3 boatos verificados sobre a pandemia para você ficar de olho

O ‘Nexo’ integra o Comprova, coalizão de 28 veículos jornalísticos que busca combater a desinformação

    As redes sociais são um importante meio de comunicação para cidadãos e governos, ao divulgar e esclarecer assuntos de interesse público. Mas nelas também se proliferam posts, imagens e vídeos fabricados, manipulados ou retirados de contexto que podem causar danos. É um ambiente em que conteúdos podem ser disseminados rapidamente, sem preocupações com fonte ou veracidade.

    Para combater a desinformação nas redes surgiu o Comprova, do qual o Nexo faz parte. A iniciativa, que teve início em 2018, está agora em sua terceira fase e conta com a colaboração 28 veículos de comunicação para monitorar e verificar conteúdos suspeitos sobre políticas públicas do governo federal, as eleições municipais de 2020 e a pandemia da covid-19, doença causada pelo novo coronavírus.

    Nesta sexta-feira (19), o Brasil ultrapassou a marca de 1 milhão de casos confirmados de covid-19. Na mesma semana, o Comprova completou 70 dias de verificações sobre a pandemia. Devido ao cenário crítico do país em relação ao controle da doença, a checagem de fatos sobre o tema adquiriu um nível de importância ainda maior, uma vez que a desinformação afeta diretamente a saúde das pessoas.

    O Nexo selecionou, abaixo, três verificações da semana sobre a pandemia.

    Tabela sobre o risco de transmissão do coronavírus em diferentes circunstâncias é enganosa

    Um texto que circula nas redes sociais alega que um órgão do governo americano listou circunstâncias e ambientes em que haveria maior ou menor risco de transmissão do novo coronavírus. O órgão a que o conteúdo foi atribuído é o CDC (Centro para Controle e Prevenção de Doenças, em português), responsável por dar orientações à população durante a pandemia da covid-19.

    O Comprova concluiu que se trata de um texto enganoso por dois motivos. O primeiro é a associação do conteúdo a um link do CDC em inglês que não contém nenhuma das informações que aparecem na tabela. O segundo motivo é que o texto dá a entender que é possível avaliar o risco de transmissão do vírus em determinadas situações a partir de uma referência categórica: a medição de “partículas virais” de Sars-Cov-2, o novo coronavírus. Não há, porém, estudos suficientes para embasar esse tipo de conclusão.

    No site do CDC, consta que a principal forma de transmissão do novo coronavírus é de um indivíduo para outro. O CDC também alerta que, quanto maior a proximidade e o tempo de contato entre as pessoas, maior o risco. Segundo o órgão, o contágio por meio de superfícies contaminadas é possível, embora mais raro. Não há, porém, informações sobre o número de partículas necessárias para o contágio.

    Nas buscas por textos com conteúdo similar ao da tabela na internet, os verificadores chegaram a uma postagem no blog de Erin Bromage, professor de biologia da Universidade de Massachusetts Dartmouth, nos EUA. O Comprova apurou que é provável que as informações da lista que viralizou no Brasil tenham vindo dessa fonte. No texto, Bromage fala sobre riscos de infecção pelo novo coronavírus em diversos ambientes e sobre qual seria a carga viral dispersada ao respirar, falar, espirrar e tossir. O professor escreve que a exposição continuada às partículas do vírus também levaria ao contágio. Com isso, ele lista lugares e situações em que acredita que haja maior risco de infecção, como banheiros públicos e restaurantes.

    Ele reconhece que ainda não há levantamentos sobre quantas partículas são necessárias para provocar o contágio, mas utiliza estudos feitos com outros tipos de coronavírus. Com base nisso, estima que cerca de mil partículas virais sejam suficientes para infectar uma pessoa saudável. O Comprova verificou, porém, que não há consenso sobre essa quantidade e que alguns virologistas acreditam que a quantidade de partículas pode ser até dez vezes menor que a estimada por Bromage.

    Para avaliar a razoabilidade das informações presentes no post de Bromage e na tabela que viralizou, o Comprova consultou o biólogo Luiz Almeida, do conselho editorial da revista Questão de Ciência, publicação digital de divulgação científica. Ele afirmou que “a transmissão é muito mais efetiva pelo ar; não importa se o ambiente é aberto ou fechado, o que vai importar são as pessoas ao seu lado, se alguma delas tem o vírus”. Ele não corroborou os dados apresentados na tabela: “Não é verdade que conseguimos concluir neste momento que há um risco maior em ambientes fechados”.

    A verificação foi realizada por SBT e Estadão, e foi validada por outros veículos. Veja a verificação na íntegra.

    É falso que Doria negociou com laboratório chinês para desenvolver vacina contra a covid-19 antes do início da pandemia

    Um vídeo publicado no YouTube em 12 de junho com o título “Doria negociou vacina chinesa antes do vírus chegar ao Brasil” é falso e distorce declarações do governador de São Paulo João Doria.

    No dia 11 de junho, em entrevista coletiva, Doria e Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan, anunciaram um acordo feito com o laboratório chinês Sinovac Biotech para a testagem em larga escala no Brasil de uma vacina contra a covid-19.

    De acordo com o vídeo que viralizou, Doria teria “confessado” que o acordo começou a ser discutido em agosto de 2019, quando ainda não havia registros da doença no mundo. Os primeiros casos do novo coronavírus na China foram registrados em dezembro. Um dos letreiros no vídeo diz o seguinte: “Doria visitou a China em agosto do ano passado. O vírus só chegou ao Brasil no final do mês de janeiro de 2020”. Na legenda, o perfil escreveu: “Essa é mais uma prova de que tudo foi orquestrado”.

    O conteúdo original da entrevista coletiva mostra que o governador não afirmou que a assinatura do acordo ocorreu no ano passado. Doria apenas fez uma referência à Missão China, realizada em agosto e sem relação com a pandemia.

    Na ocasião, uma comitiva do Instituto Butantan visitou a sede da Sinovac, entre outros compromissos. Na entrevista coletiva do dia 11 de junho, Dimas Covas, questionado sobre a escolha do laboratório entre os projetos em desenvolvimento no mundo, afirmou: “Essa parceria com a China, ela já é de longa data, como mencionei. Foi fruto dessa visita que nós fizemos à China. Nós pessoalmente fomos conhecer a Sinovac. A Sinovac tem interesses, é uma empresa privada, ela tem interesse no codesenvolvimento de outras vacinas com o Butantan, então é uma parceria já estabelecida”. A assessoria do Butantan informou ao Comprova que Doria não estava presente nessa visita.

    Em nota conjunta emitida após os questionamentos do Comprova, tanto o governo quanto o instituto de pesquisa afirmaram que a assinatura do contrato foi realizada em 10 de junho de 2020, um dia antes da entrevista coletiva. E as tratativas sobre o desenvolvimento da vacina, segundo o Butantan, começaram somente em abril de 2020, diante do aumento do número de casos do novo coronavírus em São Paulo.

    Em agosto de 2019, Doria de fato esteve na China, em uma comitiva de empresários e representantes do governo paulista. O motivo foi a inauguração de um escritório comercial de São Paulo em Xangai – a gestão buscava investimentos externos no estado. Questionada pelo Comprova se Doria teria visitado a Sinovac em algum momento da viagem, a assessoria de imprensa do governo de São Paulo enviou os links de todas as agendas oficiais do governador durante a Missão China. Não há nenhum registro de visita do governador à sede da Sinovac, assim como informou o Instituto Butantan.

    A verificação do Comprova contou com a consulta de documentos públicos e reportagens para entender a agenda e o contexto da visita empresarial à China em agosto de 2019. Também pesquisou o histórico da Sinovac e o atual cenário de desenvolvimento de vacinas contra o novo coronavírus por meio de notícias e publicações da Organização Mundial da Saúde (OMS). Além de contatar as assessorias dos envolvidos, como do governo de São Paulo e do Instituto Butantan, o Comprova entrou em contato com a Sinovac, que não retornou até o fechamento da verificação.

    A verificação foi realizada por Gazeta, Estadão e UOL, e foi validada por outros veículos. Veja a verificação na íntegra.

    Vídeo engana ao afirmar que vírus da covid-19 existe desde 2003

    O Comprova concluiu que um vídeo que afirma que o vírus que provoca a covid-19 existe desde o início dos anos 2000 é enganoso. O vídeo foi postado no YouTube, circula nas redes sociais e mostra a capa e as páginas de uma reportagem de 2003 da revista Saúde É Vital, que não circula mais. A antiga publicação se fundiu com a revista Veja em maio de 2020, dando origem ao portal Veja Saúde.

    No site oficial da revista Saúde É Vital não é possível encontrar edições anteriores a 2015. No entanto, o vídeo postado no YouTube permite a leitura parcial do conteúdo da reportagem em questão. Diferentemente do que diz o vídeo, a matéria exibida fala sobre o vírus que causou o surto da Síndrome Respiratória Aguda Severa (Sars, na sigla em inglês) há 17 anos – e não do Sars-Cov-2, ou novo coronavírus, que causa a covid-19.

    É a segunda vez que esse vídeo viraliza na internet. Foi na segunda vez em que foi postado, porém, que mais viralizou – e, assim, repercutiu no Twitter e no Facebook. O Comprova entrevistou o responsável pelo perfil que repostou o vídeo no YouTube, que teve mais de 10,5 mil visualizações. Ele afirmou que tinha sido avisado de que o conteúdo era falso e achou que tinha tirado do ar. Após a conversa com o Comprova, ele apagou o vídeo de sua página.

    Para apurar as informações, a equipe de verificadores utilizou ferramentas de monitoramento e desempenho de postagens nas redes sociais, como Crowdtangle e Tweetdeck. Além disso, utilizou um comunicado publicado pelo site Veja Saúde em março, após o vídeo ter viralizado pela primeira vez. Nele, o portal esclarece que o vídeo em que um homem filma a reportagem de uma edição de 2003 e insinua se tratar da covid-19 “pode levar a conclusões erradas”. O veículo de imprensa confirma que o texto original discute as ameaças de um tipo específico de coronavírus, que causou o surto de Sars e é diferente do que provoca a pandemia em 2020. E reforça, ainda, que a família dos coronavírus é conhecida desde meados dos anos 1960, abarcando vírus diferentes entre si.

    A verificação foi realizada por Folha de S.Paulo, Estadão, A Gazeta, Diário do Nordeste e UOL, e foi validada por outros veículos. Veja a verificação na íntegra.

    Você recebeu algum conteúdo sobre o novo coronavírus que gerou dúvida e gostaria que o Comprova checasse? Envie uma mensagem de WhatsApp para (11) 97795-0022 ou pelo site do Comprova.

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