Por que países populosos estão reabrindo no pior da pandemia

Mundo registra recorde de contaminações pela covid-19 no momento em que líderes de Brasil, Índia e México apostam no desconfinamento

Não há nenhum sinal de que a pandemia da covid-19 esteja chegando ao fim. Pelo contrário, no dia 7 de junho o mundo registrou o mais alto número de diagnósticos de infecção num único dia, desde o início da crise em 2019. Mais de 136 mil pessoas foram detectadas com a doença num intervalo de 24 horas.

Apesar do franco crescimento dos casos, países populosos como Brasil, Rússia, Índia, México, Paquistão e Irã estão pondo fim à quarentena e relaxando confinamentos. Essas decisões são tomadas por pressão de economias em colapso e pelo alto custo político de manter o povo por tanto tempo num regime excepcional.

Mesmo sem uma cura à vista, líderes mundiais estão optando pela reabertura das atividades econômicas, que julgam ser o caminho para lidar com as consequências do desemprego, da pobreza e da fome – mesmo que isso implique um alto número de internações e mortes. Em alguns casos, as decisões são tomadas pelo governo central (presidentes e primeiro-ministros), em outros, pelos responsáveis em administrações descentralizadas (governadores e prefeitos).

O resultado, em todo caso, preocupa a OMS (Organização Mundial da Saúde), que alerta para o fato de que o pior momento da pandemia pode ainda não ter passado. “De maneira alguma está terminado. Se olharmos para os números da semana [de 7 a 12 de junho], a pandemia ainda está se desenvolvendo. Está crescendo em muitas partes do mundo”, disse Mike Ryan, diretor-executivo da OMS.

Quais eram os indicativos para a reabertura

A reabertura da China e dos países europeus foi guiada por um protocolo que não está sendo seguido em outras partes do mundo. Tanto a OMS quanto autoridades regionais de saúde fixaram as recomendações de reabertura num tripé, formado pelas seguintes condições prévias:

  1. Redução significativa dos registros de casos do coronavírus
  2. Capacidade suficiente dos sistemas locais de saúde
  3. Capacidade adequada de monitoramento dos casos, por meio de testes

Essas condições não estão dadas nos países em desenvolvimento que aceleram suas reaberturas no mês de junho. Na Índia, por exemplo, o sistema local de saúde dá sinais de estar “à beira do colapso”. De acordo com o correspondente do jornal americano The New York Times em Nova Déli, Jeffrey Gettleman, “as pessoas não conseguem ser testadas nem têm acesso a um leito hospitalar”.

A Índia realizou a maior quarentena do mundo. Nenhum outro país tão populoso manteve em vigor um confinamento nacional com regras tão rígidas por tanto tempo. Mas essas medidas, iniciadas em 24 de março, começaram a ser relaxadas a partir de 13 de maio e foram completamente extintas em junho.

O primeiro passo foi a liberação do transporte ferroviário, que movimenta 8,6 bilhões de passageiros por ano no país. Rapidamente, a Índia transformou-se no terceiro país em taxa de infecção, atrás apenas dos EUA e do Brasil. São quase 10 mil novos diagnósticos de covid-19 por dia em território indiano.

América Latina como novo epicentro

Depois da China, dos EUA e da Europa, agora é a vez de a América Latina figurar como novo epicentro da pandemia. A região responde por metade de todas as mortes por covid-19 registradas no mundo, segundo dados de junho.

Porém, se países ricos mostraram ter condição de manter suas economias fechadas por longos períodos, o mesmo não acontece com os latino-americanos. O cenário na região combina redes frágeis de amparo social e saúde pública, fragilidade institucional, violência urbana e instabilidade política.

O presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, que no início mostrou incredulidade diante do perigo que a pandemia representava, acabou apoiando medidas de distanciamento social, sem entretanto impor quarentenas rígidas, como no caso indiano.

AMLO, como é conhecido, logo relaxou as regras de sua política sanitária e, no início de junho, reabriu definitivamente as atividades econômicas, mesmo que os números de contaminação não tivessem cedido. “Temos de seguir em frente rumo a uma nova normalidade porque a economia do país e o bem-estar da população dependem disso”, afirmou o líder mexicano em visita ao balneário de Cancún.

O governo do México é o que realizou menos testes de detecção do vírus per capita entre todos os países-membros da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Algumas cidades mexicanas lidam com o colapso de hospitais e crematórios e, em entrevistas à imprensa, médicos dizem temer que o pior ainda esteja por vir.

O Brasil é, entretanto, o caso mais grave em toda a região. O país, que se tornou o segundo em número de infectados no mundo, não tem sequer um titular à frente do Ministério da Saúde de um governo que nega a gravidade da pandemia, e cujo presidente se tornou mundialmente conhecido por violar as normas de distanciamento social e abraçar apoiadores em praça pública, sem máscara no rosto.

O governo federal e os governos estaduais divergiram publicamente sobre a aplicação da quarentena e as regras de confinamento, causando confusão numa população que perdeu a referência sobre o melhor comportamento a adotar.

A cidade de São Paulo, por exemplo, reabriu suas lojas na quarta-feira (10) depois de uma proibição que vigorou sobre o comércio por 78 dias. A reabertura, entretanto, ocorreu no momento em que o estado bateu recorde de mortes pela covid-19 num único dia.

Segunda onda e novas fronteiras

Além dos países que reabrem sem ter atingido o pico da primeira onda de contaminação, há ainda os casos de países que conseguiram debelar a fase aguda da pandemia, mas que, ao reabrir, temem a ocorrência de uma nova onda.

Essa é a situação sobretudo dos países asiáticos e europeus, além dos EUA e do Irã. Nesses países, a reabertura gradual trouxe alívio social e econômico. Isso foi possível à medida que uma política eficaz de confinamento fez desafogar o número de leitos hospitalares ocupados por pacientes com covid-19.

Esse respiro pode, entretanto, ser apenas temporário. Além disso, a emergência de uma nova onda nesses locais pode coincidir com a expansão da doença para novas fronteiras. O caso que mais preocupa é o do continente africano, onde a densidade populacional de centros urbanos aparece associada à precariedade econômica e das redes de saúde.

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