Qual é o alcance dos juros baixos na pandemia

Banco Central corta taxa básica a 2,25% ao ano. O ‘Nexo’ conversou com economistas para entender o tamanho do efeito que a medida pode ter

    O Comitê de Política Monetária do Banco Central anunciou na quarta-feira (17) um corte de 0,75 ponto percentual na meta da taxa básica de juros brasileira. O novo patamar de 2,25% ao ano é o mais baixo desde o início do regime de metas da inflação, em 1999.

    DESDE 2010

    Evolução da meta da taxa Selic. Depois da escalada entre 2013 e 2016, queda até 2018. Depois, ficou parado no mesmo patamar por mais de um ano e voltou a cair a partir de 2019

    O corte de juros é uma ferramenta comumente usada como forma de estímulo econômico. Em 2020, na crise da pandemia do novo coronavírus, bancos centrais de diferentes países optaram por reduzir as taxas de juros de suas respectivas economias, como tentativa de combater ou amenizar a retração econômica.

    Abaixo, o Nexo explica por que os juros são um dos principais instrumentos da política econômica, e como eles podem ajudar no enfrentamento da crise.

    A taxa Selic

    A taxa Selic é a base para o cálculo de juros no país porque é o quanto o Banco Central cobra dos bancos comerciais para empréstimos de curto prazo. A partir do que pagam para esses financiamentos é que as instituições financeiras calculam o que vão cobrar dos clientes – sempre mais que a Selic.

    A taxa a 2,25% ao ano definida na quarta-feira (17) é uma meta; não é definitiva. Esse número representa apenas um alvo para os juros dessas operações entre instituições financeiras. A taxa efetiva depende da atuação do Banco Central no mercado de dinheiro, conforme explicado no vídeo abaixo.

    Os juros como ferramenta de política econômica

    Por servir de base para as taxas de juros de outros empréstimos, a taxa Selic é usada pelo Banco Central, a autoridade monetária do país, para estimular ou frear a economia. A ideia é que, com juros mais baixos, fique mais fácil tomar crédito no banco a fim de que empresas e famílias tenham mais dinheiro à disposição para fazer investimentos ou realizar gastos no dia a dia. Se os juros estiverem mais altos, o efeito esperado é inverso.

    O Banco Central costuma utilizar a taxa Selic como instrumento para o controle da inflação no Brasil. Quando há sinais de que a inflação pode aumentar, o Banco Central eleva a taxa básica de juros com a intenção de esfriar a economia e conter um eventual aumento dos preços. Se a inflação está num patamar baixo e não sinaliza aumento, há margem para estimular a economia com um corte de juros, sem grandes riscos inflacionários.

    Em junho de 2020, o cenário é de inflação em baixa, apontando até para uma possível deflação. A deflação é um fenômeno amplo que ocorre quando há queda geral no nível de preços. O corte na taxa de juros, portanto, aproveita o espaço deixado pelo quadro de inflação em baixa.

    Outros pontos afetados pela taxa de juros

    Além da inflação, a taxa básica de juros pode influenciar também outros elementos da economia brasileira. Um deles é a rentabilidade de investimentos de renda fixa indexados à Selic. Quanto menor a Selic, menos atraentes ficam esses investimentos – e, por comparação, mais rentáveis ficam investimentos de renda variável, como ações na bolsa de valores.

    Outro fator que pode ser influenciado pelos juros é o câmbio. Os juros de um país são importantes para demarcar quanto um investimento irá render no local. Se os juros brasileiros estão mais altos, por exemplo, isso significa que uma aplicação terá um rendimento mais alto aqui do que em países com juros mais baixos.

    Assim, o patamar dos juros ajuda a atrair ou não dinheiro de fora, servindo de base para as projeções de rentabilidade de investimentos. Se entrar mais moeda estrangeira no país, a tendência é a que a taxa de câmbio caia; se sair, a tendência é de aumento.

    A política monetária para além dos juros

    Por ter efeitos sobre a estrutura do crédito no país, a taxa de juros é normalmente o principal instrumento da política monetária. Mas há outras ferramentas, que têm sido exploradas no mundo todo na crise da pandemia de 2020.

    Além de cortar juros, os bancos centrais têm feito esforços para ampliar a liquidez das economias. Isso significa que eles estão liberando mais dinheiro para os bancos, disponibilizando mais recursos para serem emprestados. A ideia é que, aumentando o crédito, mais dinheiro circule na economia, o que ajuda a aquecer a economia (ou amenizar um desaquecimento).

    Desde o início da crise pandêmica, o Banco Central do Brasil tomou diversas medidas para aumentar a liquidez da economia. Uma das ações foi a diminuição da taxa de depósitos compulsórios, que são um mínimo de dinheiro que tem que ficar retido nos bancos para dar segurança ao sistema financeiro. Se essa taxa diminui, uma parte desses compulsórios é liberada para circular na economia.

    Outra medida foi a criação de uma linha de empréstimos do Banco Central para os bancos, tendo como lastro letras financeiras garantidas por operações de crédito. Isso significa que os bancos, que têm carteiras de crédito, podem emitir títulos com base nessas carteiras. Esses papéis servirão de garantia para que os bancos peguem empréstimos no Banco Central.

    Ao todo, as medidas anunciadas pelo Banco Central somaram mais de R$ 1 trilhão em liquidez para a economia. Até o final de maio, nem todo esse dinheiro havia sido liberado.

    A questão do crédito no Brasil

    Mesmo com medidas de aumento de liquidez e cortes seguidos na taxa de juros (antes da pandemia, a Selic estava em 4,25% ao ano), muitas empresas e famílias encontram dificuldades para ter acesso ao crédito. O problema atinge em especial os pequenos negócios, que desde o início da crise enfrentam obstáculos para conseguir empréstimos nos bancos.

    As reclamações vão desde aumento de exigências e garantias por parte dos bancos, até elevação de juros, em alguns casos. Nem mesmo um programa de crédito subsidiado em 85% pelo governo obteve sucesso para liberar dinheiro em um primeiro momento. Em 16 de junho, quase três meses após o anúncio do programa, a Caixa Econômica Federal divulgou o início da liberação do crédito subsidiado para micro e pequenas empresas.

    A política monetária, por ter o crédito como principal canal de atuação, acaba tendo os bancos como intermediários do processo. Por mais que o governo possa aumentar o dinheiro disponível para empréstimos e o reduzir a taxa básica de juros, a decisão de crédito cabe aos bancos e demais instituições financeiras.

    A política monetária não é a única forma que o governo tem para atuar na crise. Além dela, o governo tem à disposição a política fiscal, baseada nos instrumentos de arrecadação e gastos do governo. Ou seja, enquanto a política monetária opera pela via da disponibilidade de dinheiro, a fiscal atua pelo gasto público e recolhimento de impostos.

    Duas análises sobre a atual política monetária

    O Nexo conversou com dois economistas para entender o alcance da política monetária brasileira na crise do coronavírus.

    • André Roncaglia, professor de economia da Unifesp e pesquisador associado do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento)
    • Marcelo Kfoury, professor de economia da FGV-EESP (Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas)

    O corte de juros e aumento da liquidez são suficientes para o Brasil enfrentar a crise? Qual o real alcance da política monetária neste momento?

    André Roncaglia A política monetária é importante em dois grandes aspectos. O primeiro é liberar e desobstruir os canais de crédito, que precisamos para que as empresas que estão em situação muito difícil hoje consigam rolar suas dívidas, consigam crédito de capital de giro (de curto prazo). A taxa de juros ainda está muito cara para as empresas fazerem essa rolagem. O segundo canal é o canal de expectativas. Se o crédito não for liberado suficientemente rápido, as expectativas com relação ao retorno [retomada] vão ser ainda piores.

    Nesta situação, já estamos muito próximos de uma armadilha da liquidez [quando os juros estão já muito baixos e há pouco ou nenhum espaço para cortes substantivos]. Ainda há mais espaço para a política monetária fazer o seu papel, mas esse espaço está diminuindo.

    Conforme as pessoas vão ficando com uma sensação muito ruim com relação ao futuro, elas tendem a segurar mais dinheiro. As pessoas não estão consumindo. Elas não sabem o que vai acontecer lá na frente. Então, o efeito da política monetária é mais para apaziguar os ânimos e a ansiedade. Nesse ponto, a política fiscal é muito mais potente, porque consegue acionar as pessoas que estão na linha de frente, ela consegue acionar canais de geração de renda, de geração de atividade econômica, que estão diretamente associados ao embate contra a pandemia.

    A política monetária faz esse canal por meio dos bancos. Como vai para o banco, o acesso a esse dinheiro por parte da economia fica barrado pela análise de crédito dos bancos. O banco olha para a empresa e pode decidir não emprestar; ele tem o dinheiro, mas acha que a empresa não vai devolver o dinheiro. Pela política fiscal, você não tem essa barreira, o governo injeta dinheiro na economia. Então é muito mais eficaz tanto em garantir essa vontade de ter dinheiro na mão que as pessoas têm agora, quanto colocar o dinheiro na mão de quem precisa gastar, não de quem quer gastar. Esse dinheiro via política fiscal é muito mais efetivo em chegar onde precisa, por não contar com o sarrafo da análise de crédito dos bancos.

    Marcelo Kfoury Não é suficiente, mas é uma condição necessária. Não que a política monetária, com juros mais baixos, vai fazer com que as pessoas aumentem o investimento ou consumo de bens duráveis. Porque numa época de insegurança, a poupança precaucional, de cautela, aumenta. Mas a política monetária pode ajudar no sentido de renegociar dívidas com juros mais baixos, além de ter outros instrumentos que o Banco Central pode usar que permitem aos bancos emprestar para as firmas não quebrarem.

    Há esses componentes que ajudam a não faltar liquidez na economia, a não ter secura nos mercados e não haver problemas maiores ainda. Esse é um papel que é importante da política monetária: de tentar – se não estimular a economia – não deixar as firmas quebrarem.

    Você precisa de ajuda de outras políticas. E é impossível evitar que a crise ocorra. Não é apenas uma flutuação cíclica, é uma crise de oferta e de demanda. Você está impedindo as pessoas de trabalharem, e as pessoas não só não estão trabalhando como não podem sair para consumir. Isso, por si só, já gera um buraco grande na economia.

    A política fiscal tem alguns papéis. O primeiro é aliviar as pessoas que não podem trabalhar. Isso está sendo feito de uma maneira bastante eficiente com essa ajuda de R$ 600 aos mais vulneráveis. Outra coisa importante é o financiamento para as firmas pagarem folha de pagamento.

    O novo corte da taxa de juros vai ajudar a liberar o crédito no Brasil?

    André Roncaglia Ele certamente pode ajudar, e esse é todo o ponto de diminuir a taxa de juros: para tirar dos bancos um risco grande que eles teriam que absorver. Ao reduzir a taxa básica, todas as outras taxas do mercado tendem a cair junto. Não necessariamente elas vão cair na mesma proporção, porque você tem riscos individuais de crédito, que é do tomador.

    Diminuindo a taxa de juros, você diminui o custo de captação do banco. O banco pega esse dinheiro do Banco Central a um preço mais baixo, aí consegue também emprestar a um preço (uma taxa de juros) mais baixo. O segundo indicador, que é mais sutil, é o banco saber que para o Banco Central resgatá-lo, oferecer liquidez, vai ser mais barato. Em todas as pontas você tem uma desobstrução dos canais de liquidez.

    Mas, se os bancos vão conseguir emprestar esse dinheiro, se vai haver demanda por esse dinheiro, são outros quinhentos. E aí tem muito a ver com a questão da sustentação da vida econômica. Você não está querendo crescimento econômico ou dinamismo: está querendo manter as partes da economia vivas de maneira atomizada, impedir a falência de várias partes da economia.

    Nessa situação, se você não atuar rapidamente, as extremidades da economia vão morrendo. A efetividade da política monetária vai depender, evidentemente, do número de empresas que vai vir pedir esse dinheiro. Se essas empresas já estão há 3 meses sem muito dinheiro, sem como manter suas atividades, quando elas olharem para o banco e para o crédito, vão querer se endividar mais? Para todas as empresas nessa situação, uma taxa de juros diferente de zero é uma taxa de juros elevada.

    Marcelo Kfoury O Banco Central libertou mais de R$ 1 trilhão para não haver problemas de quebra de banco ou de liquidez. Mas é complicado. Se o banco vê que uma firma está inadimplente, muitas vezes os modelos de aferição de risco colocam um sinal amarelo para emprestar para a empresa. Teria que haver algum outro critério de permitir que os bancos sejam ressarcidos no caso de alguma das firmas não sobreviverem. Temos que pensar um esquema temporário para mitigar o risco de crédito para os bancos. Porque se for puramente “business as usual”, o crédito vai empoçar mesmo. E a última coisa que você quer neste momento é forçar os bancos a emprestarem e eles quebrarem também.

    Tem que haver cuidado com medidas voluntariosas que podem gerar mais dano do que benefício. Não estou advogando em favor dos bancos, mas é a lógica do negócio: é baseado em confiança. Se a firma pode quebrar, o banco geralmente nem quer subir juros – ele raciona crédito e não empresta para a empresa.

    Precisa de mais coisa [além de cortar a Selic]. Você vê que o próprio spread bancário [diferença entre o que os bancos pagam para captar dinheiro e o que eles cobram para emprestá-lo ao cliente] ainda é bastante alto.

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