Quais os movimentos de Moro depois de deixar o governo

Ex-ministro de Bolsonaro diz não ter pretensões para eleições de 2022, mas se mantém na arena pública com críticas ao presidente e a movimentos de extrema direita. Procurador-Geral da República reativa apuração que pode atingir amigo de ex-juiz

    Sergio Moro deixou 22 anos de magistratura no fim de 2018, após se tornar símbolo de combate à corrupção como juiz da Lava Jato, para entrar na política como ministro da Justiça de Jair Bolsonaro. Após 15 meses no cargo, deixou o governo em 24 de abril de 2020 acusando o presidente de tentar interferir politicamente na Polícia Federal.

    As acusações se transformaram em um inquérito no Supremo, sob relatoria do ministro Celso de Mello. Desde então, Moro vem ditando o ritmo das investigações, ao divulgar mensagens trocadas com o Bolsonaro que sugerem uma tentativa do presidente de blindar aliados e ao indicar a existência de um vídeo de uma reunião no Planalto cuja divulgação virou um dos principais fatos políticos do ano.

    Enquanto o inquérito se desenrola na esfera jurídica, Moro tem buscado se organizar profissionalmente. O ex-juiz e ex-ministro está impedido de advogar por seis meses, a partir de uma decisão do Conselho de Ética Pública da Presidência da República, pelo fato de ter tido acesso a informações privilegiadas enquanto esteve no governo. Moro vai receber o salário de R$ 31 mil no período. Por ora, está autorizado a dar aulas e escrever artigos para a imprensa.

    Da chancela ao bolsonarismo à pecha de traidor

    Moro tem mantido tom crítico ao governo, especialmente à figura de Bolsonaro. Enquanto tenta se desvencilhar do bolsonarismo que chancelou e apoiou, é chamado de traidor por seguidores do presidente.

    Ele também não definiu se será candidato nas eleições de 2022. Em entrevista à revista Veja, disse que pretende “continuar realizando um trabalho técnico, agora no setor privado”. Afirmou também que não tem nenhuma pretensão eleitoral. “Não me filiei a partido algum. Nunca foi meu plano. Estou num nível de trabalho intenso desde 2014. Quero folga. E não quero pensar em política neste momento”, disse.

    Os embates com Bolsonaro sobre a pandemia

    Moro é defensor do isolamento social como medida de combate ao coronavírus, diferentemente de Bolsonaro, que é favor da normalização do comércio como forma de reativar economia, mesmo em meio ao aumento de casos de contaminação no Brasil.

    O assunto voltou à tona na segunda-feira (1º), quando o presidente criticou Moro por ter assinado uma portaria que autorizava o uso de força policial para obrigar indivíduos suspeitos de contaminação pelo coronavírus a ficar em isolamento ou quarentena. A portaria editada em março, também assinada pelo então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, foi revogada.

    Moro respondeu às críticas de Bolsonaro em uma nota publicada em sua conta no Twitter. No texto, ele disse que as prisões seriam utilizadas apenas em casos “excepcionais”, quando uma pessoa infectada, ciente de sua condição, resistisse ao isolamento e à quarentena, e que a alternativa estava amparada pelo artigo 268 do Código Penal.

    Na já famosa reunião ministerial do Planalto de abril cuja gravação foi tornada pública no fim de maio, Bolsonaro diz que gostaria de armar a população para que o povo não ficasse, segundo o presidente, refém de medidas restritivas impostas por governadores e prefeitos. “Um bosta de um prefeito faz um bosta de um decreto, algema, e deixa todo mundo dentro de casa. Se tivesse armado, ia pra rua”, disse Bolsonaro. “Eu quero o povo armado, que o povo armado jamais será escravizado, afirmou.

    Um dia após a reunião, em 23 de abril, uma portaria publicada pelos Ministérios da Defesa e Justiça, assinada por Moro, aumentou em quatro vezes a quantidade de munições que cidadãos com porte e posse de arma e agentes de segurança podem adquirir por mês.

    Segundo Moro, em sua nota publicada no Twitter em 1º de junho, as medidas apoiadas por Bolsonaro iriam promover uma “rebelião armada contra medidas sanitárias impostas por governadores e prefeitos”. Moro também questionou o fato de o presidente ter revogado três portarias do Exército em 17 de abril para rastreamento e identificação de armas de fogo no Brasil. A revogação pura e simples desses mecanismos de controle não é medida responsável, disse.

    Moro e os manifestos pró-democracia

    A Lava Jato trouxe a Moro uma imagem de combate à corrupção, mas seus métodos também foram bastante criticados. Estudiosos do direito, para além dos advogados de defesa dos acusados na operação, apontavam excessos e atropelamentos legais no modo com o ex-juiz julgava determinados casos.

    Mensagens reveladas em junho de 2019 pelo site The Intercept Brasil mostraram ainda que havia acertos prévios entre o então juiz e os procuradores da operação, algo que levantou suspeitas de conluio e direcionamento político que puseram em xeque a imparcialidade da Lava Jato.

    A ascensão de Bolsonaro ocorreu em meio à operação, que solapou os partidos tradicionais envolvidos em corrupção. Sustentando uma imagem de outsider da política, o deputado federal que defendia a ditadura militar e exaltava torturadores ganhou projeção, apoiado por uma elite econômica que apostava nas suas promessas de realizar um governo liberal na economia, a partir do endosso de Paulo Guedes.

    A adesão de Moro ao governo levantou ainda mais suspeitas sobre a Lava Jato. Nesse contexto, Moro tem ficado à margem dos movimentos pró-democracia, que começam a se espalhar em manifestos e campanhas digitais, num momento em que o governo Bolsonaro tem desafiado o Supremo e feito ameaças de ruptura da ordem institucional.

    Articuladores de movimentos como “Estamos Juntos” e “Basta!” ouvidos pelo jornal Folha de S.Paulo disseram que o ex-juiz e ex-ministro não seria aceito entre os apoiadores. Entrarão todos, menos os fascistas. Moro, fora. É o limite, disse o jornalista Juca Kfouri do “Estamos Juntos”. Natural que exista constrangimento com a adesão de algumas pessoas. Estas mesmas figuras são responsáveis diretas por parte importante das mazelas do país, afirmou o advogado Marco Aurélio Carvalho, do “Basta!”

    Moro, por sua vez, tem mostrado incômodo com as manifestações radicais bolsonaristas. Na madrugada de domingo (31), um grupo extremista que está acampado em Brasília realizou uma marcha em frente ao Supremo utilizando máscaras e tochas, numa estética parecida àquela utilizada por supremacistas brancos americanos.

    O grupo se autointitula “300 do Brasil”, mas na manifestação da Praça dos Três Poderes não havia nem 30 pessoas. No Twitter, Moro publicou as seguinte mensagem: “Tão loucos mas, ainda bem, tão poucos. O único inverno chegando é o das quatro estações”.

    A palestra cancelada na Argentina

    Rejeitado em movimentos pró-democracia, Moro também viu seu nome ser repudiado fora do país. O ex-juiz e ex-ministro teve uma palestra cancelada na faculdade de direito da Universidade de Buenos Aires, no fim de maio. Moro seria o principal orador de um evento virtual com debates sobre combate à corrupção, democracia e Estado de direito.

    Lideranças políticas de esquerda ou ligadas ao presidente Alberto Fernández e a vice, Cristina Kirchner, se manifestaram contrariamente às atividades. A pressão fez com que a universidade cancelasse o evento.

    Ao jornal La Nación, Moro afirmou que o cancelamento fez com que ele se lembrasse do “tempo em que se queimavam livros”. “Há muita incompreensão e uma má interpretação do que realmente significaram as investigações contra os esquemas de corrupção e práticas ilegais que realizamos na Lava Jato”, disse Moro ao jornal argentino.

    Sobre populismo e totalitarismo

    Em artigo publicado no jornal O Globo na quarta-feira (3), intitulado “Contra o populismo”, Moro tratou da importância da separação entre o público e privado, sem que as instituições de Estado sejam submetidas a vontade de algum governante. No texto, o ex-ministro afirma que “não é o caso de falar em totalitarismo ou mesmo em ditadura”, mas ressalta que o populismo, com lampejos autoritários, “está escancarado” no Brasil.

    Ao se referir aos militares, o ex-juiz e ex-ministro afirma que a presença deles no governo se dá em razão de “seus princípios e preparo técnico”. Moro aproveita para dizer que “não há espaço para ameaçar o país invocando falso apoio das Forças Armadas para aventuras”.

    O assunto ganhou força após o procurador-geral da República, Augusto Aras, afirmar em entrevista à TV Globo, na segunda-feira (1), “que um Poder que invade a competência de outro Poder pode ensejar uma intervenção das Forças Armadas”, em alusão ao artigo 142 da Constituição.

    A declaração causou reações porque, no momento, Bolsonaro está acuado por inquéritos no Supremo: além daquele que investiga sua eventual interferência na Polícia Federal, há a investigação que apura a existência de uma rede de fake news bolsonarista usada para atacar adversários. Além de dizer que não vai mais aceitar decisões judiciais que considera “absurdas”, Bolsonaro já chegou a sugerir que ministros do tribunal sejam enquadrados na Lei de Abuso de Autoridade.

    O procurador-geral e a delação anti-Moro

    No comando da Procuradoria-Geral da República desde setembro de 2019, Augusto Aras têm recebido críticas dos colegas de Ministério Público Federal por um suposto alinhamento a Bolsonaro. Aras foi escolhido para o cargo pelo presidente sem que as sugestões dos procuradores fossem levadas em conta.

    Nesta quarta-feira (3), o jornal O Globo revelou que Aras retomou as negociações para uma delação premiada do advogado Rodrigo Tacla Duran, que poderia afetar Moro. Duran é apontado como operador financeiro da Odebrecht em contas no exterior, mas teve sua delação recusada pelo Ministério Público Federal em 2016, por suspeita de omissão de atos ilícitos e ocultação de recursos.

    O advogado afirma ter pago US$ 5 milhões ao advogado Carlos Zucolotto em troca de obter condições favoráveis na negociação de sua delação com a Lava Jato. Zucolotto é amigo pessoal de Moro. Em 2018, o caso foi arquivado pelo então vice-procurador-geral da República Luciano Mariz Maia, porque não se provou a participação de Zucolloto nas negociações.

    Em nota, Moro se disse “indignado” com a decisão do procurador-geral. “Causa-me perplexidade e indignação que tal investigação, baseada em relato inverídico de suposto lavador profissional de dinheiro, e que já havia sido arquivada em 2018, tenha sido retomada e a ela dado seguimento pela atual gestão da Procuradoria-Geral da República logo após a minha saída do governo do presidente Jair Bolsonaro”, afirmou.

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