O que significa dizer que a pandemia se estabilizou no Brasil

Organização Mundial de Saúde reconhece desaceleração dos casos no país, mas recomenda redobrar cautela e reforçar medidas de distanciamento

    Segundo país com o maior número de casos de infecção e de mortes pelo novo coronavírus no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, o Brasil começa a apresentar sinais de estabilização da pandemia. A tendência foi reconhecida na quarta-feira (17) pelo diretor-executivo da OMS (Organização Mundial da Saúde), Michael Ryan.

    O quadro de estabilização da doença se deve ao fato de que a média semanal de mortes no país permaneceu sem grandes oscilações nas três últimas semanas, desde o início de junho. Nesse período, foram registrados, em média, 985 mortes por dia. A variação de uma semana para outra não ultrapassou mais do que 6%. Considera-se a média diária porque os números costumam cair nos domingos e segundas-feiras devido ao atraso no repasse de informações de laboratórios e centros de saúde às secretarias estaduais de Saúde.

    Com isso, tanto a curva de casos como a de mortes vêm assumindo a forma de um platô, ou seja, continua no alto, mas começa a apresentar uma trajetória plana, sem crescimento. Em alguns países, esse fenômeno representou o pico da doença — ponto a partir do qual a tendência são os números começarem a cair. No Brasil, ainda é cedo para se chegar a essa conclusão.

    O Ministério da Saúde também declarou na quinta-feira (18) que o país caminha para uma estabilização, mas afirmou seria preciso esperar ao menos duas semanas para confirmar a tendência. No dia da declaração, o número de contaminados já se aproximava de um milhão no Brasil, com quase 48 mil mortes.

    Queda na taxa de infecção

    Outro dado que reforça a tendência de estabilização da pandemia no Brasil é a queda, pela terceira semana seguida, na taxa de infecção do vírus. Segundo cálculo do Imperial College, de Londres, a taxa de contágio na semana iniciada em 14 de junho é de 1,05 no Brasil.

    Isso significa que 100 pessoas contaminadas transmitem o coronavírus para outras 105 pessoas. Essas 105 transmitem para 110,25, que depois passam a doença para 115,76 e assim sucessivamente, de forma progressiva. Por isso, quando a taxa está acima de 1, a transmissão é considerada fora de controle.

    O Brasil já chegou a ter uma taxa de 2,8 em abril, segundo a instituição. Na semana iniciada em 24 de maio, o índice era de 1,31. Depois, seguiram-se as três quedas consecutivas: 1,13 (31 de maio), 1,08 (7 de junho) e agora 1,05. Para controlar a doença é preciso que a taxa fique abaixo de 1, a exemplo do que aconteceu em países europeus que já deram início à retomada das atividades econômicas.

    O efeito de uma menor taxa de transmissão pode ser sentido em hospitais, que apresentam queda de ocupação de leitos para pacientes com a covid-19, em lugares como o Rio de Janeiro. Em Manaus, a prefeitura decidiu fechar um hospital de campanha com 180 leitos, por não estar mais recebendo tantos pacientes como antes. Em 14 de junho, apenas 46 pessoas estavam internadas. O fechamento deve ocorrer assim que todos eles receberem alta.

    Manutenção das medidas

    A estabilização não significa que o país deva começar a relaxar as medidas de isolamento social. Em alguns países, segundo a OMS, essa etapa foi logo seguida por um rápido aumento da pandemia.

    O diretor-executivo da entidade, Michael Ryan, afirmou na quarta-feira (17) que o momento no Brasil é de redobrar a cautela. Ele defendeu o reforço de medidas de distanciamento físico e higiene e apoio aos povos indígenas e aos moradores das comunidades mais pobres.

    “O Brasil tem uma história de sucesso no combate a pandemias e, se trabalhar de forma coordenada mantendo as medidas de saúde pública em todos os níveis, não há por que não ter sucesso desta vez também”

    Michael Ryan

    diretor-executivo da OMS, em 17 de junho de 2020

    A estabilização tem sido puxada por alguns dos lugares que foram atingidos primeiro pelo coronavírus no Brasil, como São Paulo e Rio de Janeiro. No estado do Rio, as mortes diárias chegaram a cair de 200 para 140 nos primeiros 15 dias de junho.

    Na capital paulista, o prefeito Bruno Covas anunciou no começo de junho que a cidade havia atingido um platô. “Muito desse platô se deve, inclusive, ao uso de máscaras na cidade de São Paulo. Isso é reflexo do decreto municipal”, afirmou.

    Por causa disso, a cidade de São Paulo reabriu lojas no dia 10 de junho e os shoppings no dia seguinte, às vésperas do Dia dos Namorados, após pressão de representantes dos lojistas.

    60%

    era a taxa de ocupação de UTIs na cidade de São Paulo em 17 de junho, segundo a prefeitura

    Especialistas apontam, no entanto, que a doença vem se interiorizando no país, o que é preocupante porque as cidades menores têm menos estrutura hospitalar para atender pacientes em estado grave.

    Em todo o estado de São Paulo, por exemplo, o número de casos registrados num único dia chegou a 8.825 na terça-feira (16), recorde desde o início da pandemia. No dia seguinte, foi a vez do recorde de mortes registrados em 24 horas: 389. O governador João Doria, que dividiu o estado em zonas com níveis distintos de reabertura, já afirmou que recuará da flexibilização se for preciso.

    Em termos nacionais, a tendência de estabilização puxada por São Paulo e Rio de Janeiro nas últimas três semanas acaba sendo contrabalançado por outros estados, onde há um avanço dos casos. Paraná, Minas Gerais e Paraíba apresentaram alta na semana de 14 de junho.

    Os riscos da reabertura

    Flexibilizar as quarentenas antes do tempo certo pode ter graves consequências, como mostrou um estudo da Rede de Pesquisa Solidária, que reúne pesquisadores de várias instituições.

    Coordenados pela professora Lorena Barberia, pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) e da FGV (Fundação Getulio Vargas) analisaram o caso de Goiás, que adotou medidas rígidas no começo da pandemia, em março, mas decidiu afrouxá-las precocemente.

    “Se Goiás tivesse mantido as medidas de distanciamento social nos níveis pré-afrouxamento, deflagrado em 19 de abril, o número de vidas perdidas teria sido 63,5% menor”, diz o estudo. Isso significa que 110 mortes poderiam ter sido evitadas em maio.

    Com base nos resultados de Goiás, os pesquisadores construíram modelos para São Paulo, que vem flexibilizando as medidas desde o início de junho. A conclusão foi que a reabertura poderá causar até três vezes mais mortes em junho do que seria esperado caso o estado mantivesse o mesmo nível de isolamento de maio.

    Países mais afetados pela pandemia, como Itália e Espanha, só começaram a flexibilizar as quarentenas mais de um mês após o pico de casos da doença. Muitos países europeus iniciaram a reabertura com queda de até 70% nas mortes.

    A pneumologista Margareth Dalcolmo, pesquisadora da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), afirmou na quinta-feira (18) ao site El País Brasil ver com preocupação as reaberturas. “Nós não sabemos o resultado disso daqui a 10 ou 12 dias. Porque há um tempo de incubação, um tempo para a transmissão, até que a pessoa gere a necessidade de assistência médica do sistema de saúde. Não sabemos o que vai acontecer nesse período. (...) Eu acho que essa abertura vai gerar um recrudescimento de casos”, disse.

    Ao Nexo o pesquisador do Laboratório de Biologia Integrativa e Sistêmica da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) Marcelo Brandão disse em 10 de junho que a queda de internações e na ocupação de leitos é real, mas representa apenas “uma foto de um momento”.

    “Não se pensou daqui para frente. Vão ser colocadas na rua agora [com a flexibilização iniciada em 10 de junho] cerca de um milhão de pessoas, no mínimo, por dia, em regiões de comércio. E o interior está começando a viver a segunda onda de infecção. É isso que vai chegar a São Paulo”, afirmou.

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