Qual a consistência dos indicadores usados para as reaberturas

Por pressão de lojistas, São Paulo decidiu reabrir shoppings às vésperas do Dia dos Namorados, apesar de estado bater recorde de mortes. Pesquisadores consideram decisão precipitada

    Após 78 dias de fechamento do comércio não essencial, a cidade de São Paulo voltou a abrir suas lojas na data em que o estado bateu recorde pelo segundo dia seguido no número de mortes pelo novo coronavírus. Na quarta-feira (10), foram registradas 340 mortes em todo o estado em 24 horas. No dia anterior, a doença fizera 334 vítimas.

    A capital responde por 53,5% das mortes e por 55% dos doentes de todo o estado. Ao todo, a cidade tinha 80.457 casos e 5.232 mortes até a quarta-feira (10). Na mesma data, o estado contava 156.316 casos e 9.862 mortes. São Paulo lidera os números da pandemia no Brasil. Uma em cada quatro mortes no país é de um cidadão do estado.

    As lojas e as imobiliárias, que por decisão da prefeitura puderam reabrir na quarta-feira (10), estavam fechadas desde 24 de março. Pela manhã, houve filas e aglomerações na região do Brás, no centro da cidade. Filas de consumidores, desrespeitando a distância mínima de um metro entre cada pessoa, também se formaram na rua 25 de Março, tradicional ponto de comércio na capital paulista.

    A reabertura na cidade vem ocorrendo desde 5 de junho, quando concessionárias e escritórios receberam autorização para funcionar. As lojas ficaram abertas na quarta-feira (10) por quatro horas, das 11h às 15h (fora dos horários de pico), com lotação máxima de 20% e adoção de medidas sanitárias, como o uso de álcool em gel.

    R$ 18,2 bilhões

    foi a perda do varejo na capital paulista após quase três meses fechado na pandemia, segundo cálculo do jornal Valor Econômico

    Na quinta-feira (11), os shoppings da capital poderão reabrir para atender a um pedido do comércio por causa do Dia dos Namorados, comemorado na sexta-feira (12). A retomada estava prevista apenas para o dia 15 de junho. Representantes dos lojistas já pressionam a prefeitura para estender nos próximos dias o horário de funcionamento do comércio, segundo o jornal Valor Econômico.

    As justificativas dos governos

    Segundo o governo do estado e a prefeitura de São Paulo houve uma desaceleração da pandemia na capital nos últimos dias que justifica a reabertura do comércio. Cálculos do governo estadual apontam uma queda nas mortes na cidade em 17% entre 29 de maio e 9 de junho. No mesmo período, o número de casos de infecção recuou 9%.

    Os números mostram uma estabilização da situação na cidade de São Paulo, em contraste com o interior, onde houve avanço da doença em algumas regiões, como Ribeirão Preto, Barretos e Presidente Prudente.

    A Secretaria Municipal de Saúde diz também que o sistema de saúde da capital não corre mais o risco de colapsar devido à diminuição da ocupação de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) na rede pública e na quantidade de pedidos de internação.

    “Mesmo no momento de maior pressão, no final de abril e maio, a gente conseguiu suportar pressão e tratar todo mundo. Agora, a gente tem uma combinação, que é o aumento do número dos leitos de UTI, com chegada de respiradores, e há dez dias quedas contínuas na solicitação de UTI e nas internações”, afirmou o secretário municipal da Saúde de São Paulo, Edson Aparecido, na terça-feira (9).

    77%

    era a taxa de ocupação dos leitos de UTI na região metropolitana de São Paulo; em todo o estado, o índice era de 69,4%, segundo o governo paulista

    O crescimento no interior

    Ao contrário do que ocorreu na capital, houve um avanço da pandemia no interior do estado, onde as restrições ao comércio e a circulação de pessoas eram mais brandas. Três regiões retrocederam na quarta-feira (10) para a fase vermelha (a mais rígida), devido ao aumento de casos da doença. No mesmo dia, o governador João Doria anunciou a ampliação das quarentenas no estado de 15 a 28 de junho.

    No final de maio, o governo paulista havia anunciado uma plano de reabertura “consciente” das atividades. O estado foi dividido em cores que representam cinco etapas de reabertura, da mais controlada para a mais leve. Grande parte do interior começou na classificação três, amarela, que permitia o funcionamento até de bares, restaurantes e salões de beleza. Com a expansão do vírus nessas regiões, elas voltaram à etapa dois (laranja, com o comércio limitado, como na capital) e à etapa um (vermelha, onde apenas as atividades essenciais podem abrir).

    Em entrevista na quarta-feira (10), Doria negou erro do governo ao flexibilizar as regras no interior, onde os números da doença aumentaram logo nos dias posteriores.

    “A avaliação do governo é que nós seguimos os índices e a orientação da ciência. (...) Aqui não há política, não há pressão política, não há pressão econômica, há determinação da saúde, são os índices que compõem as nossas decisões”

    João Doria

    governador de São Paulo, em entrevista na quarta-feira (10)

    O que dizem os especialistas

    O médico Paulo Lotufo, professor titular de clínica médica da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), discorda da avaliação do governo paulista de reabrir lojas e shoppings na capital. Para ele, os números de mortes estão num platô, ou seja, se estabilizaram num patamar alto, e embora possam estar em queda, os casos de internação não mudaram muito em relação às semanas anteriores.

    “Reabrir é precipitado. Só o que eu vi hoje da 25 de Março me deu um troço. E, principalmente, porque as pessoas estão pegando o transporte público, estão andando por aí e se contaminando”, disse ao Nexo.

    Segundo ele, a justificativa de que há leitos de UTI suficientes para atender os doentes graves não basta para uma reabertura das atividades. “Aumentou bastante o número de leitos, é até um mérito em São Paulo, mas é a mesma coisa que falar que não precisa reduzir o tabagismo porque eu criei mais oito institutos de câncer. A questão [da pandemia] continua”, afirmou.

    “O que a gente aprendeu nesses três meses é que, realmente, a questão do isolamento social e dos bloqueios é fundamental. Há três semanas eu defendia o lockdown [fechamento total] de 15 dias em São Paulo, na região metropolitana inteira. Um fechamento radical. Se tivesse feito isso, hoje a gente já estaria num padrão bem melhor”

    Paulo Lotufo

    professor titular de clínica médica da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo)

    O relaxamento das quarentenas, na opinião de Lotufo, deveria ocorrer quando houvesse uma redução constante de casos num período de 7 a 14 dias, acompanhada de uma queda de todos os indicadores, como o das internações.

    Pesquisador do Laboratório de Biologia Integrativa e Sistêmica da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Marcelo Brandão também critica o uso dos números de ocupação dos hospitais como justificativa para a reabertura.

    “Não é mentira que os hospitais de campanha e os hospitais particulares estão livres e que a rede pública está bem utilizada. Mas é uma foto de um momento e não se pensou daqui para frente. Vão ser colocadas na rua agora cerca de 1 milhão de pessoas, no mínimo, por dia, em regiões de comércio. E o interior está começando a viver a segunda onda de infecção. É isso que vai chegar a São Paulo”, disse ao Nexo.

    O risco de ocorrer uma segunda onda de infecção na capital paulista, segundo ele, é encontrar um cenário próximo da saturação da rede pública de saúde. Ele lembra também que muitos hospitais de campanha não estão com os leitos 100% operando e não há um acordo entre os setores público e privado para a utilização de leitos de UTI.

    Segundo o pesquisador, um dos índices mais importantes para se observar é o dos casos ativos, que permite saber o número de infectados dentro de uma determinada área. O ideal, afirma, seria descobrir as nuances da doença por microrregiões em São Paulo, por meio de testes, e determinar a quantidade de pessoas que se pode colocar nas ruas, liberando cada zona da cidade por etapas.

    “São Paulo é uma cidade imensa, com regiões como Brasilândia, Penha e Brás, onde a média de casos confirmados é 630 por 100 mil habitantes. Se a gente extrapolasse só para esses bairros pequenos, a média passaria para 800. Você tem muito mais concentração nesse lado. Se pegar bairros como Pinheiros e Alto da Lapa, a média cai para 200 e pouco”, afirmou.

    Abrir os shoppings apenas de São Paulo pode fazer pessoas de outras regiões onde a infecção é menor frequentarem os centros comerciais da capital, o que poderia criar um fluxo da doença do interior para a capital e vice-versa. Para ele, o correto é o governo recuar caso haja uma explosão de casos após a flexibilização.

    “O dia certo para reabrir é quando os dados forem trabalhados com a maior seriedade. Aí se consegue segurar a circulação do vírus e, se der problema, ter uma estrutura hospitalar para segurar esse pessoal. A gente não pode ficar o tempo inteiro fechado. Em algum momento vai ter que abrir”

    Marcelo Brandão

    pesquisador do Laboratório de Biologia Integrativa e Sistêmica da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas)

    A situação da pandemia no Brasil

    A reabertura do comércio e dos shoppings em meio à fase mais aguda da pandemia não é exclusividade de São Paulo. O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, também autorizou a retomada dos centros comerciais na cidade na quinta-feira (11), véspera do Dia dos Namorados.

    “Os parâmetros que balizam as medidas de afastamento social são favoráveis. Diante disso, a vigilância sanitária solicitou que adiantássemos a abertura dos nossos shoppings. Os líderes dos shoppings estiveram em reunião conosco para estabelecer um acordo, e todos eles aceitaram as regras. Amanhã [quinta], os shoppings voltam a abrir”, afirmou na quarta-feira (10).

    O estado do Rio de Janeiro registrou na quarta 7.138 mortes e 74.373 casos da doença. Uma reportagem do G1 mostrou que o painel da Prefeitura do Rio que registra os casos na cidade mostrava na quarta 4.599 vítimas da covid-19, 719 a menos do que o sistema de mortalidade do SUS, com 5.318 registros. A prefeitura se justificou dizendo apenas que os sistemas de contagem usados são diferentes.

    Embora já adote a flexibilização das quarentenas, o Rio de Janeiro é um dos sete estados que ainda têm alta chances de precisar de um lockdown, ou seja, uma paralisação total das atividades não essenciais e o controle rígido da circulação de pessoas, segundo um estudo da consultoria Bain & Company publicado na quarta-feira (10) pelo jornal Valor Econômico. Os outros são Pará, Amapá, Rio Grande do Norte, Ceará, Maranhão e Pernambuco.

    São áreas com alta densidade urbana, baixos indicadores sociais e com uso intensivo do transporte público, o que favorece a disseminação do vírus, como destaca a pesquisa. O nível de uso das UTIs nesses locais também foi considerado pelos autores.

    Outro estudo do Imperial College, do Reino Unido, mostrou que a taxa de contágio do Brasil é de 1,08, o que significa que cada 100 brasileiros transmitem a doença para outras 108 pessoas, o que é considerado alto. Para que haja o controle da pandemia, o número precisa ficar menor do que 1, que é o caso da Alemanha (0,83), Portugal (0,79) e Filipinas (0,7). Em abril, a taxa do Brasil era de 2,8.

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