Covid-19: como a fadiga da quarentena afeta a prevenção

O 'Nexo' conversou com um neurocientista e com uma economista comportamental para entender como a percepção de risco se altera ao longo da pandemia

    Os casos mais bem sucedidos de combate ao novo coronavírus, como a Nova Zelândia, demonstram que a contenção da propagação viral depende tanto de medidas tomadas pelos governantes quanto de um pacto social: o comprometimento das pessoas com a saúde comunitária.

    No Brasil, o isolamento social, apontado pela comunidade científica como maneira mais eficaz de conter a propagação das contaminações, começou a ser adotado por governadores e prefeitos em meados de março. Mas esse isolamento nunca foi radical e tampouco contou com adesão maciça da sociedade.

    O presidente Jair Bolsonaro manteve um discurso que minimiza o impacto da pandemia e prioriza a manutenção da atividade econômica, instando a população a voltar ao trabalho mesmo diante dos crescentes números de infecção e mortes. Agora em junho, os governos locais passaram a flexibilizar cada vez mais suas quarentenas.

    48,5%

    foi a taxa de isolamento social em São Paulo, estado brasileiro com o maior número de mortes, no domingo (7), segundo a empresa InLoco

    Há vários fatores em jogo na decisão de alguém ficar ou não em casa. Eles incluem casos de brasileiros que não conseguem manter sua subsistência se pararem de trabalhar fora de casa, assim como os casos daqueles que não admitem a gravidade da pandemia.

    Mas o que esperar do comportamento de quem pode ficar em casa e está comprometido com o isolamento? As novas práticas inseridas em suas rotinas, como a higienização de produtos que chegam da rua e o uso de máscaras, se tornam hábitos ou vão sendo relaxadas ao longo da pandemia?

    A fadiga da quarentena

    Nos EUA e em países da Europa, atingidos pela pandemia antes do Brasil, o termo “quarentine fatigue” (fadiga da quarentena) já é conhecido. A expressão foi trazida à tona pelo primeiro ministro do Reino Unido, Boris Johnson.

    Assessorado pela sua equipe de Insights Comportamentais, ele disse que medidas mais drásticas de isolamento só seriam adotadas no país quando a epidemia estivesse próxima de atingir um pico, para se evitar uma fadiga comportamental no engajamento dos britânicos ao esforço de contenção viral.

    Com o brusco aumento do número de casos no Reino Unido, o primeiro ministro teve que voltar atrás e logo implementar o isolamento. Mas o cansaço em relação às medidas de precaução são de fato desafios das mudanças de comportamento, especialmente quando a nova realidade exige a abstinência total de certas atividades.

    Segundo a médica especializada em psiquiatria e ciências comportamentais Jacqueline Gollan, em entrevista à CNN, o estado mental em que se relaxam os cuidados é comum em situações do dia a dia, como quando um alarme que toca com certa frequência deixa de ser levado a sério.

    Gollan explica que a adaptação às ameaças, com a diminuição da percepção de risco, é um mecanismo cerebral natural para diminuir os níveis de estresse no corpo. Nesse estágio, “as pessoas mostram baixa motivação ou energia para cumprir as diretrizes de segurança”, disse a médica à emissora de TV americana.

    Mesmo diante desse debate comportamental — e a despeito das medidas de flexibilização das quarentenas pelo Brasil —, vale o alerta da Organização Mundial da Saúde, segundo a qual a maneira mais eficaz de combater a contenção do vírus continua sendo o isolamento social.

    Duas análises sobre comportamento

    Para entender as mudanças comportamentais dos brasileiros, passados quase três meses de isolamento social, o Nexo conversou com um neurocientista e uma economista comportamental.

    • Paulo Sérgio Boggio é coordenador do Laboratório de Neurociência Cognitiva e Social do Mackenzie
    • Flávia Ávila é fundadora da InBehavior Lab, consultoria especializada em economia comportamental

    É possível que o comprometimento das pessoas com as medidas de precaução diminua conforme a epidemia de covid-19 vai se estendendo?

    Paulo Sérgio Boggio É frequente que no início de um processo de mudança haja uma motivação maior, com a consequente maior adesão ao novo comportamento. Com o passar do tempo, a motivação pode diminuir, e a manutenção da mudança se tornar mais difícil. É o que pode acontecer, por exemplo, com mudanças relacionadas à alimentação ou à prática de atividade física.

    No caso da pandemia, a manutenção da mudança depende de uma compreensão clara dos motivos que justificam aquela mudança. Saber realmente a importância de usar máscara, de higienizar os produtos quando chegam da rua, de manter um distanciamento de outras pessoas.

    Também depende da crença das pessoas quanto à gravidade do problema. Isto é, não importa apenas a informação que chega, mas também a confiança da sociedade de que aquela informação é verdadeira. Em países que conseguiram fazer com que a aderência às mudanças fosse prolongada, todos estavam alinhados quanto à natureza do problema e quanto ao tipo de mudança que era necessário implementar. Nesses casos, há um reforço social para as mudanças individuais: você sabe que o outro está fazendo, então faz também.

    Passados um, dois, três meses de implementação das mudanças, elas passam a configurar um hábito, e as pessoas entram num automatismo. Nesse ponto é mais fácil manter a adesão.

    Flávia Ávila A economia comportamental explica que isso acontece. Se adere a um hábito novo por um curto período de tempo e depois se vai relaxando nessa dinâmica. No caso da pandemia, as mudanças precisaram ser muito rápidas, o que exigiu um alto custo energético. E a ansiedade e o estresse gerados pelo isolamento e até pelo volume de trabalho em casa complicam ainda mais o processo. Os recursos mentais para decisões complexas ficam limitados.

    Nesse cenário, há o que chamamos na economia comportamental de viés de confirmação. As pessoas olham para o meio querendo confirmar suas crenças. Qualquer informação recebida é usada para a confirmação de uma ideia de que o problema não é tão sério.

    Mas ainda faltam evidências científicas sobre a pandemia especificamente, que mostrem o padrão de fadiga comportamental em uma situação como essa.

    Quais são os grupos mais afetados por essa ‘fadiga da quarentena’? A desigualdade social tem algum impacto nessa questão?

    Paulo Sérgio Boggio A facilidade em manter mudanças depende de características individuais, mas, no caso da pandemia, depende sobretudo de um ambiente social que dê suporte a essas mudanças.

    As características individuais dizem respeito à capacidade de autorregulação, de determinar e monitorar o próprio comportamento. Há pessoas que têm maior capacidade de autocontrole do que outras. Mas não adianta esperar capacidade de autorregulação e mudanças em termos de higiene, por exemplo, se não houver um ambiente sanitário adequado, ou se as informações não chegarem de um modo que sejam compreensíveis.

    Flávia Ávila Todos os grupos podem ser atingidos pela fadiga, até que a fase de adaptação passe, e a adoção de medidas de prevenção se torne um hábito. Em relação ao isolamento social especificamente, adolescentes e adultos podem apresentar maior fadiga, uma vez que costumavam ter uma vida social mais ativa, quando comparados a crianças e idosos.

    No caso das pessoas que vivem em situação de maior vulnerabilidade, além da fadiga comportamental, há a necessidade de [se buscar] recursos para questões primordiais, como ter o que comer, o que vestir e onde morar. Essa mobilização do meio [em sentido contrário ao isolamento], somada à incerteza das informações, também estimula o viés da confirmação [da ideia de que a retomada à normalidade é possível]. Mas, pela economia comportamental, a renda não faz tanta diferença no caso da fadiga. É uma questão do ser humano.

    Que medidas podem ser adotadas pelo poder público para evitar ou amenizar esse relaxamento?

    Paulo Sérgio Boggio A apresentação clara do problema, de suas causas e da projeção de sua evolução — especialmente no curto e no médio prazo, prazos que afetam mais a percepção de risco — aumenta as chances de as pessoas se manterem engajadas por mais tempo. Isso passa por saber como disseminar a informação para os diferentes grupos da sociedade. Informar, por exemplo, que há uma morte por minuto pode chamar mais à atenção para a gravidade do problema do que dizer o número total de mortes.

    Aquelas coletivas de imprensa que estavam sendo feitas pelo ministro [Luiz Henrique] Mandetta [demitido em 16 de abril] tinham um papel importante. A população sabia que, sempre num mesmo horário, teria algum tipo de orientação. A estrutura vai ficando automatizada, organizada. Da forma como está atualmente, não se sabe nem quantos óbitos houve. Abre-se uma possibilidade enorme de desengajamento no processo de combate ao vírus, porque se perde a dimensão do problema.

    Também é necessário um alinhamento dos discursos das lideranças políticas. Estamos fazendo estudos para entender se mensagens que ampliem o senso coletivo têm um efeito maior. Isto é, se mensagens que incluem as pessoas em um pertencimento coletivo são mais efetivas. Foi o que aconteceu, por exemplo, na Nova Zelândia, onde as mensagens procuraram unificar a sociedade.

    Flávia Ávila As autoridades brasileiras precisam entrar em consenso sobre quais são as medidas de prevenção que devem ser adotadas pela população. Pelo menos um consenso sobre o básico.

    O excesso de informação e a incerteza sobre quais são as condutas corretas geram ainda mais desgaste mental. Nessas situações, e considerando que o contágio é silencioso, as vozes das lideranças têm muito peso. Os exemplos de artistas e de pessoas que sejam referências para determinada comunidade também.

    Além disso, é preciso focar em passar mensagens simples e em quem serão os mensageiros. Para cada local — favelas, escolas, universidades, área privada — é uma comunicação, mas as mensagens devem ser sempre práticas. A informação, por si só, não gera ação. O como tem que vir de uma forma muito clara.

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