‘The Last of Us 2’: como o game do momento retrata o ódio

Continuação de jogo de 2013 promete experiência intensa para o público

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    O estúdio Naughty Dog lança na sexta-feira (19) o game “The last of us 2”, continuação do jogo de 2013, que chega exclusivamente para o PlayStation 4. Aclamado pela crítica pela jogabilidade, pela trama e pela profundidade dos personagens, o game explora sentimentos extremos, como o ódio, que está no centro da trama.

    Em “The last of us 2” o jogador assume o papel de Ellie, coprotagonista do primeiro game. A ambientação é a mesma: um mundo pós-apocalíptico, que ruiu após a proliferação de um fungo que transforma seus hospedeiros em criaturas monstruosas.

    Ao mesmo tempo em que os monstros espreitam, Ellie precisa lidar com os humanos que não foram infectados, e que agora disputam por territórios e suprimentos para sobreviver – fazendo isso de uma maneira pouco pacífica.

    Como o ódio aparece no jogo

    “É uma história sobre ódio”, disse Neil Druckmann, diretor do jogo, em um evento do PlayStation no ano de 2016, meses após o anúncio de “The last of us 2”. “O primeiro jogo era uma história sobre o amor entre os personagens. Agora é o oposto disso”, afirmou.

    Segundo Guilherme Jacobs, jornalista especializado em games e apresentador do podcast Bora Jogar, a promessa foi cumprida. “Além de ser um jogo que questiona o que você vai fazer com o ódio, é mais um jogo sobre o que o ódio faz com você”, disse ao Nexo.

    O sentimento está presente em todos os vídeos de divulgação do game, que sempre trazem Ellie assumindo uma postura impiedosa em relação ao mundo.

    “Esse sentimento de ódio, que transborda de todos os lados, que transforma o jogo em uma experiência intensa, pesada e autorreflexiva do início ao fim”, afirmou ao Nexo Tayná Garcia, jornalista especializada em games no Nerd Bunker, portal de jornalismo do site Jovem Nerd.

    A decisão do jogador é parte da experiência em “The last of us 2”. Diante de uma adversidade, é possível escolher entre o combate direto – mais violento – , estratégias furtivas, que deixam os inimigos fora de radar ou simplesmente o não combate, com Ellie fugindo dos confrontos.

    Garcia, que recebeu o jogo antecipadamente para escrever uma avaliação, relatou um momento em que se deparou com um dilema moral.

    “Houve um momento em que eu, ao jogar, disparei na perna de um inimigo e ele caiu no chão. Em vez dele se levantar, como em qualquer outro jogo, ele apenas ficou me encarando ali do chão mesmo e algo surpreendente no meio do gameplay aconteceu”.

    “A câmera do jogo ficou lenta e não pude me mexer, até que o inimigo, em tom de desafio, me perguntou se eu tinha coragem de matá-lo e ‘terminar o serviço’. Nesse momento a trilha sonora tinha sumido e apenas conseguia ouvir a respiração pesada de Ellie. Até que tive que colocar um ponto final na situação e finalmente puxar o gatilho, para apenas pensar depois ‘o que eu acabei de fazer?’", contou.

    O discurso de ódio entre os gamers

    Além de abordar o ódio, o game também foi alvo de discursos de ódio. Isso porque um trailer lançado em 2018 mostrou Ellie se relacionando com uma outra mulher.

    Parte da comunidade gamer é reacionária e expressa ideias homofóbicas, misóginas e racistas. Esses jogadores, decidiram então atacar os responsáveis por “The last of us 2”.

    “Tá recheado de lacração e misandria”, diz uma imagem que circula no Facebook Brasil, criada por uma página que tem como proposta combater ações progressistas dentro da cultura pop.

    O conceito de misandria fundamenta uma teoria conspiratória de que há um movimento organizado por mulheres para oprimir os homens heterossexuais.

    A recepção a ‘The last of us 2’

    Assim como seu antecessor, “The last of us 2” chegou repleto de elogios. Jacobs, que já jogou o game do início ao fim, o vê como um marco para a indústria.

    “Não acho que ele seja perfeito, mas certamente é um dos melhores da geração PlayStation 4 e não creio que as pessoas vão estar exagerando caso declarem ele o melhor dessa era”, afirmou.

    Tayná Garcia vê o game como marcante, mas não como um dos melhores da geração. “Eu reconheço os méritos de ‘The last of us 2’, mas ainda assim o jogo tropeça em alguns erros, como a repetição ao abordar certos temas”, disse.

    Segundo ela, mesmo com problemas, o game pode vir a impactar a indústria ao abrir as portas para o surgimento de mais títulos que trazem algum tipo de reflexão aos jogadores e não são apenas divertidos.

    No site Metacritic, que reúne críticas de veículos de comunicação do mundo todo, “The last of us 2” tem 96% de aprovação, e conta com 51 avaliações que deram nota máxima.

    O consenso dos críticos é de que o game é uma experiência intensa, bem escrita e imersiva, e que prova a habilidade do estúdio Naughty Dog em aproveitar ao máximo o potencial dos jogos.

    A estrada até ‘The last of us 2’

    Druckmann teve a ideia de “The last of us” nos anos 2000, quando estudava ciência da computação na Universidade Carnegie Mellon, nos EUA.

    Ele visualizou um jogo que misturaria a dinâmica de “Ico”, game de aventura e exploração lançado em 2001, com o cenário do filme “A noite dos mortos-vivos” (1968), do cineasta George A. Romero e um protagonista na verve de John Hartigan, da HQ “Sin City” (1991), de Frank Miller.

    O desenvolvimento do primeiro “The last of us” começou em 2009. O anúncio do game foi feito em 2011 e o lançamento ocorreu em 2013, com uma ampla aceitação por parte do público e da crítica.

    Um ano depois da chegada do game às lojas, times da Naughty Dog começaram a pensar em uma sequência, que foi anunciada em 2016, originalmente com lançamento marcado para fevereiro de 2020, data que foi adiada duas vezes – a primeira por atrasos na finalização, e a segunda pela pandemia do novo coronavírus.

    O desenvolvimento de “The last of us 2” foi marcado por uma controvérsia envolvendo o ambiente de trabalho do estúdio.

    Em março de 2020, o jornalista americano Jason Schreier revelou no site Kotaku que funcionários do estúdio estavam cumprindo expedientes de cerca 12h diárias, colocando-os sob condições de extremo estresse. Na indústria dos games, essa prática, comum, é conhecida como “crunch”.

    Schreier, um dos principais jornalistas da área no mundo, conversou com funcionários e ex-funcionários do estúdio que relataram a situação, sempre ressaltando que o custo físico e mental do crunch é alto.

    Para fora dos games, “The last of us” vai ganhar uma adaptação audiovisual no formato de série, que será produzida pela HBO e não tem previsão de estreia.

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