Qual o impacto dos atrasos nos dados diários da covid-19

Ministério da Saúde tem divulgado números cada vez mais tarde no dia. Demora se une a falta de testes e subnotificação, o que prejudica a formulação de estratégias para conter o avanço do coronavírus

    É do Ministério da Saúde a tarefa de divulgar, diariamente, os dados que mostram o avanço da covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus, no Brasil. São números como a quantidade de casos confirmados nas 24 horas anteriores, as mortes registradas e a sua distribuição pelo país, fornecidos pelos governos estaduais e compilados na pasta federal.

    Desde o início da pandemia, o ministério tem mudado a forma como faz esse trabalho. Na medida em que a doença avançou pelo país e o comando da pasta foi trocado duas vezes, passou-se a dar menos destaque aos números mais graves, e a divulgação das informações começou a sofrer atrasos. As mudanças se somam a um quadro já marcado pela subnotificação e pouca testagem. Especialistas em saúde pública temem um “apagão” de dados.

    Mudanças de estratégia

    Nas primeiras semanas após a identificação do vírus no Brasil, durante a gestão de Luiz Henrique Mandetta, os dados eram divulgados por volta das 17h. Em grande parte das vezes, eram acompanhados de uma entrevista coletiva com a imprensa, em que a equipe da pasta e de outros ministérios passava informações sobre a crise sanitária. Como a consolidação dos números acontecia no meio da tarde, muitas vezes apresentava defasagem em relação aos números de secretarias estaduais.

    Com a entrada de Nelson Teich no comando da pasta em 17 de abril, a divulgação passou a acontecer por volta das 19h. A apresentação de dados pela equipe ficou mais esporádica.

    Teich ficou menos de um mês no cargo e pediu demissão em 15 de maio. Quem assumiu de forma interina foi o número dois do ministério, o general Eduardo Pazuello. Apesar de enfrentar um agravamento da pandemia em território nacional, o Brasil ainda não tem um ministro titular para a pasta da Saúde.

    Desde então, a divulgação dos dados tem se tornado mais turva. Desde a penúltima semana de maio, o boletim que traz os números das mortes, casos confirmados e outras informações tem sido divulgado mais tarde, em horários que variam de 19h40 a 20h50. A disponibilização de números por município também tem acontecido de forma inconsistente.

    Na quarta-feira (3), o atraso bateu um recorde: três horas. Os dados, que só vieram por volta das 22h, também registraram um recorde de mortes desde o início da pandemia. Foram 1.349 óbitos em 24h, quase 100 a mais que o dia anterior, o que levou o total a mais de 32 mil.

    Quando o atraso já passava de uma hora, o governo afirmou que houve um “problema técnico”, sem detalhar o que teria ocorrido. O Nexo entrou em contato na quinta-feira (4) com o Ministério da Saúde em busca de um esclarecimento dos atrasos. A nota enviada como resposta se limitou a dizer que problemas técnicos — não descritos — foram a causa. Na quinta-feira (4), a divulgação voltou a atrasar.

    O processamento dos dados e a formulação do boletim são feitos a partir da coleta das informações de secretarias estaduais de Saúde e apresentam a soma de todas elas. O processo é simples, na visão do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta. “[É só] listar por ordem alfabética e somar”, afirmou ao UOL.

    Além dos atrasos, a pasta tem focado seus esforços de comunicação para destacar o número de recuperados pela doença em relação aos óbitos. São cerca de 238 mil, segundo dados de quarta-feira (3). Eles aparecem em maior destaque na plataforma de divulgação de dados do ministério. No texto diário com os dados publicado pela agência de notícias da pasta na terça-feira (2), o título destacou o número de casos recuperados, e a quantidade de mortos pela doença só apareceu no quinto parágrafo.

    O impacto dos atrasos no combate ao vírus

    Informações detalhadas sobre o estágio da pandemia no país são cruciais para formular estratégias para conter o avanço da doença. Sem dados, qualquer avaliação em relação à necessidade de infraestrutura ou ao fim da quarentena tem dificuldade para avançar.

    No cenário ideal, o teste massivo da população daria informações sólidas para a formulação de políticas públicas. Mas, no Brasil, dois fatores atrapalham: o baixo índice de testes, na contramão das recomendações da OMS (Organização Mundial da Saúde), e a subnotificação.

    Uma pesquisa financiada pelo Ministério da Saúde e realizada pela Universidade Federal de Pelotas estimou que, para cada caso confirmado de covid-19 no Brasil, há pelo menos sete outros que não entraram na contagem oficial.

    O cenário pode ser ainda pior, de acordo com estimativa feita pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo: para cada caso confirmado, cerca de 14 outros não apareceriam nos números oficiais.

    Onde já há baixa realização de testes e subnotificação, três horas podem ser cruciais para saber o que deve ser feito no dia seguinte. O risco é de um “apagão técnico”, segundo Bernadete Perez, vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva.

    “É uma situação complicada. O nosso risco agora é de um apagão técnico. E é isso que eu acho que está acontecendo”, afirmou Perez ao UOL.

    De acordo com ela, a associação já vinha discutindo a possibilidade do apagão desde que cargos técnicos foram esvaziados do Ministério da Saúde. Na quarta-feira (3), o general Eduardo Pazuello, militar sem experiência na área da saúde, foi nomeado ministro interino da Saúde pelo presidente Jair Bolsonaro. A nomeação apenas formalizou o cargo de Pazuello, que, na prática, já liderava a pasta desde a saída de Teich.

    Gostando ou não, confiando ou não, os dados do Ministério da Saúde são os oficiais do Brasil. O primeiro problema é ficar sem dado oficial. Isso tem um impacto na assistência, porque muda o planejamento e a tomada de decisão de gestores que estão monitorando esses dados. Então também causa um efeito cascata”, afirmou ao UOL Evaldo Stanislau, infectologista do Hospital das Clínicas, em São Paulo.

    O biólogo e divulgador científico Atila Iamarino, doutor em virologia pela Universidade de São Paulo, usou o Twitter para comentar os atrasos. “Se começarem a não publicar os números, já era. Perderemos o controle por completo”, escreveu.

    Na quarta-feira (3), com o atraso recorde, espalhou-se pela internet a hipótese de que a demora era uma forma de o governo federal “boicotar” os principais telejornais diários, em especial o Jornal Nacional, da Globo, que é veiculado às 20h30.

    Não há evidências concretas que sustentem a tese, mas Iamarino comentou a possibilidade. “Enquanto o atraso ‘só’ boicotar os jornais, menos mal. Horrível e antidemocrático, mas ainda funcional. Se não tivermos esse número atualizado, não é mais democracia”, disse.

    Iniciativas independentes, como o Brasil.io, têm feito coletas diretamente com os governos estaduais e divulgado bases de dados diariamente. O site G1 desenvolveu um mapa da doença nas cidades brasileiras também usando dados locais.

    Na quinta-feira (4), o Jornal Nacional disse que, por conta dos atrasos do Ministério da Saúde, passaria a usar os dados das secretarias estaduais compilados pelo G1.

    O lugar do Brasil na pandemia

    Na manhã de 4 de junho, o Brasil ocupava a segunda posição do ranking global que contabiliza o número de casos totais de infectados pelo novo coronavírus, ficando atrás apenas dos EUA, segundo dados divulgados pela OMS. Enquanto os números começam a desacelerar em outros países, eles crescem no Brasil. A organização considera atualmente a América do Sul o epicentro da pandemia no mundo e destaca o Brasil como país preocupante.

    O presidente Jair Bolsonaro é um dos poucos chefes de Estado no mundo que minimizam a gravidade da crise sanitária (já chamada por ele de “gripezinha”) e que trabalham contra as medidas de isolamento social adotadas por governadores e prefeitos. Seu incentivo a aglomerações de apoiadores aos fins de semana em Brasília é visto como uma maneira de desmobilizar as quarentenas e confundir a população.

    Uma das recomendações da OMS sempre foi testar em massa a população, o que poucos países do mundo conseguiram fazer. O Ministério da Saúde chegou a prometer 46,2 milhões de testes aos estados, mas só entregou até o fim de maio cerca de 10 milhões.

    O governo afirma que tem dificuldades de comprar os exames no exterior, devido à alta procura e concorrência com outros países. Muitos dos testes adquiridos também têm sua eficácia questionada. Países como Espanha e Reino Unido acabaram descartando testes rápidos chineses por eles não funcionarem direito.

    O Brasil é um dos países mais infectados que menos testaram proporcionalmente sua população. Dados compilados pelo site Worldometers mostram que o país realizou 4.378 testes para cada um milhão de habitantes. Países como Rússia (76.418), Itália (65.527), Estados Unidos (55.376) e França (21.216) testaram muito mais.

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