Como são feitas as escolhas para fazer os gráficos da pandemia

O ‘Nexo’ explicou as decisões envolvidas na criação das curvas e o que cada opção significa para a visualização dos números

A pandemia do novo coronavírus tomou as manchetes dos jornais a partir de março de 2020. Entre o avanço da doença e seus desdobramentos sobre a política e a economia, a covid-19 – doença causada pelo novo coronavírus – tornou-se assunto incontornável nas pautas dos jornais, revistas e portais de notícia. E em quase todos os veículos jornalísticos, vemos um denominador comum: os gráficos.

Os gráficos têm sido uma parte importante da cobertura da pandemia. Eles mostram a evolução de casos em diferentes lugares, e dão uma ideia visual de quão efetivas estão sendo as ações dos países no combate à pandemia.

Assim como em outros conteúdos jornalísticos, a elaboração de gráficos envolve escolhas e a construção de um recorte. As diferentes formas de visualizar uma informação podem destacar determinados aspectos da trajetória da doença em detrimento de outros, conforme apontado em vídeo produzido pelo portal americano de notícias Vox.

Abaixo, o Nexo levanta cinco pontos importantes sobre os gráficos da pandemia, e as implicações de cada escolha.

A questão da testagem

Antes de tudo, é importante deixar claro que os gráficos trazem apenas os casos confirmados de covid-19 em cada país. Isso significa que as curvas não refletem necessariamente o tamanho real da pandemia em cada um dos lugares.

Como os dados usados nos gráficos dependem do grau de testagem em um lugar, eles mostram não só o andamento da pandemia, mas também os esforços do país para testar a população. Quanto menor for a testagem, maior vai ser a subnotificação. E quanto maior a subnotificação em um país, mais baixa vai ser a curva de casos confirmados em relação à curva real. A subnotificação, portanto, é uma variável implícita a todos os gráficos relativos ao novo coronavírus.

A testagem pode variar ao longo do tempo no mesmo país, levando a aumentos ou diminuições no número de novos casos reportados Em países onde a curva subiu muito rápido, isso pode ser um reflexo de testagem mais ampla. Foi o que aconteceu na Coreia do Sul, onde as ações de controle da pandemia foram consideradas exemplares e se basearam em um alto número de testes. No Japão, por outro lado, muito menos pessoas foram testadas no início da pandemia, o que ajudou a tornar a sua curva mais baixa que a da Coreia do Sul.

DIFERENÇAS DE TESTAGEM

Comparação das curvas de Brasil, Japão e Coreia do Sul. Coreia do Sul sobe rápido, mas Japão ultrapassa aos poucos

Escalas logarítmicas ou escalas lineares

Nas coberturas jornalísticas, estamos acostumados a ver o eixo vertical (“eixo y”) dos gráficos trazendo uma escala linear. É como se fosse uma régua de pé: a cada nova unidade adicionada, uma mesma distância correspondente é percorrida verticalmente no gráfico.

Quando o assunto é variação trimestral do PIB (Produto Interno Bruto), por exemplo, é normal vermos gráficos em que o eixo vertical vai de 0% a 5%, com cada ponto percentual sendo separado por uma margem equidistante. Já quando o tema é deficit do governo, é normal a escala ir de R$0 a R$ 200 bilhões, com linhas indicadoras a cada R$ 50 bilhões. Em cada um desses casos, andar uma mesma distância vertical dentro do gráfico sempre vai ter o mesmo significado.

Na pandemia do novo coronavírus, não é bem assim: é comum que a maioria dos gráficos esteja expresso em uma escala logarítmica. Isso significa que ao invés de somar uma unidade a cada determinado espaço, é feita uma operação de multiplicação. Com isso, pode ser que andar um pouco para cima tenha um significado em uma parte do gráfico, e um significado diferente em outra. Isso dificulta a comparação direta de aumentos de casos em diferentes áreas de um mesmo gráfico. Então por que essa escala é usada?

O uso de uma escala logarítmica (ou escala log) pode parecer contraintuitivo. Mas ele é feito porque capta visualmente as variações que o avanço da pandemia está sofrendo em cada país. O que importa na escala logarítmica é a evolução da inclinação da curva: se uma curva fica mais inclinada, isso significa que o contágio está ocorrendo de forma mais rápida; se a curva fica menos inclinada, isso significa que o contágio está perdendo ritmo. Na escala linear, explicada acima, essa visualização é muito mais difícil.

DIFERENTES ESCALAS

Gráficos em escalas logarítmicas e lineares. Duas escalas são diferentes e destacam informações diferentes. No Brasil, logarítmica está em formato de onda; a linear está em exponencial ascendente

Estágio da epidemia

Você deve se lembrar que os primeiros registros conhecidos da covid-19 foram feitos na China, ainda no final de 2019. Naquele momento inicial, era difícil prever a magnitude que a doença tomaria, a ponto de se tornar a maior crise global de saúde das últimas décadas. Mas nem por isso a China aparece antes dos outros países nos gráficos de evolução da curva de contágio pelo novo coronavírus.

A maioria dos veículos que cobre a pandemia começa o eixo horizontal (o “eixo x”) a partir do marco de um determinado número de casos diários confirmados. O jornal britânico Financial Times, por exemplo, começa a computar os países a partir do dia em que dez casos novos foram confirmados; o jornal brasileiro O Globo começa a contar a partir do dia em que o centésimo caso foi registrado; e o Nexo, na newsletter diária Boletim Coronavírus, começa a contar a partir do dia em que o 60° caso foi registrado em cada país. Os parâmetros escolhidos são arbitrários, mas fazem pouca diferença sobre a trajetória da curva que aparece no gráfico.

Ao visualizar as curvas dos países a partir de um mesmo ponto, a comparação das trajetórias fica mais fácil. No entanto, essa visualização pode esconder o fato de que os países foram atingidos pela pandemia em momentos diferentes. Os gráficos da pandemia não costumam mostrar quais países tiveram mais tempo para se preparar e reagir à chegada da covid-19.

DIFERENTES ESTÁGIOS

Comparação entre curvas que equiparam estágios os países e curvas que seguem ordem cronológica.. Principal diferença está na China, cuja curva começa muito antes das outras no caso cronológico

As médias móveis

Os gráficos da pandemia são geralmente curvas suaves, sem oscilações muito bruscas. Isso é fruto de um tratamento dado aos números, que é o das médias móveis dos últimos dias.

Se visualizássemos os números brutos divulgados diariamente pelo Ministério da Saúde do Brasil, veríamos que existem variações muito fortes nos casos diários, com uma tendência de queda acentuada nos finais de semana. Quando tiramos a média dos casos totais dos últimos sete dias, é possível ver com mais clareza o andamento da pandemia.

Essa média é feita através da soma dos casos dos últimos sete dias, dividida por sete, de modo a corrigir o efeito que o final de semana tem sobre a trajetória dos dados. O resultado é uma curva com menos vales e picos, que torna a visualização mais limpa, mas que não deixa de mostrar a tendência da trajetória de contágio.

O USO DAS MÉDIAS MÓVEIS

Números de Brasil, EUA e Espanha com e sem médias móveis. Curva das médias móveis é suavizada; curva bruta é cheia de oscilações bruscas

O ajuste pela população

É comum ouvir que os dados refletiriam melhor o avanço da pandemia se fossem ponderados pela tamanho da população. O próprio presidente Jair Bolsonaro chegou a sugerir a comparação de casos por milhão de habitante.

Mas isso não necessariamente ajuda a visualizar o ritmo de contágio em um determinado país. Isso porque o tamanho da população tende a não afetar muito a velocidade de disseminação do vírus. Em especial, quando a epidemia está em seus estágios iniciais – e, em junho de 2020, ainda estamos nos primeiros estágios –, o tamanho da população tem pouca influência.

Quanto mais habitantes um país tem, mais diluída estará a população imune. Isso significa que a maior parte das pessoas que tiverem contato com doentes estará suscetível a contrair o vírus.

Espera-se que, quando a epidemia estiver em estágios avançados e uma parcela maior da população estiver imunizada (supondo que o contágio imunize), faça sentido comparar os números por milhão ou a cada cem mil habitantes. Isso porque quanto maior a taxa de imunização, menor a chance de contato de pessoas que nunca contraíram o vírus com pessoas doentes. Assim menor será o ritmo de contágio.

Mas ainda estamos longe desse estágio. Neste momento, comparar os casos por milhão ou a cada cem mil habitantes tende apenas a destacar países com população pequena como lugares onde mais casos foram confirmados proporcionalmente.

AJUSTE PELA POPULAÇÃO

Gráficos comparando curvas ajustadas por população e não ajustadas. Formatos das curvas são os mesmos, o que muda acaba sendo a posição dos países

Colaborou Lucas Gomes com os gráficos

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