Como a pandemia impacta os hospitais privados

Empresas de saúde têm receitas menores e custos mais altos na crise sanitária. BNDES lança linha de crédito específica ao setor, mas alcance pode ser reduzido

Em meio à pandemia do novo coronavírus, o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) lançou no início de junho uma linha de crédito especial voltada para hospitais e laboratórios privados.

R$ 2 bilhões

é o valor total da linha de crédito lançada pelo BNDES

A ideia é dar alívio para o setor ao fornecer empréstimos para capital de giro – o dinheiro necessário para o funcionamento no dia a dia. Abaixo, o Nexo explica o que é a linha de crédito do BNDES e mostra como a pandemia afeta as empresas da área.

O crédito do BNDES

A linha do BNDES será voltada para hospitais e laboratórios de grande porte. Isso significa que o faturamento anual das empresas aptas a receber os empréstimos deve ser de ao menos R$ 300 milhões. Os juros consistirão na taxa básica da economia – a Selic, que está em 3% ao ano no começo de junho –, mais 1,5% ao ano e um adicional variável de risco.

O valor do empréstimo pode variar entre R$ 10 milhões e R$ 200 milhões, com prazo de quatro anos (48 meses) no pagamento. O prazo de carência será de um ano, o que quer dizer que os hospitais que contraírem o crédito terão doze meses antes de começar a pagar as amortizações.

As condições e prazos do crédito podem ser melhorados caso a empresa cumpra determinadas metas. Entre elas está a manutenção de 90% dos funcionários por dois meses a partir da assinatura do contrato. Há também metas relativas à manutenção do quadro de empregados no longo prazo.

O alcance do crédito

Um levantamento feito pela Federação Brasileira de Hospitais e pela Confederação Nacional de Saúde mostrou que, em 2019, dos mais de 4.200 hospitais privados no Brasil, a maioria (57,3%) é de pequeno porte. Trata-se de hospitais com até 50 leitos e que podem não ser aptos para tomar a linha de crédito do BNDES.

Além disso, uma reportagem do jornal O Globo publicada na segunda-feira (8) mostrou que mesmo hospitais que estão contemplados pelos critérios da linha de crédito podem optar por não usá-lo. Isso porque o custo do crédito não necessariamente vai ser mais vantajoso que o oferecido por outros bancos no mercado. Além disso, a demora do BNDES para criar uma linha de crédito específica para as empresas do setor de saúde pode ter levado hospitais e laboratórios a procurarem outras instituições financeiras para apoio na crise.

As finanças dos hospitais na pandemia

A pandemia atingiu em cheio os bolsos dos hospitais e laboratórios privados. E o impacto veio tanto do lado dos custos como das receitas.

Em primeiro lugar, as empresas estão vendo o preço de equipamentos e insumos dispararem. Os equipamentos de proteção individual, usados no dia a dia por médicos, enfermeiros e técnicos, encareceram em até 500%. Ao mesmo tempo, esses mesmos equipamentos estão sendo demandados pelos hospitais, clínicas e laboratórios em volume maior do que antes da pandemia. Isso significa que as empresas têm de comprar mais equipamentos e por um preço mais alto.

Além disso, os gastos com pessoal também tendem a aumentar. Com as UTIs movimentadas e profissionais de saúde sendo infectados em grande número, os hospitais terão de pagar outros funcionários e horas extras para cobrir a demanda. Em 2019, os gastos dos hospitais brasileiros com pessoal representavam em torno de 30% do valor total das receitas (antes de impostos), segundo dados da Anahp – Associação Nacional de Hospitais Privados, que reúne 122 hospitais, incluindo instituições como Sírio-Libanês e Albert Einstein.

Estima-se que os custos fixos, que incluem despesas como pessoal e aluguel, representem em torno de 70% dos custos de um hospital. Isso significa que a maior parte dos gastos não pode ser contornada ou alterada no curto prazo.

Do lado das receitas, o adiamento ou cancelamento de até 90% das atividades eletivas foi o que mais impactou o faturamento das empresas privadas de saúde. Isso porque os exames, cirurgias e procedimentos que não são urgentes tendem a ser os mais rentáveis. Segundo a Anahp, os procedimentos eletivos normalmente representam cerca de 45% das receitas e ocupações dos hospitais. Entre hospitais focados em procedimentos eletivos, o tombo deve ser especialmente forte, com quedas significativas no volume de atendimentos.

30% a 40%

é a queda esperada nas receitas totais de 2020 entre os hospitais que integram a Anahp

Ainda no final de março, a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) estendeu prazos para que planos de saúde cumpram obrigações relacionadas a atendimentos eletivos. Consultas, cirurgias e exames que estavam marcados e que não tinham urgência foram postergados sem que os planos de saúde fossem punidos. O objetivo da medida era priorizar o atendimento aos casos de covid-19 e às doenças graves que exigem ações rápidas. A decisão foi prorrogada no início de junho e será reavaliada na terça-feira (9).

O efeito no emprego

Com muitos hospitais em situação financeira difícil, os efeitos se desdobram sobre funcionários das empresas de saúde. Dados do Caged – Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, ligado ao Ministério da Economia – mostram que após saldo positivo de empregos nos três primeiros meses do ano, o setor de saúde registrou queda nos empregos formais em abril. A diferença entre vagas fechadas e vagas abertas foi de mais de 2.300.

A expectativa é ruim para os meses que seguem. A tendência é que, sem alívio no caixa, hospitais tenham que demitir funcionários. Por conta das dificuldades financeiras, algumas instituições já estão reduzindo salários e jornadas de trabalho, conforme autorizado pelo governo na Medida Provisória 936, editada no começo de abril.

No Hospital Israelita Albert Einstein, um dos maiores de São Paulo, cerca de um terço dos 15 mil funcionários tiveram jornadas e salários reduzidos em 25%. Segundo o hospital, esses funcionários trabalham nos setores que tiveram a demanda mais afetada por conta da pandemia.

Já no Sírio-Libanês, outro importante hospital paulistano, também houve corte de salários e jornadas. A instituição emprega cerca de 8.300 pessoas, e não detalhou quantos foram remanejados e tiveram seus contratos temporariamente alterados em razão da pandemia.

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