A passagem relâmpago de Wizard no ministério da Saúde

Sem experiência na área da saúde, empresário defensor da cloroquina foi convidado pelo ministro interino da Saúde para ser conselheiro e depois secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicas da pasta. A parceria durou pouco

Durou menos de 20 dias a passagem do empresário Carlos Wizard pela Saúde do governo federal. Convidado pelo ministro interino Eduardo Pazuello para atuar como conselheiro e assumir a secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicas, Wizard inicialmente topou. No domingo (7), declinou do posto de conselheiro e do cargo de secretário, que nem chegou a assumir.

“Agradeço ao ministro [interino da Saúde] Eduardo Pazuello pela confiança, porém decidi não aceitar para continuar me dedicando de forma solidária e independente aos trabalhos sociais que iniciei em 2018 em Roraima”, afirmou o empresário em um comunicado.

Durante sua permanência como conselheiro e quase secretário, Wizard defendeu a cloroquina, medicamento sem eficácia comprovada contra a covid-19, e questionou dados de mortos e infectados pelo novo coronavírus. Sugeriu que os números eram fraudados para que o repasse de recursos federais a estados e municípios fosse maior. Declarou que era necessário fazer uma recontagem de mortos.

As falas de Wizard, alguém sem experiência na área de saúde ou em gestão pública, foram rechaçadas por especialistas e autoridades locais.

Em nota, o Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde) repudiou a acusação de Wizard. “Além de revelar sua profunda ignorância sobre o tema, insulta a memória de todas aquelas vítimas indefesas desta terrível pandemia e suas famílias”, afirmou o texto, assinado pelo presidente do Conass, Alberto Beltrame.

“Essa manifestação do futuro ex-secretário de Ciência e Tecnologia foi muito infeliz. Tenho certeza que o próprio ministro conhece essa realidade", afirmou em entrevista à CNN Brasil João Gabbardo, secretário-executivo do Centro de Contingência da covid-19 em São Paulo e ex-assessor do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta.

Nas redes sociais, diversos usuários compartilharam as hashtags #BoicoteWizard e #boicotemundoverde incitando consumidores a parar de comprar produtos e serviços das diversas empresas de propriedade de Wizard, incluindo a rede de produtos orgânicos Mundo Verde, a escola de inglês Wise Up e as lanchonetes de fast food KFC e Pizza Hut.

Dias de ‘apagão’ de dados

O Ministério da Saúde vive dias de sonegação dos dados da covid-19 no país. Na sexta-feira (5), o boletim diário do Ministério da Saúde informou apenas os números de infectados e mortes das últimas 24 horas, excluindo o consolidado de casos e óbitos.

O boletim também passou a ser publicado às 22h em vez de 19h, estratégia defendida pelo presidente Jair Bolsonaro para evitar a divulgação no jornal televisivo de maior audiência no país. “Acabou matéria no Jornal Nacional”, afirmou o presidente sobre o atraso.

No mesmo dia, mais tarde, o portal que centraliza as informações do ministério sobre doença saiu do ar, sob um aviso de que estava em manutenção. A página só retornou no final da tarde de sábado (6), também sem dados acumulados.

O Tribunal de Contas da União, em parceria com tribunais de contas estaduais, estuda a possibilidade de consolidar os dados diários de mortos pela covid-19.

A Defensoria da União protocolou na Justiça um pedido de que os dados voltem a ser divulgados integralmente pelo Ministério da Saúde, num movimento judicial que pode ser acompanhado por parlamentares da oposição. E o Ministério Público Federal pediu explicações à pasta sobre a mudança na veiculação das informações.

No domingo (7), o governo anunciou que voltaria a divulgar os números consolidados. No entanto, apresentou números diferentes em um espaço de algumas horas. Primeiro, falou em 1.382 óbitos entre sábado e domingo, estatística corrigida mais tarde para 525. Com a imprensa apontando a discrepância, o ministério da Saúde afirmou na segunda-feira que havia acontecido um “erro” e confirmou o dado de 525.

Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, Bolsonaro exigiu um número de morte por covid-19 abaixo de 1.000 por dia. Para atender o pedido, a equipe do general Pazuello passou a separar óbitos das últimas 24 horas das que haviam acontecido antes, mas registradas no dia do boletim. Antes, a pasta somava todas as mortes confirmadas no dia, mesmo as que tivessem acontecido em dias anteriores.

Como Wizard chegou ao ministério

Nascido em Curitiba, Wizard tem 63 anos. Frequenta desde os 12 anos a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, cujos seguidores são conhecidos como mórmons. O empresário se formou em ciências da computação na Universidade Brighman Young, em Utah, ligada à igreja do qual é seguidor. Morou três anos nos EUA nessa época.

Em 1987, fundou a rede de escolas de línguas Wizard. Depois, o empresário comprou outras empresas do setor, como Skill e Yázigi. Em 2013, o grupo foi vendido para a Pearson, multinacional britânica de educação e publicação, por R$ 2 bilhões.

Posteriormente, Wizard adquiriu o controle das marcas Topper e Rainha, criando a BR Sports, especializada na gestão de marcas esportivas.

Em 2016, trouxe para o Brasil a Taco Bell, rede de fast food especializada em comida mexicana. Dois anos depois, comprou os direitos das marcas KFC e Pizza Hut no país. Sua holding Sforza controla pelo menos 15 empresas, incluindo duas marcas em parceria com jogadores de futebol, Neymar Sports e Ronaldo Academy. A fortuna de Wizard é avaliada em R$ 2,1 bilhões.

O empresário conheceu Pazuello em Roraima durante a Operação Acolhida, projeto do governo brasileiro de apoio a imigrantes venezuelanos. Pazuello era coordenador da operação e Wizard, voluntário a convite de sua igreja. Os mórmons são um dos quatro grupos religiosos que participaram da operação, junto com as igrejas Católica, Metodista e Adventista.

O empresário contou sobre a experiência em seu livro “Meu maior empreendimento”, lançado digitalmente em 2020. O dinheiro das vendas do livro seria enviado a ações contra o coronavírus.

Quando aceitou o convite, Wizard afirmou que recebeu a “nomeação à Brasília como uma extensão do meu trabalho de filantropia”. “Disse ao general Pazuello que aceitava em condição pro bono. Não preciso de remuneração. Já tenho a minha vida resolvida com as minhas empresas”, afirmou o empresário.

As redes sociais de Wizard mostram fotos do empresário em diferentes momentos com Bolsonaro, com a primeira-dama Michelle, com o ministro da Casa Civil, Walter Braga Netto, e com a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves.

Entre seus argumentos para a defesa da cloroquina está a experiência do filho Charles na África, onde fez serviço comunitário. “Como havia muitos casos de malária no continente, ele tinha de tomar a tal da cloroquina. Em dois anos, tomava seu ‘comprimidinho’ toda semana. E hoje ele é saudável e tem uma mente iluminada”, declarou.

O remédio passou a ser defendido publicamente por Bolsonaro durante a pandemia, como forma de tratar a covid-19, apesar de o medicamento não ter eficácia comprovada contra o coronavírus.

A secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos, que Wizard assumiria, é uma das seis existentesna estrutura do ministério da Saúde.

Nesse departamento, Wizard iria coordenar a compra de insumos, equipamentos respiradores e testes para detecção de covid-19. Alguns dias antes de sua saída, o empresário havia dito que o governo iria gastar cerca de R$ 30,3 milhões na compra de insumos para a fabricação de cloroquina.

A gestão de Pazuello no Ministério da Saúde

Assim como Wizard, o atual ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, não tinha experiência na área. Ele se tornou interino em 15 de maio, com a saída do médico Nelson Teich. Naquele dia, o país somou 14.817 mortes por coronavírus 218 mil casos confirmados da doença. Pazuello acabou sendo oficializado como interino em 3 de junho. Ou seja, o Brasil continua sem um titular no comando da Saúde.

O presidente havia entrado em atrito com os antecessores do general, Nelson Teich e Luiz Henrique Mandetta, por eles não quererem, entre outras coisas, endossar a cloroquina como tratamento para a covid-19. Com Pazuello veio o alinhamento desejado. O presidente e seus assessores se referem ao general como “doutor Pazuello”, segundo o blog da jornalista Andrea Sadi, no G1.

A criação do conselho de notáveis para dar apoio ao ministério foi uma ideia de Pazuello. Além de Wizard, o general havia convidado o ex-ministro Teich para fazer parte do órgão, mas o oncologista declinou da oferta.

A permanência do general como interino consolida a militarização da pasta de saúde em meio à pandemia. Até o início de junho, pelo menos 25 militares foram indicados a cargos-chave na pasta, segundo apuração do jornal Estado de Minas com base em registros no Diário Oficial da União. Boa parte saiu de setores de pagamento, finanças e logística para assumir cargos de direção e coordenação.

Apesar da chegada de oficiais com currículo na área, caso do coronel médico Roberto Bentes Batista, que assumiu a direção do Departamento de Engenharia de Saúde Pública da Fundação Nacional de Saúde, muitos postos vêm sendo entregues a oficiais sem experiência no setor.

Em diversos casos, servidores de longa data do ministério foram exonerados para dar lugar aos fardados. É o caso de Francisco Bernd, que deixou a diretoria de programa na secretaria-executiva do ministério para que entrasse o tenente-coronel Jorge Luiz Kormann.

Ao jornal Folha de S.Paulo Bernd, que trabalhava na pasta desde 1985, afirmou que nunca tinha presenciado “uma mudança tão drástica, com a chegada de pessoas tão estranhas à Saúde (...) Os militares que chegam não têm absolutamente nenhuma experiência histórica na Saúde”.

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