Como Michael Moore virou alvo de ambientalistas

Documentário ‘Planet of the humans’, que tem o cineasta como produtor executivo, questiona alternativas como o uso de energia renovável e tem sido acusado de promover informações falsas e desatualizadas

    Concluído em 2019, o documentário “Planet of the humans” (Planeta dos humanos) foi disponibilizado gratuitamente no YouTube em 21 de abril, véspera do 50º “dia da Terra”. A data foi criada em 1970 nos EUA para aumentar a visibilidade e a mobilização em torno da pauta ambiental.

    “Planet of the humans” questiona as soluções defendidas por ambientalistas para a crise climática. A substituição dos combustíveis fósseis por fontes de energia renovável e limpa, uma das questões centrais na agenda ambientalista, é apresentada como uma ilusão.

    O filme foi dirigido, escrito e narrado pelo americano Jeff Gibbs. Gibbs atuou como produtor em “Tiros em Columbine” (2002) e “Fahrenheit 11 de setembro” (2004) – além dos mais recentes “Michael Moore in TrumpLand” (2016) e “Fahrenheit 9 de novembro” (2018) –, que transformaram o documentarista Michael Moore em uma figura identificada com a esquerda.

    Em seus filmes, Moore adota uma postura crítica às grandes corporações, à violência armada na sociedade americana e a políticos conservadores americanos como George W. Bush e Donald Trump.

    Agora, como produtor executivo do filme de Gibbs, Moore se tornou alvo de críticas daqueles que costumavam se alinhar às suas opiniões políticas. Em sua coluna no jornal britânico The Guardian, o jornalista e ambientalista George Monbiot chegou a afirmar que “Planet of the humans” converteu o cineasta em um herói da extrema direita.

    Segundo o jornalista, o documentário não nega a mudança climática, mas promove mitos há muito usados por negacionistas para justificar seu posicionamento. Cientistas, jornalistas e cineastas envolvidos na causa ambiental também afirmam que o filme beneficia a indústria de combustíveis fósseis.

    Retirada do ar

    Entre abril e maio, “Planet of the humans” foi assistido por mais de 8 milhões de pessoas no YouTube. No fim de maio, em meio a críticas de ambientalistas e cientistas, o YouTube tirou o filme do ar devido a uma violação de direito autoral.

    Dias antes, o fotógrafo Toby Smith havia apresentado na plataforma uma queixa contra o documentário pelo uso de um trecho de uma filmagem feita por ele sem sua autorização e em um contexto ao qual se opõe. Smith diz não concordar com a mensagem propagada pelo filme.

    O diretor Jeff Gibbs negou ter havido violação de direito autoral e acusou opositores do documentário de tentarem censurá-lo. “Trata-se de um uso indevido do direito autoral para derrubar um filme que iniciou um debate sério sobre como setores do movimento ambientalista ‘foram para a cama’ com Wall Street e os chamados ‘capitalistas verdes’”, afirmou Gibbs numa nota. Moore também se manifestou, classificando a tentativa de derrubar o filme como “enfurecedora e covarde”.

    O filme voltou ao YouTube na sexta-feira (5), publicado na conta do próprio produtor executivo.

    As teses do filme

    As limitações da energia renovável

    Fontes de energia consideradas limpas, como solar, eólica e da biomassa, são apontadas no documentário como uma solução ilusória para reverter a dependência em combustíveis fósseis e suas consequências ambientais. Intermitentes, as fontes de energia renovável não seriam capazes de contribuir de fato para reduzir o uso de fontes como petróleo, carvão mineral e gás natural. Um dos argumentos apresentados no documentário é que a energia renovável não compensa. O ônus do uso de combustíveis fósseis necessários para fabricar a estrutura de um parque solar, por exemplo, não seria superado por sua capacidade de produção de energia limpa ao longo dos anos.

    Uma pauta capturada por empresas

    Se a energia renovável, segundo conclui o filme, não é a resposta para o problema ambiental, o investimento de governos e grandes empresas nessa via em décadas recentes seria um esquema de corporações para ganhar dinheiro com novas tecnologias anunciadas como a salvação. Voluntariamente ou não, a defesa feita por ambientalistas das fontes energia limpa estariam atuando a favor das empresas nesse esquema. O filme ataca pessoalmente figuras como o ex-vice-presidente americano Al Gore e o ambientalista Bill McKibben, criador da campanha 350.org, por sua atuação em favor da energia renovável.

    O crescimento populacional

    O aumento da população humana na Terra, sobretudo nos últimos dois séculos, é apontado pelo filme como um fator central da crise climática que enfrentamos hoje. Em oposição à “crença” na mudança de matriz energética, o controle desse crescimento seria uma necessidade urgente para reduzir os impactos da atividade humana sobre a natureza.

    As contestações às ideias do filme

    Especialistas têm afirmado que “Planet of the humans” faz algumas afirmações válidas. Mas contestam sua narrativa por trazer também informações desatualizadas ou simplesmente falsas.

    Com relação à energia solar e eólica, não é verdade que a construção e operação dos parques consome mais energia do que produz ao longo dos anos. Além disso, o uso de energia renovável tem, sim, contribuído para diminuir a dependência em combustíveis fósseis em países como o Reino Unido, onde a eletricidade gerada por fontes renováveis já é superior à que vem de usinas de carvão, petróleo e gás natural.

    Já o “capitalismo verde”, no qual mesmo empresas do ramo de combustíveis fósseis estão investindo, é uma discussão real. O ataque do documentário a ambientalistas como Bill McKibben, que não se beneficiam dele, porém, é visto como um equívoco que não ajuda a identificar os verdadeiros culpados.

    E, embora o crescimento da população aumente de fato a pressão sobre o meio ambiente, o consumo é um fator igualmente central a ser levado em conta. Países mais ricos, embora tenham uma taxa de crescimento populacional mais lenta, consomem mais, sendo os principais responsáveis pelas emissões de carbono.

    “Quando pessoas ricas, como Moore e Gibbs, apontam para essa questão sem as advertências necessárias, estão dizendo, na verdade ‘[o problema] não é o nosso consumo, é o fato de eles estarem se reproduzindo’. Não é difícil ver por que a extrema direita adora esse filme”, escreveu o colunista do jornal The Guardian George Monbiot.

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