Como reduzir o impacto da pandemia em tempos de reabertura

Agentes comunitários e tecnologia são meios para indicar quem teve contato com caso confirmado de covid-19 e deve ficar em quarentena. Estados começam a reabrir a economia em meio à aceleração do contágio

Achatamento da curva de contaminação e capacidade hospitalar. Esses são os grandes eixos que orientam os planos estaduais e municipais de reabertura gradual da economia, bem como as recomendações federais de retomada.

A Organização Mundial da Saúde, mais rigorosa, afirma que a flexibilização do isolamento social exige também que o poder público se planeje para garantir uma infraestrutura de rastreamento e amparo de casos confirmados e suspeitos. Isto é, além da infraestrutura médico-hospitalar, é necessária também uma rede de assistência social que evite a reaceleração da curva de contágio.

Governadores do Brasil, no entanto, depois de mais de dois meses de isolamento social, começaram a alegar que o aumento do número de respiradores e de leitos de UTI já livra seus estados da necessidade das medidas de isolamento social, e consequentemente começam a reabrir o comércio.

Da parte do governo federal, que em meio à pandemia está sem um ministro titular na Saúde desde 15 de abril, a pressão pelo fim do isolamento social também só aumenta.

Pressão essa que acontece desde o início da epidemia no país. E que não se arrefece mesmo diante do fato de que o Brasil é atualmente o segundo país do mundo com maior número diário de mortes por covid-19, atrás apenas dos Estados Unidos. Em uma situação ainda distante de qualquer tipo de estabilização da emergência sanitária — frente à qual o governo federal mudou drasticamente a metodologia de divulgação dos dados da pandemia no país e omitiu outras informações cruciais nos canais oficiais —, o país sofreu no sábado (6) mais 904 mortes pelo novo coronavírus.

As reaberturas nos estados

Ainda que os critérios referentes à evolução do número de casos e às condições médico-hospitalares fossem suficientes, o cenário em diversos estados ainda não é favorável à reabertura.

Mesmo que haja leitos disponíveis, as curvas de contaminação de estados ainda não estão sequer achatadas isto é, não houve nem a estabilização do número diário de novos casos.

Estados Unidos, Reino Unido, Itália, França e Espanha, em média, esperaram 44 dias a partir do pico da curva de contaminação para flexibilizar as quarentenas, segundo o jornal O Estado de S. Paulo.

São Paulo, Rio Grande do Sul, Ceará e Rio de Janeiro são alguns dos estados que já anunciaram ou implementaram planos de reabertura gradual, com a volta do funcionamento das atividades não essenciais sujeita às curvas de contaminação ou estrutura hospitalar de regiões mapeadas pelo governo.

Outros governos estaduais e municipais também já autorizaram diversos estabelecimentos a voltar ao funcionamento, mas não divulgaram um planejamento de reabertura estruturada em etapas.

O que não está sendo levado em conta

Epidemiologistas afirmam que uma retomada sustentável das atividades econômicas depende da implementação das estratégias conhecidas como TTT (test, track and trace). Isto é: testar a população, monitorar os infectados e rastrear os contatos sociais que o infectado teve antes de ser diagnosticado.

Esse tipo de estratégia garantiria o isolamento social dos infectados e impediria que disseminação da doença voltasse a ganhar impulso. Com isso, novos períodos de isolamento social seriam menos necessários e, como consequência, a recuperação econômica seria mais rápida.

Seguindo a mesma lógica, o epidemiologista Thomas Frieden, que já comandou o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças, na sigla em inglês) dos Estados Unidos, tem divulgado a estratégia 'box it in'. A ideia é implementar quatro tipos de medidas que garantirão o "enquadramento do vírus", de forma que sua disseminação possa ser freada.

Enquadrando o vírus

esquema quadrangular: testagem em massa, isolamento de infectados, rastreamento de contatos, quarentena dos casos suspeitos

O Nexo explica abaixo cada uma dessas etapas e seu estágio de implementação no Brasil.

A testagem em massa

Quanto mais numerosos e precisos os diagnósticos, melhor será não apenas o processo de isolamento dos infectados, mas também o planejamento das políticas públicas sanitárias e socioeconômicas.

Para tanto, os testes são essenciais, uma vez que muitas pessoas assintomáticas também podem estar infectadas pelo novo coronavírus sem saberem.

Até 4 de abril, no início epidemia de covid-19 no Brasil, o país realizava 258 testes por milhão de habitantes. Durante semanas, a maioria dos laboratórios e hospitais só testou os casos mais graves da doença e profissionais da saúde.

Atualmente, essa taxa é quase 17 vezes maior. Mesmo assim, o Brasil permanece entre os países mais infectados como um dos que menos testou proporcionalmente sua população.

4.378

é o número de testes realizados no Brasil, por milhão de habitantes

76.418

é o número de testes por milhão de habitantes realizados na Rússia

Em abril, o governo federal prometeu 46,2 milhões de testes aos estados, sendo 34 milhões até o final de maio. Segundo dados do próprio ministério da Saúde, porém, apenas 10,6 milhões dos testes foram entregues, até 1º de junho.

A pasta, que já teve seu comando trocado duas vezes durante a pandemia e agora está sob administração interina, afirma que tem dificuldades para comprar os insumos e kits de testagem, em razão da baixa oferta e da alta demanda desses produtos.

Isolamento

Na maioria dos casos de covid-19, o paciente não precisa ser internado. Mas ele deve ter para onde ir se sua casa não lhe permitir ficar isolado dos outros moradores. O isolamento dos infectados também deve ser garantido em lugares que abrigam muitas pessoas, como prisões e abrigos.

No Reino Unido, estudos da University College London indicaram que a acomodação de grupos vulneráveis, como moradores de rua, em hotéis era significativamente mais barato do que a possível internação dessas pessoas em hospitais.

No Brasil, diferentes estados e municípios já se articularam para usarem alguns quartos de hotéis durante a pandemia. Na maioria dos casos, os hotéis são destinados à acomodação de profissionais da saúde que dividam casa com pessoas de grupo de risco, ou pacientes que precisem de monitoramento médico mas que não precisam ser internados.

Para moradores de rua, os centros de acolhimento das prefeituras ainda não dão conta de abrigarem com segurança toda essa população, apesar de alguns esforços para a construção de abrigos emergenciais. Apenas em São Paulo, estima-se que entre 24 mil e 30 mil pessoas não tenham um teto.

O Conselho Nacional de Direitos Humanos, vinculado ao Ministério dos Direitos Humanos do governo federal, demandou em março que o poder público promovesse o custeio de um "aluguel social" durante a emergência sanitária.

O projeto de lei para implementar a medida no nível federal, apresentado pelo PSOL no início de abril, ainda não foi para frente. Em alguns municípios, porém, houve ampliação de programas de auxílio moradia, para cobrirem mais casos durante a pandemia.

O rastreamento de contatos

O processo de encontrar pessoas que tiveram contato próximo com a pessoa infectada deve ser ágil e por isso exige infraestrutura e treinamento de agentes públicos. Como a infecção pelo novo coronavírus é frequentemente assintomática, especialmente no primeiros dias após o contato com o vírus, o rastreamento deve incluir a análise de encontros anteriores à aparição dos primeiros sinais da doença.

Nesse sentido, para o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) dos Estados Unidos, devem ser investigados os contatos do paciente a partir dos dois dias anteriores ao aparecimento dos sintomas. O órgão também define que o "contato próximo" se configura com a aproximação de um metro e meio ou menos de uma pessoa infectada.

15 min

é o tempo de permanência necessário para que a aproximação caracterize um "contato próximo" que tenha de ser monitorado, segundo o CDC americano

A dificuldade do monitoramento somada à quarentena de casos suspeitos aumenta conforme o tamanho da população e do território do país. Esse é um grande desafio logístico e financeiro para Brasil e Estados Unidos, por exemplo.

Ainda assim, "um programa não precisa identificar e isolar todos os contatos para diminuir a transmissão". É o que diz um artigo publicado pela consultoria McKinsey, que também afirma que "o custo para a sociedade de um completo lockdown [bloqueio total] é muito maior". A consultoria estima que US$ 3,6 bilhões seriam necessários para um programa eficaz de rastreamento de contatos nos Estados Unidos.

Há diferentes processos por meio dos quais governos podem fazer esse rastreamento.

Os métodos

RASTREAMENTO POR APP

Países como Itália, Canadá e Austrália usam ferramentas digitais para esse processo. Aplicativos desenvolvidos por Google-Apple e governos, com diferentes graus de proteção à identidade do usuário, usam o sinal de bluetooth de celulares para detectar os contatos sociais. Em alguns aplicativos, dados de geolocalização também ajudam nessa identificação. A rede dos contatos feitos é alertada se uma das pessoas informar ao aplicativo que contraiu o vírus.

RASTREAMENTO POR TELEFONE

Durante o lockdown indiano, agentes do sistema de saúde realizaram entrevistas via telefone para rastrearem e contatarem as pessoas que tiveram contato com infectados. No Reino Unido, 25 mil pessoas foram recrutadas pelo NHS (Serviço Nacional de Saúde, na sigla em inglês) para a tarefa. Os agentes reclamaram, no entanto, da falta de treinamento adequado e da dificuldade de acesso ao sistema de dados do governo.

RASTREAMENTO ANALÓGICO

Países em desenvolvimento que viveram recentemente surtos de doenças infecto-contagiosas, como tuberculose e febre tifóide, têm experiência em estratégias de rastreamento, bem-sucedidas mesmo com poucos recursos disponíveis. Na pandemia de covid-19, o governo da Libéria, por exemplo, replicou o modelo adotado para enfrentar a epidemia de ebola em 2014, recrutando pessoas da própria comunidade para obter confiança da população.

No Brasil, muitos governos municipais e estaduais têm usado dados de geolocalização dos celulares dos pacientes para identificar a taxa de adesão ao isolamento social. Os dados são transmitidos ao poder público de forma agregada, o que garante mais privacidade, mas não permite a identificação dos contatos sociais entre um usuário e outro.

Mas há planos para um rastreamento mais preciso. Em Florianópolis, por exemplo, onde a retomada do transporte público está marcada para 17 de junho, os moradores poderão se cadastrar em um sistema da prefeitura para receberem notificações. Entre outros casos, os alertas serão dados para os passageiros que estiverem no mesmo ônibus de um caso suspeito ou confirmado.

Quarentena

Conhecidas as pessoas que tiveram contato com o caso confirmado, elas devem ficar em isolamento por no mínimo duas semanas ou até serem testadas.

Durante esse período, os casos deverão ser monitorados pelo poder público. Isso ajuda a garantir que as pessoas sob suspeita de infecção tomem as precauções adequadas, e possibilita que a detecção de possíveis sintomas da covid-19 ocorra mais cedo, o que reduz as chances de agravamento da doença.

No Brasil, o Ministério da Saúde, ainda sob a gestão de Luiz Henrique Mandetta, implantou um serviço de entrevista por telefone, com o uso de gravações. O mecanismo era importante para antecipar o nome dos entrevistados, sua localização, se são grupo de risco e com quem convivem.

A previsão era de que 125 milhões de chamadas garantiriam uma boa eficácia do rastreamento. No entanto, a receptividade dos brasileiros a essas ligações foi caindo à medida que crescia a quantidade de golpes pelos quais criminosos se faziam passar pelos agentes públicos. Apenas ligações do 136 são do ministério.

Colaborou Lucas Gomes com o infográfico

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.