Antifascismo e antirracismo: os atos em meio à pandemia

Manifestações em pelo menos 13 capitais tiveram como mote pautas contrárias a Bolsonaro. Apoiadores do presidente também foram às ruas, mas em menor número

    O domingo (7) registrou atos em diversas capitais do Brasil, em sua maioria contra o presidente Jair Bolsonaro e contra o racismo. Houve aglomerações, desaconselhadas por autoridades sanitárias em meio à pandemia do novo coronavírus, que já infectou mais de 685 mil brasileiros e matou cerca de 37 mil pessoas no país.

    Bolsonaristas vêm fazendo desde março manifestações a favor do governo e contra o Supremo Tribunal Federal e o Congresso Nacional - inclusive com pedidos de golpe militar e com presença do presidente da República. A reação nas ruas dos opositores começou no fim de maio, com movimentos autointitulados antifascistas.

    No domingo de 31 de maio, bolsonaristas e antifascistas se encontraram na avenida Paulista, em São Paulo, e houve confusão, com uso de bombas de gás lacrimogêneo pela Polícia Militar.

    O temor para este domingo (7) era grande. Partidos de oposição (com exceção de PT e PSOL) e entidades como a Ordem dos Advogados do Brasil e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil divulgaram nota contra a realização de atos de rua, em razão do potencial de novo confronto e também da exposição dos manifestantes ao vírus.

    Os coordenadores dos manifestos pró-democracia lançados no final de maio também não se vincularam aos atos deste domingo (7). Bolsonaro, por sua vez, disse a apoiadores na porta do Palácio da Alvorada que não comparecessem a protestos, para evitar tumultos.

    Além de antifascistas e antibolsonaristas, profissionais da saúde também foram às ruas, para protestar contra a negligência do governo federal na pandemia. Bolsonaro relativiza a gravidade da covid-19, é um crítico do isolamento social e costumeiramente contrapõe vidas e a economia em seus discursos.

    O presidente demitiu dois ministros da Saúde ao longo da pandemia, promovendo um militar à chefia interina da pasta, sem conseguir articular a coordenação de combate à crise sanitária. A saída mais recente foi mudar drasticamente a metodologia de contabilização de casos e mortos pelo ministério, numa manobra que foi duramente criticada.

    O Nexo relata abaixo como foram as manifestações em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Pelo menos outras dez capitais também registraram atos.

    São Paulo: uma manifestação contra Bolsonaro

    Na capital paulista, o ato que teve como mote a defesa da democracia ocorreu no largo da Batata, na zona oeste, e não na avenida Paulista, como previsto no começo da semana. Tanto os organizadores quanto a Polícia Militar não divulgaram o número de manifestantes.

    Uma decisão judicial impediu que manifestações antagônicas ocorressem num mesmo local, para evitar que os manifestantes entrassem em confronto com bolsonaristas que tradicionalmente se reúnem na avenida.

    Neste domingo (7), o protesto foi convocado pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, movimentos negros, lideranças estudantis e torcidas organizadas antifascistas.

    Foi mais estruturado: havia um carro de som, foram montadas barracas para higienização dos manifestantes e sinais foram marcados no chão para evitar que as pessoas ficassem muito próximas umas das outras – distanciamento que, segundo relatos da imprensa, não funcionou.

    A defesa da democracia voltou a estar no centro da pauta da manifestação, com gritos de ordem contra Bolsonaro e o fascismo, em referência às ameaças recorrentes do presidente e de seu entorno de romper a ordem institucional. O antirracismo também foi mote dos protestos.

    O largo da Batata não foi o único local a receber manifestações contra o governo federal. Também na zona oeste da capital paulista, médicos ocuparam duas faixas da avenida Doutor Arnaldo para protestar contra o “desmonte na Saúde e a escalada autoritária”. Bairros nobres registraram panelaços e buzinaços, também ouvidos no Rio.

    Rio de Janeiro: o foco no combate ao racismo

    Assim como no dia 31 de maio, a principal pauta do maior ato registrado no Rio de Janeiro neste domingo (7), o “Vidas Negras Importam”, foi o antirracismo e a denúncia da violência policial. Não foram divulgadas estimativas do número de manifestantes.

    Durante a pandemia, operações policiais em comunidades na região metropolitana do Rio mataram três jovens: o adolescente João Pedro Mattos Pinto, 14, morto por um tiro de fuzil dentro de casa em uma operação em São Gonçalo; e Rodrigo Cerqueira, 19, e João Vitor Gomes da Rocha, 18, assassinados em meio a uma campanha de distribuição de alimentos no Morro da Providência e na Cidade de Deus, respectivamente. Os três eram negros.

    O número de mortes por policiais em abril foi o segundo maior em 20 anos. O governador Wilson Witzel (PSC), cuja política de segurança pública bate recordes de letalidade policial, anunciou a suspensão de operações em comunidades durante a crise sanitária, medida posteriormente reforçada por decisão do Supremo Tribunal Federal.

    A passeata deste domingo (7) ocorreu na avenida Presidente Vargas, no centro, e rememorou diversos símbolos da violência policial contra negros.

    Além dos jovens assassinados, foram homenageados a vereadora Marielle Franco (PSOL), morta em 2018, o músico Evaldo Rosa, morto por militares que metralharam seu carro com 80 tiros em 2019, a menina Agatha Freitas, atingida por uma bala vinda da arma de um policial quando estava dentro de uma perua também em 2019, e o americano George Floyd, cujo assassinato pela polícia americana desencadeou uma série de protestos ao redor do mundo.

    Brasília: o governismo confrontado pela oposição

    Palco de manifestações governistas que contam com a presença de Bolsonaro desde o início da pandemia, Brasília recebeu neste domingo (7) protestos contra o presidente.

    Assim como em São Paulo e no Rio, palavras de ordem e faixas contra o racismo e o fascismo deram o tom do ato ocorrido na Esplanada dos Ministérios.

    Profissionais da saúde também foram às ruas, mas não com um ato próprio. Eles se misturaram a antirracistas e antibolsonaristas para protestar contra a atuação do governo na crise sanitária.

    A Polícia Militar não permitiu que os manifestantes estendessem o trajeto até a Praça dos Três Poderes, onde ficam Palácio do Planalto, Congresso e Supremo, como tradicionalmente fazem os bolsonaristas.

    A persistência dos atos pró-Bolsonaro

    Em Brasília, o jornal Folha de S.Paulo contabilizou 68 simpatizantes de Bolsonaro na Praça dos Três Poderes neste domingo (7), se manifestando contra os demais Poderes e defendendo uma “intervenção cívico-militar”.

    O ministro Augusto Heleno, general da reserva que comanda o Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, compareceu ao local. Segundo ele, o objetivo era cumprimentar policiais que estavam ali.

    Em São Paulo, pouco mais de cem manifestantes compareceram à avenida Paulista para apoiar o presidente, defender a intervenção militar e atacar o governador João Doria (PSDB), um bolsonarista na eleição de 2018 que acabou virando opositor do governo.

    Doria é responsável por medidas de isolamento social que os bolsonaristas julgam serem abusivas, apesar de o governador estar flexibilizando a quarentena mesmo diante de um recorde de mortos no estado. Os apoiadores de Bolsonaro também aplaudiam e gritavam palavras de apoio aos policiais presentes.

    O Rio de Janeiro igualmente registrou um ato pró-Bolsonaro. Dezenas de manifestantes, em sua maioria de idosos, se reuniram em Copacabana, zona sul. Homens que se autodenominavam lutadores de artes marciais compareceram à aglomeração, segundo eles para proteger os bolsonaristas em caso de confronto com antifascistas.

    As ações das polícias militares

    Os atos pelo Brasil foram pacíficos no geral e não registraram distúrbios durante a maior parte do tempo. Mais marcadamente em São Paulo e no Rio, os manifestantes gritaram palavras de ordem contra a Polícia Militar. Nos atos de 31 de maio, a corporação foi acusada de ser leniente com apoiadores de Bolsonaro e dura com os protestos de opositores.

    A PM paulista usou mediadores para garantir o que havia sido previamente combinado com organizadores. No entanto, houve confronto entre policiais e manifestantes na hora de dispersar o ato, três horas depois que a organização encerrou as atividades.

    Segundo a PM e relatos da imprensa, um pequeno grupo planejava seguir à avenida Paulista, onde bolsonaristas se reuniram à tarde. A PM reprimiu o avanço do grupo com bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha. Pelo menos 17 pessoas foram detidas, algumas portando coquetéis molotov, madeiras e socos ingleses.

    No Rio, um princípio de confusão no final do ato antirracista resultou na detenção de 40 pessoas. Antes da manifestação, 30 pessoas foram detidas por supostamente apedrejarem os policiais, que responderam com bombas de efeito moral.

    Belém foi a cidade que registrou mais detenções: 112. A justificativa foi de que manifestantes desrespeitaram o decreto estadual que proíbe aglomerações com mais de dez pessoas para evitar a disseminação do novo coronavírus.

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