Como o verão pressiona a reabertura das fronteiras europeias

Encolhimento da economia e alta no desemprego fazem governos apostar no turismo de férias como motor da recuperação da pandemia

    Os governos dos países europeus deram início no mês de junho a um processo paulatino de reabertura de suas fronteiras, após a passagem do pico de contaminações pela covid-19. Nesse processo, o turismo ligados às férias de verão tem papel fundamental.

    O verão no hemisfério norte vai do fim de junho ao fim de setembro, e coincide com o período mais longo das férias escolares. Nesses três meses mais quentes do ano, milhares de famílias se deslocam sobretudo na direção das praias do sul do continente, banhadas pelo Mediterrâneo.

    Dois dos principais países dessa região, Itália e a Espanha, foram os mais castigados pela pandemia. Agora, seus governos se esforçam para retomar o turismo, no que pode ser uma valiosa janela de oportunidade entre uma primeira e uma segunda onda da doença, para a qual ainda não existe cura.

    A própria mobilidade humana pode ser um fator de circulação do vírus, levando essas mesmas regiões a uma segunda onda de contágio. Países que abriram antes, como a China, enfrentam esse risco atualmente. “Há mais vírus circulando agora do que antes do estado de emergência”, disse na segunda-feira (15) ao jornal El País a virologista Margarita del Val, ressaltando a importância de evitar que novos casos não venham a formar uma segunda onda no Velho Continente.

    A hiperconectividade das cidades europeias – por trens, estradas e companhias aéreas de baixo custo – torna relativamente baratos e fáceis os deslocamentos, facilitado pela dispensa de visto para cidadãos dos 26 países que compõem o Espaço Schengen.

    A Itália tomou a dianteira nesse processo de retomada do turismo. Com projeções de perda de 8% no PIB (Produto Interno Bruto) em 2020 e a perda de 81 milhões de turistas entre março e junho, o governo do primeiro-ministro Giuseppe Conti resolveu acelerar esse processo, reabrindo suas fronteiras no dia 3 de junho.

    € 20 bilhões

    foi o que a Itália perdeu em turismo entre março e junho, por causa da pandemia.

    O norte da Itália, sobretudo a Lombardia, foi a região mais afetada pela doença. As cenas de caminhões do Exército trasladando corpos na cidade de Bérgamo permanecerá como um dos símbolos mais chocantes desse período.

    Agora, o aumento da temperatura abre a oportunidade para os italianos dessa região viajarem para o sul do país que, além do atrativo das praias, tem a seu favor o fato de ter sido uma zona menos afetada pela contaminação.

    Além disso, o sul da Itália é economicamente menos desenvolvido que o norte. O turismo interno terá, portanto, um papel importante na reconstrução da economia local.

    Já o cenário externo é mais complicado. Ao reabrir as fronteiras, a Itália não encontrou reciprocidade dos governos da Suíça, de Lichtenstein e da Áustria, os três países que fazem fronteira ao norte.

    O impasse provocou reflexos na distante Alemanha, pois seus cidadãos dependem do eixo de Brenner, que chega à região italiana do Tirolo, para descer ao sul do continente europeu. Suíça, Liechtenstein e Áustria fazem uma barreira de contenção internacional à toda região norte da Itália, o que praticamente cortou o continente ao meio.

    A estratégia da cebola

    A reabertura dos países europeus tem sido feita lentamente, e de dentro para fora. A estratégia é comparada com o ato de descascar as camadas de uma cebola – primeiro, abrem-se as fronteiras dos países imediatamente ao redor, para, em seguida, ir ampliando essas camadas, à medida que todo o continente vai se reconectando.

    Após a reabertura da Itália, no dia 3 de junho, foi a vez de a Croácia se abrir para os países do continente a partir da quinta-feira (11), depois de ensaios de reabertura com seu entorno imediato.

    No sábado (13), a Polônia fez o mesmo. Na segunda-feira (15), foi a vez da Bélgica, da Alemanha e da França – os dois últimos, grandes exportadores de turistas no período da alta temporada de verão.

    O processo não é uniforme. Num extremo, há exemplos como os da Suécia e de Luxemburgo, dois países que permaneceram o tempo todo abertos para os europeus. No lado oposto, há países como a Grécia, que não aceitam levantar as restrições para entrada de italianos, que precisam obrigatoriamente passar por testes de detecção do vírus.

    No meio desses dois modelos, há casos como o Reino Unido, que não proibiu definitivamente a entrada de europeus em seu território – mesmo após a decisão de sair da União Europeia – mas impôs quarentena obrigatória a quem vem de fora.

    Suécia excluída entre os nórdicos

    Além do cenário abrangente, da Europa como um todo, há dinâmicas regionais no interior do continente. O caso mais evidente é entre os países nórdicos ou escandinavos.

    Dinamarca, Islândia, Finlândia e Noruega seguiram estratégias semelhantes de quarentena para frear a pandemia. Nesses países, os respectivos governos foram assertivos quanto as medidas de distanciamento social a serem adotadas.

    A Suécia, por outro lado, seguiu sozinha um caminho ousado, no qual as autoridades relaxaram as medidas excepcionais, dizendo acreditar no discernimento da população.

    A aposta fez os casos dispararem no país, que é o mais contaminado na região da escandinávia. Além disso, a manutenção do comércio aberto não foi suficiente para frear as perdas econômicas, projetadas pelo Banco Central em 9,7% até o fim de 2020, no cenário mais pessimista.

    Noruega, Finlândia, Dinamarca e Islândia reabriram suas fronteiras na segunda-feira (15), juntamente com a França, a Alemanha e a Bélgica. A medida é válida para todos os países nórdicos, com exceção da Suécia, que é vista como um foco de contaminação fora de controle.

    No extremo oposto do continente, ao sul, a Espanha promete reabrir sua fronteira com Portugal só no dia 1º de julho. Já com o restante dos países europeus, a reabertura será no dia 21 de junho, embora haja a retomada de algumas rotas aéreas pontuais, controladas.

    O turismo responde por 12% do PIB espanhol. Para a economia, como um todo, o verão pode representar uma oportunidade de respiro econômico. Apesar disso, moradores dos balneários têm protestado contra a ameaça de invasão de suas pequenas cidades por cidadãos de países que registraram altas taxas de contaminação.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.