O que há no acervo da Cinemateca Brasileira

Crise financeira ameaça instituição que reúne o maior arquivo audiovisual da América Latina. Filmes, roteiros, storyboards, revistas, catálogos e produção acadêmica são preservados pela entidade

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    Responsável por preservar a memória da produção audiovisual do país, a Cinemateca Brasileira passa por uma crise financeira que ameaça seu acervo, o maior do tipo na América Latina.

    Vinculada à Secretaria Especial da Cultura, desde 2018 a entidade é gerida pela organização social Acerp (Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto), por meio de um convênio público-privado previsto para durar até 2021. Em maio de 2020, no entanto, o governo federal sugeriu a rescisão do contrato.

    A Secretaria da Cultura deve à Acerp mais de R$ 11 milhões relativos a serviços prestados em 2019 e 2020. Sem esse dinheiro, a associação bancou os custos da Cinemateca com dinheiro próprio até abril de 2020. Desde então, os cerca de 300 funcionários da entidade audiovisual não recebem mais salário e, sem recursos para manutenção, seu acervo está em risco.

    250 mil

    é o número aproximado de rolos de filmes no acervo da Cinemateca, o que corresponde a cerca de 40 mil títulos

    1 milhão

    é o número aproximado de itens relacionados ao cinema, como fotos, roteiros, cartazes e livros

    O Ministério Público Federal deu um prazo de 60 dias para a Secretaria de Cultura dar informações sobre a falta de repasses, contados a partir de 30 de maio. Cineastas e acadêmicos se reuniram em frente à Cinemateca, em São Paulo, no dia 4 de junho para protestar contra a negligência do governo e, desde 12 de junho, os funcionários entraram em greve. Um manifesto em defesa da Cinemateca foi assinado por quase 80 associações nacionais e internacionais, entre elas o Festival de Cannes, da França.

    No final de maio, quando Regina Duarte anunciou que sairia do comando da Secretaria de Cultura, um cargo na Cinemateca foi oferecido à atriz. A notícia indignou profissionais da área pela inação da ex-secretária enquanto esteve à frente da pasta federal. Segundo Regina, a oferta foi um “presente” do presidente Jair Bolsonaro. O posto, no entanto, ainda é incerto.

    O que há no acervo da Cinemateca Brasileira

    A hoje Cinemateca surgiu como o segundo Clube de Cinema de São Paulo em 1946, sem relação com o poder público. O primeiro havia sido fechado em 1941 durante a ditadura de Getúlio Vargas. Em 1949, o Clube fundou uma filmoteca em parceria com o MAM (Museu de Arte Moderna de São Paulo) reunindo os primeiros títulos preservados.

    Com o fim da relação com o museu, em 1956, a filmoteca se tornou a Cinemateca Brasileira. Na década de 1960, tornou-se uma fundação e passou a estabelecer vínculos com o governo. Em 2003, foi incorporada ao então Ministério da Cultura. Desde o fim dos anos 1970, tem entre suas atividades a pesquisa e documentação da memória do cinema brasileiro.

    Além de filmes, seu acervo reúne cartazes, roteiros, storyboards, argumentos e listas de diálogos de filmes. Há também periódicos, recortes de jornais, catálogos, produção acadêmica e folhetos raros. A maior parte só pode ser consultada fisicamente, mas alguns materiais estão digitalizados. As instalações da Cinemateca na capital paulista abrigam também festivais e sessões de cinema semanais.

    Dentre os filmes preservados, há curtas, médias e longas-metragens brasileiros produzidos desde 1897. Além de ficções e documentários, ocupam o acervo cinejornais, filmes publicitários institucionais ou domésticos e obras seriadas (para internet e televisão). Várias estão acompanhadas de registros e anotações que detalham a produção, a divulgação e a recepção na época, que também podem ser acessados online.

    Alguns dos conteúdos disponíveis no acervo da Cinemateca

    Filmes de Glauber Rocha

    A Cinemateca reúne a obra completa daquele que é considerado o maior cineasta brasileiro. Alguns filmes estão digitalizados, como os seminais “Terra em transe” (1967) e “Deus e diabo na terra do sol” (1964), e seu primeiro curta, “Pátio” (1959). No acervo há também roteiros, desenhos e correspondências doadas pelo próprio diretor e familiares.

    Revistas de cinema

    Há no acervo cópias físicas de uma infinidade de revistas especializadas em cinema que circularam no século 20, como a Filmelândia (1954-1963). Dispõe também de exemplares de revistas estrangeiras, como a Cahiers du Cinéma e a Sight and Sound, ambas ainda em circulação. A Cinemateca também ajudou a preservar e digitalizar duas das revistas de cinema mais antigas do país, sob os cuidados do Museu Lasar Segall: Scena Muda (1921-55) e Cinearte (1926-42).

    Coleções de acadêmicos do cinema

    Um dos principais arquivos é do crítico e teórico francês radicado no Brasil Jean-Claude Bernardet. São 5.500 documentos constantemente acrescidos, compostos de críticas de jornal, diálogos com cineastas e dossiês. Outra coleção importante é de Paulo Emílio Salles Gomes, principal teórico do cinema brasileiro, morto em 1977, que reúne anotações de filmes do Cinema Novo, movimento cinematográfico pelo qual mais se debruçou, e roteiros por ele assinados.

    Acervo jornalístico da TV Tupi

    A primeira emissora de televisão do país, de 1950, foi extinta na década de 1980. A Cinemateca resgatou grande parte das imagens de arquivo e as organizou em uma base de dados. É possível assistir online a episódios do “Repórter Esso”, um dos telejornais de maior audiência do país, e de “Beto Rockfeller” (1968-69), uma das telenovelas de maior sucesso da história.

    Imagens de Pelé

    O rei do futebol tornou-se sensação da televisão nos anos 1960 depois que definiu a Copa do Mundo de 1958 a favor do Brasil. Online há inúmeras páginas com registros de gols, sessões de autógrafos, chegada da equipe, entrevistas e encontros com figuras políticas.

    Quais riscos a crise impõe ao acervo

    A crise financeira da Cinemateca começou em 2013, quando a então ministra da Cultura, Marta Suplicy, impediu a captação de recursos da organização gestora da época, a entidade sem fins lucrativos Sociedade Amigos da Cinemateca. As atividades e o número de funcionários minguaram. Depois de anos de discussão, a solução encontrada foi passar a gestão a uma organização social, a Acerp (Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto), em 2018, com repasses ainda provenientes do governo federal.

    Desde 2015, a Acerp tinha também contrato para gerir a TV Escola, por meio do Ministério da Educação. Como uma organização social não pode servir a dois ministérios ao mesmo tempo, o contrato recebeu um acréscimo para incluir a Cinemateca. No fim de 2019, a crise da instituição ganhou corpo quando o então ministro da Educação, Abraham Weintraub, não renovou o contrato da TV Escola com a Acerp, a fim de reformulá-la por questões ideológicas.

    Sem a TV Escola, o governo afirmou que não haveria respaldo contratual para manter a Cinemateca com a Acerp. Em nota à revista Veja São Paulo, o Ministério do Turismo, que incorporou a Secretaria Especial da Cultura, diz que a Cinemateca está em fase de reestatização. Segundo a reportagem, a Acerp não se opõe ao processo e quer ajudar na transição, mas as mudanças teriam sido aceleradas para atender ao presidente Jair Bolsonaro, para colocar Regina Duarte à frente da entidade. Hoje, é a Acerp quem define o supervisor da Cinemateca. Antes, aventou-se até o fechamento da instituição.

    Desde que Bolsonaro assumiu, seis nomes diferentes passaram pelo comando da Secretaria de Cultura, que também passou meses num limbo entre dois ministérios. Em novembro de 2019, o presidente transferiu a secretaria da Cidadania para o Turismo, mas a mudança só foi oficializada em maio de 2020. Nesse período, a negociação da dívida não avançou pelo imbróglio burocrático.

    A paralisação resultou em atrasos no pagamento de contas de luz, segurança e para a empresa responsável pela refrigeração dos filmes. Películas mais modernas, dos anos 1950 em diante, de acetato de celulose, sofrem com calor e umidade, liberando uma espécie de vinagre que deteriora as imagens.

    Películas de nitrato de celulose, padrão nos filmes anteriores a 1950, ficam sujeitas à autocombustão caso não seja mantida a climatização e inspeção. No passado, o espaço que reúne o acervo da Cinemateca já sofreu quatro incêndios, sendo o último em 2016.

    A Cinemateca também faz atividades de restauro e preservação, como foi o caso dos clássicos “Limite”, de Mário Peixoto, “Macunaíma”, de Joaquim Pedro de Andrade, e “Os fuzis”, de Ruy Guerra. É um trabalho que vai além de conhecimentos técnicos, já que é preciso conhecer a proposta criativa dos cineastas por trás do remendo de certas cenas. A paralisação pode fazer com que esse processo seja abandonado, e filmes sejam completamente degradados pelas intempéries.

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