminhões do Exército tiveram de fazer o traslado de corpos para aliviar os necrotérios abarrotados.

    A taxa de letalidade por covid-19 no Peru oscilou por semanas entre 2,1% e 2,9%, mas na quinta-feira (18) passou dos 3% – o que significa que, de cada cem pessoas infectadas pelo vírus no país, três morrem. Esse percentual é de 1,7% no Chile e de 4,88% no Brasil.

    Há disparidades entre as regiões peruanas. Nos locais mais pobres, como Ica, 600 km ao sul da capital, a taxa de mortalidade é de 6,53% – nível mais alto em todo o país. Lima e o porto vizinho de Callao concentram um terço da população do país e 70% dos infectados.

    Mesmo com o país batendo recordes, o governo peruano decidiu reabrir o comércio a partir de sexta-feira (19). A promessa de reabertura havia sido feita uma semana antes pelo presidente Martín Vizcarra. Salões de beleza e barbearias retomarão as atividades a partir de segunda-feira (22).

    A medida, tomada no momento em que a curva de contaminação ainda não foi achatada, é uma resposta às perdas econômicas que o país vem registrando. Só no mês de abril, a queda no PIB (Produto Interno Bruto Peruano) foi de 40,9%. Nos setores de hotelaria e restaurantes, a queda chegou a 94,5%. Os dados dizem respeito à comparação com o mesmo período do mês anterior.

    O Peru tem um dos menores gastos per capita com saúde pública em relação ao próprio PIB. O país investe pouco mais de 3% de seu Produto Interno Bruto no setor, enquanto a Opas (Organização Panamericana da Saúde) recomenda que seja investido pelo menos o dobro desse percentual.

    Diante da escalada dos números de contágio, o governo passou a adotar uma postura cada vez mais ambígua. Apesar do anúncio da reabertura do comércio, o ministro do Interior, Gastón Rodríguez, estuda manter vigente até o fim do ano o toque de recolher noturno em todo o país. A medida vigora hoje com horários diferenciados para cada região, dependendo dos níveis de contaminação registrados.

    Chile: queda de ministro e rejeição presidencial

    Junho foi o mês mais letal para os chilenos desde o registro do primeiro caso da covid-19 no país, em 3 de março. O país adotou um sistema precoce mas flexível de quarentena, que durou até o mês de maio. Bairros ricos foram mantidos em confinamento, enquanto a circulação era livre nos subúrbios.

    No início de junho, a estratégia mostrou-se fracassada. Os chilenos começaram a bater recordes diários de número de contaminados pelo vírus. Só no dia 12 de junho, foram diagnosticados 6.754 novos casos, com 222 mortes em 24 horas. A região metropolitana de Santiago concentra quase metade da população de todo o Chile, e responde por 80% de todos os registros de contaminação no país.

    Um dia depois de o Chile bater seu recorde de número de mortos, o ministro da Saúde Jaime Mañalich apresentou sua demissão, sendo substituído por Oscar Enrique Paris. O governo apertou o confinamento obrigatório, limitando o número de saídas permitidas para duas locomoções semanais, para a compra de mantimentos.

    Uma mudança súbita na metodologia de contagem de contaminados e mortos fez crescer a desconfiança da população chilena em relação ao governo do presidente Sebastián Piñera, que aparece com apenas 24% de aprovação em pesquisa divulgada na segunda-feira (15), dois dias depois da troca na pasta da Saúde. O número revela uma queda de cinco pontos percentuais em apenas duas semanas.

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