Os gestos que tentam substituir o contato físico. E os seus limites 

Cumprimentos e demonstrações de afeto passaram a excluir o toque durante a pandemia. Distanciamento necessário tem efeitos psicológicos e pode provocar mudança de costumes

    Ainda no início de fevereiro, um vídeo gravado na China viralizou nas redes sociais. Liu Haiyan, uma enfermeira que trabalhava em um hospital na província de Henan – vizinha a Wuhan, primeiro epicentro da pandemia do novo coronavírus – reencontra a filha de nove anos após dez dias sem vê-la pessoalmente.

    Ambas usam máscaras e guardam uma distância de vários metros entre si. A mãe acena e a menina começa a chorar, dizendo sentir falta dela. Ambas trocam então um “abraço no ar”: abrem os braços, como fossem se envolver, mas se mantêm separadas.

    Necessárias para conter a disseminação do vírus, as medidas de distanciamento social têm privado pessoas em todo o mundo do contato físico com seus entes queridos. Mesmo formas mais corriqueiras e menos íntimas de contato, como o milenar aperto de mão, estão suspensas por tempo indeterminado.

    Na circunstância da pandemia, a ausência de contato físico é um fator que agrava as condições psicológicas complexas a que as pessoas estão submetidas no período. É o que diz ao Nexo Alberto Filgueiras, professor do Instituto de Psicologia da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro).

    Filgueiras coordenou uma pesquisa realizada entre março e abril que indicou um aumento nos casos de depressão, estresse e ansiedade entre os brasileiros durante a quarentena. Segundo ele, a falta de contato físico pode piorar esses quadros.

    Para além dos efeitos imediatos, o medo do contágio e as restrições adotadas para preveni-lo também podem deixar marcas mais duradouras nos costumes. A pandemia de peste bubônica fez com que os franceses abandonassem por centenas de anos, a partir do século 14, a prática do beijo na bochecha. O rei Henrique 6º da Inglaterra chegou a proibir o cumprimento em 1439, na tentativa de combater a disseminação da doença.

    Por que precisamos de contato

    O contato físico faz parte do mecanismo usado pelos seres humanos para estabelecer relações e se comunicar. A sensação positiva e calorosa provocada por ele remonta à nossa natureza enquanto primatas, afirmou à BBC Robin Dunbar, professor emérito de psicologia evolucionista da Universidade de Oxford.

    Fisiologicamente, o contato é um dos responsáveis por estimular a produção de hormônios como a ocitocina, neurotransmissor que é um dos responsáveis pelas sensações de felicidade e alegria.

    Nesse momento específico, de isolamento social e privação de muitas das atividades que dão prazer às pessoas, a demanda por esses hormônios é maior do que o usual.

    Diferenças culturais

    O nível de contato físico envolvido em cumprimentos e interações cotidianas varia em diferentes partes do mundo, de acordo com a cultura. Há saudações tradicionais, como a reverência feita pelos japoneses, que são carregadas de significado e excluem o toque.

    Para os brasileiros em especial e latino-americanos em geral, porém, a aceitação da proximidade física interpessoal e do contato, mesmo em relação a desconhecidos, é maior se comparada a países como Japão, Canadá e outros, como mostra uma pesquisa publicada em 2017 e feita com a participação de pesquisadores de diversos países.

    De acordo com o professor da Uerj Alberto Filgueiras, esse traço cultural faz com que “de alguma maneira, nós estejamos mais sensíveis à falta do contato físico necessário para produzir ocitocina”, disse ao Nexo. “É como se tivéssemos um equilíbrio básico associado ao abraço, ao toque das mãos. A ausência desses aspectos, que são fundamentais para todo ser humano, pode gerar um desconforto ainda maior no caso dos brasileiros”.

    Como lidar com a falta de contato

    Em espaços como asilos, a solução encontrada para possibilitar o contato com familiares tem sido o uso de cortinas de plástico – elas contam com buracos através dos quais se pode colocar os braços para acariciar e abraçar. Parte do grupo de risco, os idosos são um dos grupos que mais tem sofrido com a solidão e a falta de contato do isolamento.

    O retorno ao contato físico seguro só deve acontecer se e quando uma vacina para o novo coronavírus for desenvolvida.

    Nesse cenário, que ainda está distante, há especialistas que imaginam uma rápida retomada de gestos como o aperto de mão – em parte porque os cumprimentos com pés e cotovelos que tentam substituí-lo são um pouco constrangedores. Outros preveem uma divisão das pessoas com quem convivemos entre um círculo mais próximo, em quem nos sentimos confortáveis para encostar, e os demais, com quem somos mais circunspectos.

    A transição provavelmente será difícil, cercada de apreensão e medo. Até lá, é possível investir em outras maneiras de se sentir conectado às pessoas e de garantir a produção dos hormônios que ajudam na manutenção da saúde mental e do bem-estar.

    Além de de exercícios físicos e uma alimentação saudável, o professor da Uerj Alberto Filgueiras destaca como essencial manter o contato social apesar do distanciamento físico, mesmo que virtualmente.

    Por sorte, segundo explica o professor emérito de psicologia evolucionista da Universidade de Oxford, Robin Dunbar, a evolução deu aos humanos outras formas além da presença física de se sentirem em contato com os demais, liberando endorfina, ocitocina, e outros “hormônios da felicidade”. Dar risada, cantar, contar histórias e participar de rituais são algumas delas – e é importante praticá-las ainda mais enquanto não se pode estar perto fisicamente.

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