Leitos de UTI: a falta de transparência nos dados brasileiros

Nível de ocupação em hospitais se tornou principal critério para reabertura em algumas regiões, mas pesquisadores apontam que números disponíveis nem sempre são precisos

    Temas

    A capacidade dos sistemas de saúde tem sido o principal critério para que algumas regiões do Brasil flexibilizem suas quarentenas, após as medidas de fechamento de comércio não essencial adotadas a partir de meados de março devido à pandemia no novo coronavírus

    É o que aconteceu na cidade de São Paulo, por exemplo, que permitiu a reabertura das lojas na quarta-feira (10), por um período de quatro horas e com a capacidade limitada a 20%, e dos shoppings na quinta-feira (11), às vésperas do Dia dos Namorados.

    A flexibilização paulista atendeu a um pedido de representantes dos lojistas. A medida entrou em vigor no dia em que o maior estado do Brasil e com o maior número de contaminações e mortes bateu recorde de vítimas registradas em 24 horas. Foram 340 óbitos.

    No fim de maio, o governador João Doria (PSDB) anunciou um plano para a retomada gradual das atividades, levando em consideração dois critérios: a capacidade do sistema de saúde a evolução da covid-19, doença causada pelo novo coronavírus.

    O estado foi dividido em regiões classificadas em cinco etapas de cores, das medidas mais rigorosas para as menos rigorosas. A classificação final de uma área, segundo o plano, corresponde à menor nota atribuída a um dos critérios (capacidade do sistema de saúde ou evolução da doença). Isso significa que, se os hospitais não estiverem cheios, isso terá mais peso na decisão sobre a reabertura do que um crescimento de casos de infecção pelo novo coronavírus.

    69,1%

    era a taxa de ocupação dos leitos de UTI no estado de São Paulo na quinta-feira (11); na capital, segundo a prefeitura, o número era de 65%

    O mecanismo de classificação foi criticado por pesquisadores da área de saúde por privilegiar o comércio e não a saúde. Os dois critérios, segundo eles, não deveriam ser analisados separadamente, mas juntos.

    Uma nota técnica assinada por vários pesquisadores diz que os indicadores estabelecidos pelo governo de São Paulo não incorporam “critérios de crescimento ou redução” na evolução da pandemia e que, por isso, a capital paulista, que iniciou o plano de flexibilização na fase 2, de cor laranja, deveria ter sido classificada na fase 1, vermelha, a mais rígida, pelo aumento do número de casos, de internações e de mortes observados na época.

    Ao site UOL, o professor Domingos Alves, da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto, disse que o plano do governo paulista iniciado em junho não combate a doença. “Não há uma política para controlar a epidemia no Brasil hoje. Não há, não houve e agora a política tem sido um plano de sacrifício da população, desde 1º de junho. Antes era enxugar gelo, só olhando as consequências da epidemia, agora partimos para o sacrifício”, disse ao portal.

    802.828

    casos de infecção pelo novo coronavírus foram registrados no Brasil até a quinta-feira (11), segundo o Ministério da Saúde

    40.919

    era o número de mortos pela doença em todo o país até a mesma data

    Os dados de UTI no Brasil

    Os números disponíveis sobre a capacidade das redes de saúde que fundamentam os governos em decisões sobre a flexibilização das quarentenas apresentam lacunas e disparidades, como mostrou um estudo lançado no começo de junho pela Rede de Pesquisa Solidária, que reúne pesquisadores de várias instituições.

    O levantamento foi feito com base nos dados disponibilizados pelo Ministério da Saúde e pelas 27 secretarias estaduais de Saúde do país. Ele descobriu, por exemplo, uma diferença de quase 25 mil contaminados a mais e cerca de mil óbitos a menos entre o Painel Coronavírus do governo federal e os dados da Sage (Sala de Apoio à Gestão Estratégica). As duas fontes são do Ministério da Saúde.

    Em relação ao número de leitos destinados a pacientes com covid-19, a pesquisa notou uma diferença superior a 200% entre o Painel de Leitos e Insumos Covid-19 do ministério e o CNES (Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde), também mantido pela pasta.

    Dos 27 estados, apenas sete apresentam a taxa de ocupação em tempo real dos leitos de UTI para tratar doentes de covid-19 pelo SUS (Sistema Único de Saúde), sendo que apenas cinco estados fazem a distinção entre o número de leitos que pertencem ao SUS e os do setor privado. Na época da pesquisa, divulgada em 5 de junho, Rio de Janeiro e Tocantins eram os dois únicos estados que não apresentaram nenhuma informação sobre os leitos em suas plataformas.

    “Há uma diversidade grande na qualidade da informação. Sem ter uma padronização, fica muito difícil que a gente avalie, por exemplo, se um estado está mais avançado que outro na oferta de leitos de UTI, ou na gestão, nas pactuações, na taxa de ocupação”, disse Tatiane Moraes de Sousa, doutora em saúde pública e uma das responsáveis pelo estudo.

    Em São Paulo, por exemplo, os dados apresentados pelo governo do estado não permitem saber quantos dos leitos ocupados são públicos e privados. No estado, 61,6% da população depende exclusivamente do SUS para os serviços de saúde. Na capital, essa taxa é de 51,8%.

    Segundo a pesquisa, com base nos números do Ministério da Saúde, apenas 32% dos leitos destinados à covid-19 são públicos, enquanto na capital, a quantidade é de 41%.

    “Não diferenciar esses leitos tem uma implicação. Existe uma proporção da população que não tem acesso a plano de saúde. Se a taxa de ocupação não me diz se é leito privado ou sob gestão do estado, eu que não tenho plano de saúde não sei qual é a taxa de ocupação, o número de leitos que me cabe, porque eu não vou para um hospital privado”, afirmou a pesquisadora.

    72%

    das regiões de saúde do Brasil não tinham o número mínimo desejável de 10 leitos por 100 mil habitantes em janeiro de 2020

    15%

    dos brasileiros atendidos pelo SUS não tinham acesso à UTIs, especialmente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste

    O estudo aponta que a falta de transparência impede uma avaliação da viabilidade de medidas de flexibilização que estão em curso.

    “Até para a população fazer adesão às medidas de isolamento ou saber se realmente pode flexibilizar ou não, essa informação tem que ser transparente. Alguns estados garantem que têm leito, mas se eu não visualizo a informação, não sei quantos leitos têm no estado e qual a taxa de ocupação, o que garante que esse é o melhor momento para flexibilizar?”

    Tatiane Moraes de Sousa

    doutora em saúde pública e pesquisadora vinculada à Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz)

    A ocupação dos leitos pelo Brasil

    Um levantamento feito pelo jornal Folha de S.Paulo publicado na quinta-feira (11) mostrou que nove estados do país tinham até aquela data uma taxa de ocupação de UTIs superior a 80%.

    A situação mais preocupante era do Amapá (99%), Pernambuco (96%), Acre (91%) e Rio Grande do Norte (90,2%). Mesmo assim, em algumas dessas localidades, houve flexibilização. Em Pernambuco, setores da construção civil e do comércio voltaram a funcionar na segunda-feira (8). No Rio de Janeiro, que tinha uma taxa de ocupação de 89%, os shoppings voltaram a reabrir na capital na quinta-feira (11).

    Segundo um estudo da consultoria Bain & Company publicado na quarta-feira (10) pelo jornal Valor Econômico, sete estados brasileiros ainda têm alta chances de precisar de um lockdown, ou seja, uma paralisação total das atividades não essenciais e o controle rígido da circulação de pessoas. É o caso do Rio de Janeiro, Pará, Amapá, Rio Grande do Norte, Ceará, Maranhão e Pernambuco.

    Essas regiões têm áreas com alta densidade urbana, baixos indicadores sociais e com uso intensivo do transporte público, o que favorece a disseminação do vírus, como destaca a pesquisa. O nível de uso das UTIs nesses locais também foi considerado pelos autores.

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