3 boatos verificados na semana para você ficar de olho

O ‘Nexo’ integra o Comprova, coalizão de 28 veículos jornalísticos que busca combater a desinformação

    As redes sociais são um importante meio de comunicação para cidadãos e governos, ao divulgar e esclarecer assuntos de interesse público. Mas nelas também se proliferam posts, imagens e vídeos fabricados, manipulados ou retirados de contexto que podem causar danos. É um ambiente em que conteúdos podem ser disseminados rapidamente, sem preocupações com fonte ou veracidade.

    Para combater a desinformação nas redes surgiu o Comprova, do qual o Nexo faz parte. A iniciativa, que teve início em 2018, está agora em sua terceira fase e conta com a colaboração 28 veículos de comunicação para monitorar e verificar conteúdos suspeitos sobre políticas públicas do governo federal, sobre as eleições municipais de 2020 e sobre a pandemia da covid-19, doença causada pelo novo coronavírus.

    Na semana em que o Brasil atingiu a triste marca de 40 mil óbitos causados pela covid-19, o Nexo selecionou três verificações feitas pelo Comprova sobre a pandemia. Confira:

    Número de pacientes recuperados da covid-19 não foi ‘quase duplicado’ após a adoção do novo protocolo da cloroquina

    Um post que viralizou nas redes sociais nas últimas semanas afirma que número de pacientes curados da covid-19 “quase duplicou” após a mudança do protocolo de uso da cloroquina, que permitiu que o remédio fosse utilizado em pacientes com sintomas leves da doença, ocorrida em 20 de maio. O Comprova apurou que a afirmação é enganosa.

    O post traz um texto publicado no dia 29 de maio no site “Agora Paraná” e assinado por Oswaldo Eustáquio, blogueiro conhecido por ser um defensor do presidente Jair Bolsonaro e que já foi condenado pela Justiça ao pagamento de multa por publicar uma informação falsa envolvendo o jornalista Glenn Greenwald. Em entrevista ao Comprova, Eustáquio afirmou que se baseou em dados da universidade Johns Hopkins para chegar à sua conclusão.

    A consulta às bases de dados da universidade e do Ministério da Saúde revelou que o percentual de pacientes recuperados em relação ao número total de casos da doença no país pouco variou desde a adoção do novo protocolo para uso do medicamento, mantendo-se estável em torno de 40%. O que revela que não é possível estabelecer uma relação direta entre a nova orientação para o uso da cloroquina e uma melhora nos indicadores da doença no país.

    A verificação revelou que, mesmo em se tratando de números absolutos, não é possível dizer que número de pacientes curados foi “quase duplicado” após a adoção do novo protocolo. O Comprova apurou que, nos oito dias que antecederam a entrada em vigor da nova orientação, o país tinha uma média de 4.900 pacientes recuperados por dia. No hiato de nove dias entre a data de publicação do novo protocolo e a data de publicação do texto no “Agora Paraná” a média foi de 7.800 pacientes recuperados por dia, segundo os dados do Ministério da Saúde. O aumento nesses números acompanhou o aumento no número de casos registrados, o que não significa uma melhora na situação da doença no país.

    Além da consulta às bases de dados, o Comprova entrou em contato com o CFM (Conselho Federal de Medicina) para apurar se seria possível estabelecer uma relação do uso da cloroquina e uma melhora dos índices de cura dos pacientes com a covid-19. Por email, o conselho afirmou que não existem até o momento estudos clínicos de boa qualidade que comprovem a eficácia do medicamento nesses pacientes.

    A verificação foi realizada por SBT e Folha de S.Paulo, e foi validada por outros veículos. Veja a verificação na íntegra.

    É enganosa a foto que sugere a utilização de corpos falsos envoltos em sacos plásticos para desacreditar o número de mortos pela covid-19

    Uma fotografia que mostra uma pessoa carregando o que seria um cadáver falso envolto em um saco plástico viralizou no Facebook com o objetivo de desacreditar o número de mortes causadas pela covid-19. A legenda da imagem afirma que se deveria “tentar disfarçar melhor” o fato de os corpos envoltos nos sacos plásticos não serem verdadeiros.

    A partir de uma busca reversa de imagem no Google, o Comprova encontrou a mesma fotografia que viralizou nas redes sociais publicada em centenas de sites. A partir dessa informação, foi possível localizar o autor da imagem — o fotógrafo Cristobal Herrera.

    Em uma troca de mensagens com o Comprova, Herrera disse que a fotografia foi tirada durante um protesto que ocorreu em 27 de maio na cidade de Miami. Nessa oportunidade, manifestantes organizaram um funeral simbólico e colocaram sacos plásticos pretos para representar os corpos de pessoas que morreram pela covid-19 em um protesto contra a reabertura da economia no estado da Flórida.

    O usuário responsável pelo post enganoso apagou a publicação, mas até isso ocorrer o conteúdo já tinha sido compartilhado mais de 10 mil vezes no Facebook.

    A verificação foi realizada pela revista Piauí e pela rádio Band News FM, e validada por outros veículos. Veja a verificação na íntegra.

    É enganoso que um vídeo que retrata a reabertura dos serviços em Genebra prove que a pandemia é uma farsa

    Um vídeo que retrata imagens da retomada das atividades econômicas em Genebra viralizou nas redes nesta semana. O autor do vídeo afirma que a pandemia causada pelo novo coronavírus seria uma “manipulação”, uma vez que na cidade onde se localiza a sede da OMS (Organização Mundial da Saúde) as pessoas estariam circulando praticamente sem restrições e sem o uso de máscaras, desobedecendo as recomendações do órgão.

    O vídeo, que chegou a ser publicado na página de Facebook do empresário Luciano Hang, apoiador do presidente Jair Bolsonaro, mostra pessoas interagindo na cidade suíça sem utilizar máscaras e sem manter uma distância de pelo menos um metro e meio umas das outras. O narrador do vídeo afirma que as imagens foram gravadas no dia 1º de junho.

    A partir de uma ferramenta que permite o desmembramento do vídeo em frames e que se faça uma busca das imagens congeladas no Google, o Comprova concluiu que o vídeo foi de fato gravado em Genebra, mas não conseguiu apurar se as imagens foram feitas no dia 1º.

    Considerando que o vídeo tenha sido gravado no dia 1º junho, o Comprova checou qual a situação da pandemia na Suíça para apurar se as pessoas que aparecem no vídeo estariam desrespeitando as regras de isolamento social. Desde de o dia 27 de abril as autoridades suíças vem, de forma gradativa e coordenada, relaxando as medidas de isolamento devido à uma diminuição consistente nos números de novos casos e óbitos causados pela doença. Em 11 de maio, bares, cafés e restaurantes estão autorizados a funcionar. O uso de máscaras não é obrigatório em espaços públicos.

    O vídeo, ao desconsiderar o contexto suíço e ao afirmar que a OMS estaria manipulando a gravidade da pandemia, omite duas questões importantes. A primeira é que a pandemia está sob controle no país depois de oito semanas de medidas restritivas de isolamento social — bem diferente do contexto do Brasil, por exemplo, onde a covid-19 ainda está descontrolada. A segunda é que a OMS não tem poder para emitir ordens, nem mesmo na cidade onde fica a sua sede.

    A verificação foi realizada por Uol, revista Piauí e rádio Band News FM, e validada por outros veículos. Veja a verificação na íntegra.

    Você recebeu algum conteúdo sobre o novo coronavírus que gerou dúvida e gostaria que o Comprova checasse? Envie uma mensagem de WhatsApp para (11) 97795-0022 ou pelo site do Comprova.

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