A simulação de um mundo sem pandemia em grupos de Facebook

Comunidades oferecem uma grande brincadeira virtual de faz de conta, em locais onde as incertezas e angústias do mundo real se tornam inexistentes

Em um ano marcado por incertezas em relação à pandemia do novo coronavírus, há aqueles que optam por, voluntariamente, viver em uma realidade paralela.

Não são negacionistas que criam teorias da conspiração em relação ao vírus, mas sim de pessoas que, conscientes do que está acontecendo lá fora, optaram por fingir que vivem em um mundo sem pandemia.

A edição de junho de 2020 da revista americana The Atlantic explorou o fenômeno nos EUA, que se manifesta por meio de grupos no Facebook não apenas sobre um mundo sem coronavírus, mas também em várias outras simulações.

Um deles é o “grupo onde fingimos estar na mesma casa de shows”, que tem cerca de 2.000 membros. Eles interagem entre si como se estivessem no mesmo ambiente, assistindo a um show, sem regras de distanciamento social.

“Alguém viu meu amigo Josh?”, diz uma das publicações. “Não consigo encontrá-lo!”. Outra usuária oferece protetores auriculares para os espectadores do suposto show. “Você vai ouvir as músicas sem distorção”, afirma.

Em um outro grupo, os membros precisam fingir que precisam arranjar desculpas para não se encontrarem com os amigos. “Peguei no sono e agora me atrasei demais. Desculpa, gente, fica para uma próxima”, escreveu um usuário cancelando a participação em um encontro que nunca existiu.

Por meio desse grande faz de conta virtual, os membros dos grupos tentam viver um pouco da realidade que existia num mundo sem o coronavírus.

Há grupos onde a ficção sem pandemia está explícita nas regras de convivência. “Nesse universo, estamos nos divertindo e saindo de casa. Sem máscaras, sem distanciamento social, baby!”, diz o quadro de regras da comunidade onde todos estão atrasados.

Também há grupos nos quais a inexistência da pandemia se dá de forma orgânica, baseada nas próprias propostas da comunidade, sem a necessidade de se criar uma regra explícita e específica.

Tendência também no Brasil

A tendência não se limita aos EUA, e há grupos do tipo criados por usuários do Facebook no Brasil.

Usando a busca da plataforma, é possível encontrar duas versões do “grupo onde fingimos estar em um universo paralelo”. Somados, eles contam com cerca de 86 mil membros – contudo, apenas uma parcela deles é ativa nas comunidades.

Nos dois grupos, não só não há pandemia, como as dinâmicas do mundo real são invertidas. Nessa realidade ficcional, animais são donos de humanos de estimação e o cantor Zeca Pagodinho faz comerciais de água mineral, em vez de ser garoto propaganda de marcas de cerveja.

Um outro local onde a pandemia não passa de um problema distante é o “grupo onde fingimos ser ETs estudando o comportamento humano”. O próprio título já deixa claro a proposta da comunidade, na qual os 12,3 mil membros interpretam alienígenas que estão analisando e relatando os rumos da humanidade.

Há também o “grupo onde fingimos estar nos anos 2000 a 2015” e nele a pandemia é inexistente porque todos os mais de 240 mil membros fingem estar em uma época na qual o coronavírus simplesmente não era uma ameaça palpável.

O que está por trás dos grupos

A interpretação de personagens na internet não é novidade. Dos perfis falsos aos games online, fingir estar em uma outra realidade sempre foi parte da experiência na rede. O diferencial, na maior parte desses casos, é que os membros interpretam a si mesmos, apenas com pequenas mudanças.

Não há um desejo de viver uma aventura épica ou de se mascarar a própria identidade para desferir grosserias aos outros. São pessoas que buscam o mundano, o banal, migalhas de uma vida que foi suspensa temporariamente com a proliferação global do vírus.

“É uma forma de lidar com a situação, sem dúvida”, disse ao Nexo Avelino Rodrigues, psicólogo e professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. “A imaginação é importantíssima para manter nossa saúde mental, nosso equilíbrio interior”.

De acordo com Rodrigues, os membros dos grupos criam uma realidade psíquica que é vivida como verdadeira dentro daquele espaço, um local onde as dores trazidas pelo mundo real não existem, oferecendo um escapismo e uma pausa para os participantes das conversas. “Isso ajuda a lidar com a angústia que essa situação toda traz”.

O psicólogo avalia que a prática é saudável, e que só pode ser prejudicial se o indivíduo passar a não mais distinguir a realidade efetiva da realidade inventada. “Enquanto tudo isso estiver dentro do contexto de uma brincadeira, essa atividade imaginativa, prazerosa, é legal, pode até ser muito útil para as pessoas [na hora de lidar com os sentimentos]”, afirmou.

Quem também vê aspectos positivos na existência dos grupos é Aubrie Adams, professora de comunicação na Universidade Politécnica da Califórnia, nos EUA. “Pode parecer só um faz de conta na superfície, mas as emoções e as oportunidades que esses grupos oferecem são reais”, disse à revista The Atlantic.

Adams acredita que os grupos podem entreter os membros e ajudá-los a se sentirem menos sozinhos, sensação comum em meio a um cenário de isolamento social.

Adriano Facioli, doutor em psicologia pela Universidade de Brasília, vê a questão de outra forma, partindo do conceito de comportamentos infantilizados.

“Uma coisa que a psicanálise trouxe para nós é o conceito de comportamentos regressivos. Diante de uma crise, a pessoa pode ficar infantilizada ou mais impulsiva”, disse ao Nexo. Para ele, os grupos são um tanto quanto “patéticos”, “patológicos” e “ridículos”.

De acordo com Facioli, o próprio conceito dos grupos gira em torno de um escapismo infantilizado e, em sua visão, esvaziado de significado.

“O adulto escapa de outras maneiras, ele cria literatura, cria uma história, utiliza drogas, entra em um RPG mais elaborado, mais padronizado, estruturado. Uma situação como essa é muito específica e vazia”, afirmou. “O que tem aí é um desenvolvimento superficial de personagens, com tramas similares à vida real se desenrolando de maneira trivial e banal”.

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