O que é o screenlife, alternativa para produzir filmes na pandemia

Grande estúdio aposta em narrativas filmadas em dispositivos como celulares e notebooks, com ação centrada nas telas

    O estúdio americano de cinema Universal Pictures anunciou na terça-feira (9) um acordo com a produtora Bazelevs para a produção de cinco filmes no formato “screenlife” (vida na tela, em tradução livre). Nele, o uso de câmeras tradicionais é substituído pela adoção do ponto de vista de webcams e câmeras de celulares, e a narrativa se desenrola a partir das telas que passaram a dominar nosso cotidiano.

    Já há filmes produzidos nesse segmento e os resultados de bilheteria são bons. O acordo, além de atrativo financeiramente, possibilita à Universal a continuidade de alguma produção no contexto da pandemia de coronavírus, em que filmagens em sets do mundo inteiro foram paralisadas.

    A Universal ainda não decidiu em quais projetos da produtora irá investir, tampouco há previsão de lançamento dos títulos.

    O currículo da Bazelevs Company

    A Bazelevs é uma produtora russa fundada em 1994 pelo diretor Timur Bekmambetov. A relação do cineasta com a Universal começou com o longa “O procurado” (2008), estrelado por Angelina Jolie, James McAvoy e Morgan Freeman, e dirigido por ele.

    Em anos recentes, a produtora criada por Bekmambetov concentrou esforços para impulsionar o screenlife, lançando “Amizade desfeita” (2014), “Amizade desfeita 2: Dark Web” (2018), “Buscando…” (2018) e “Profile” (2018). Todos são filmes de terror ou suspense, gêneros aos quais o formato é mais associado – embora não esteja necessariamente restrito a eles. Por essa razão, o filão tem um nome específico: “desktop horrors”.

    Em “Buscando…”, por exemplo, um pai procura a filha adolescente desaparecida vasculhando seu computador. Todo o mistério se desenrola na tela do aparelho.

    O thriller de 2018 foi um hit modesto, segundo definiu a revista Forbes: custou cerca de um milhão de dólares e arrecadou mais de US$ 75 milhões. Outros títulos da Bazelevs, como “Amizade desfeita”, tiveram êxito semelhante.

    Mesmo com os números de bilheteria da produtora, Bekmambetov vinha tentando vender seus projetos para Hollywood sem muito sucesso. Segundo o produtor, foram as circunstâncias do isolamento social que tornaram menos abstrato para os executivos o conceito de um filme em que a ação acontece a partir de uma tela.

    A produção de um filme screenlife

    Durante a quarentena, Bekmambetov vem trabalhando na produção de cinco filmes no formato. Ao site de notícias Deadline, especializado na indústria do cinema, o diretor afirmou que, por conta da pandemia, estamos vivendo ainda mais no “modo screenlife” e, por isso, fazer filmes dessa maneira tem sido algo orgânico.

    Ele também enfatiza a possibilidade de poder trabalhar em equipe, o que é essencial para o cinema, com cada um estando seguro em sua casa. “Estamos todos em cidades diferentes e podemos gravar telas sem nos encontrar. Trabalhar dessa forma é da natureza dessa linguagem, do formato screenlife”, disse ao Deadline.

    Trata-se de um “set virtual”. Tudo é feito online, sem que as pessoas compartilhem o mesmo espaço – a escrita do roteiro, a seleção do elenco, as gravações, a montagem, os efeitos visuais e a trilha sonora.

    “Não é mais sobre nossas vidas no espaço físico, mas sobre comportamento, sobre as histórias de como vivemos e interagimos nas telas. Como perdemos relações e criamos novas no mundo de hoje. Acredito que para observar e entender a comunidade humana hoje, é preciso olhar para a tela dos dispositivos das pessoas”

    Timur Bekmambetov

    diretor e produtor

    Bekmambetov tem sido um dos grandes entusiastas dessa linguagem e explica que não se trata apenas de gravar o rosto dos atores capturados por suas telas, ou as interações entre atores por videoconferências. O que acontece na tela de um personagem, como uma simples busca no Google, pode ser o motor da narrativa. “Nunca mentimos para as nossas telas. Se você vê minha tela, sabe exatamente o que estou sentindo, o que estou fazendo, com o que estou sonhando”, disse.

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