Quais os protocolos adotados na volta do futebol europeu

Maiores ligas do continente retomam suas competições com regras sanitárias e diferenças nas arquibancadas. No Brasil, falta de coordenação deixa times em diferentes estágios de retorno de atividades

    O futebol europeu está em processo de retomada. Desde a volta do campeonato alemão – chamado oficialmente de Bundesliga –, em 16 de maio, outras federações se organizaram para voltar às atividades e dar prosseguimento às competições paralisadas por causa da pandemia do novo coronavírus.

    Depois da volta do futebol alemão e português – este em 3 de junho –, foi a vez do retorno dos clubes espanhóis e italianos aos gramados. Na Espanha, a partida entre Sevilla e Real Betis, na quinta-feira (11), foi a primeira desde o início de março. Na Itália, as semifinais da Copa da Itália foram realizadas na sexta-feira (12) e no sábado (13) – a Juventus eliminou o Milan no primeiro jogo, e no segundo o Napoli eliminou a Inter de Milão.

    Na Inglaterra, a Premier League, campeonato local, volta na quarta-feira (17). Entre as maiores ligas do continente, apenas a França decidiu finalizar o torneio nacional sem realizar todas as rodadas. A competição foi encerrada em 30 de abril, sendo o PSG decretado campeão. Abaixo, o Nexo mostra como está sendo feita a volta do futebol europeu e as indefinições que ocorrem no Brasil.

    Testes e regras sanitárias

    O futebol alemão retornou em meados de maio com o compromisso de seguir um protocolo sanitário rígido que minimizaria riscos de contágio entre jogadores, comissões técnicas e outras pessoas que trabalham em dias de jogos. Os riscos não são totalmente zerados, uma vez que o futebol é um esporte de contato.

    O protocolo envolve: chegada dos jogadores aos estádios em mais de um veículo, evitando concentrações nos ônibus; uso obrigatório de máscara por quem não está em campo; proibição de aperto de mãos no pré-jogo e abraços nas comemorações de gols; e restrição do número de pessoas trabalhando em uma partida, entre outros.

    A volta do futebol na Alemanha também foi condicionada à testagem frequente de todos os jogadores e funcionários dos clubes, com previsão de mais de 20 mil testes de covid-19 (a doença causada pelo novo coronavírus) até a última rodada, marcada para o final de junho.

    O protocolo alemão serviu como modelo para outras federações europeias. Medidas semelhantes foram adotadas na Espanha, onde os times tiveram um mês de treinamento em condições especiais antes de voltarem às competições. O mesmo vale para a Inglaterra, onde a volta do futebol foi acordada com a aprovação de um conjunto de regras para minimizar riscos de contágio.

    Arquibancadas vazias

    Um dos últimos jogos realizados com torcida na Europa é visto como um dos momentos cruciais para que a disseminação do vírus crescesse no continente. Segundo Giorgio Gori, prefeito da cidade de Bérgamo, na Itália, o jogo em 19 de fevereiro entre Valencia (da Espanha) e Atalanta (da Itália) foi uma “bomba biológica”. A equipe do Atalanta é de Bérgamo, mas o jogo foi em Milão – levando mais de 40 mil pessoas a se deslocarem entre as cidades italianas. Isso sem contar os torcedores espanhóis que foram como visitantes.

    A presença de torcedores em eventos esportivos é algo que deve demorar para voltar a acontecer. Assim como pode ter ocorrido em Milão, novas aglomerações nas arquibancadas podem expor grandes números de pessoas ao contágio pelo coronavírus.

    Diante da impossibilidade de contar com torcedores, os clubes estão se adaptando para não deixar o silêncio tomar conta dos estádios nos jogos.

    Na Alemanha, os jogos têm sido realizados com cantos gravados de torcidas sendo reproduzidos em alto falantes. Além disso, uma ferramenta desenvolvida pela Herzenswerk, empresa do ramo de tecnologia, permite que torcedores em casa interajam em tempo real com os alto falantes dos estádios. Os torcedores podem votar sobre as diferentes reações que podem ser ecoadas: aplausos, vaias, cantos ou gritos de gol.

    Também na Alemanha, o Borussia Mönchengladbach vendeu 13 mil ingressos para o jogo contra o Bayer Leverkusen, em 23 de maio. Cada entrada foi vendida a € 19, mas os torcedores que as compraram não foram ao estádio. Para deixar as arquibancadas menos vazias, o clube imprimiu imagens de papelão dos torcedores que compraram o ingresso e colocaram nas cadeiras do estádio.

    Na Espanha, com o mesmo objetivo, algumas transmissões de jogos na televisão tiveram a inclusão de “torcidas virtuais”, semelhante às que se vê nos videogames.

    A ausência de torcedores tem sido acompanhada de um outro fenômeno: na Alemanha, nos 36 jogos posteriores à volta do campeonato, o desempenho dos mandantes foi consideravelmente menor do que antes da pandemia. Nos mais de 200 jogos antes da paralisação, os times da casa tinham aproveitamento de 50,6% de pontos disputados; depois da pausa, houve queda para 31,5%.

    Protestos em campo

    A volta do futebol europeu ocorre em um momento de envolvimento de esportistas de diferentes nacionalidades com a causa antirracista e os protestos nos EUA, que tiveram como estopim a morte de George Floyd. No campeonato alemão, diversos jogadores fizeram referência aos protestos e à morte de Floyd. Seguindo orientação da Fifa (Federação Internacional de Futebol), a federação alemã não puniu os jogadores, mesmo tendo uma regra em seu regulamento que proíbe demonstrações políticas em campo.

    Na volta do campeonato espanhol, o lateral brasileiro Marcelo, do Real Madrid, comemorou gol ajoelhado e com o punho erguido. Equipes inglesas também publicaram fotos repetindo os gestos nos treinos preparativos para a volta das competições.

    O impasse da volta do futebol no Brasil

    Se o futebol retorna na Europa, no Brasil o cenário ainda é de indefinição. Alguns estados criam planos para retomar seus campeonatos locais, como Rio Grande do Sul, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Santa Catarina. Em Santa Catarina já há data para a retomada do torneio estadual: 8 de julho será o dia dos confrontos de ida das quartas de final do campeonato catarinense.

    No Rio de Janeiro, mesmo com a resistência de Botafogo e Fluminense, a federação local e os demais clubes se mobilizam para tentar retomar o Campeonato Carioca ainda na semana que termina em 20 de junho. O descompasso existe também na rotina de treinos: enquanto o Botafogo não voltou aos treinos, o Flamengo já faz trabalhos presenciais no centro de treinamentos desde a segunda metade de maio.

    Em outros estados, como São Paulo, os clubes ainda não foram autorizados a voltar aos treinos. No futebol paulista, a indefinição sobre a retomada das atividades cria a preocupação de uma desvantagem em nível nacional com relação aos times de outros estados que puderam trabalhar em campo por mais tempo.

    A volta do futebol no Brasil é defendida pelo presidente Jair Bolsonaro, que, desde o início da pandemia, fez lobby para que as competições fossem retomadas. Em meados de junho, o Brasil é um dos países mais atingidos pelo novo coronavírus, seja pela métrica dos infectados ou pela métrica dos mortos pela doença.

    Com os números da covid-19 aumentando diariamente e a falta de orientação vinda do Ministério da Saúde, há uma indefinição sobre o retorno do futebol na maioria dos estados brasileiros. A falta de coordenação da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) também contribui para uma situação em que cada estado age de maneira independente, criando descompassos entre as federações.

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