Salles: entre as críticas de ambientalistas e o apoio ruralista

Declaração do ministro do Meio Ambiente sobre usar a pandemia como oportunidade para “passar a boiada” foi endossada por entidades empresariais em campanha publicitária. Após pressão, marcas se desvincularam da peça

    A fala em que o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, defende aproveitar a pandemia para afrouxar regras ambientais motivou uma guerra de campanhas contra e a favor.

    A declaração veio a público no vídeo da reunião ministerial do presidente Jair Bolsonaro de 22 de abril, que teve divulgação autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Celso de Mello em 22 de maio. Em sua participação, Salles propõe “ir passando a boiada e simplificando normas (...) de baciada”. Diante da repercussão, Salles disse que estava se referindo à necessidade de reduzir a burocracia.

    En 24 de maio, organizações ambientais publicaram um anúncio nos jornais Folha de S.Paulo e O Globo com a frase “Para o ministro do Meio Ambiente, mais de 20 mil mortos são uma oportunidade” e a hashtag #ForaSalles. Greenpeace, ClimaInfo, Observatório do Clima, World Wildlife Foundation, SOS Mata Atlântica e Instituto Socioambiental integram o grupo por trás da publicação.

    Em resposta, três dias depois, 90 entidades empresariais veicularam um anúncio com a chamada “No meio ambiente, a burocracia também devasta”. A argumentação se alinha a declarações de Jair Bolsonaro e Salles de que o Brasil tem regulamentação ambiental exagerada, o que segundo eles trava o desenvolvimento econômico.

    “Se tem uma coisa de que eu cansei, é desse povo que vive de parasita em cima de meio ambiente”, disse ao jornal Folha de S.Paulo o autor da ideia, José Carlos Martins, presidente da Cbic (Câmara Brasileira da Indústria da Construção). Entre as entidades que aderiram à peça estão a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), a CNI (Confederação Nacional da Indústria), Alshop (Associação Brasileira de Lojistas de Shopping) e o Secovi (Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis Residenciais e Comerciais de São Paulo).

    As entidades consultaram Salles antes da veiculação da peça. “Obviamente fiquei contente em saber que nós temos apoio, e esse apoio se deve ao reconhecimento de uma necessidade que é inegável, que é uma maior eficiência no Brasil”, afirmou o ministro à Folha.

    As reações das marcas

    Organizações ambientais reagiram ao anúncio das entidades setoriais com uma campanha nas redes sociais expondo empresas que integram os grupos empresariais. Com o slogan “A boiada de Salles tem essas marcas”, as peças apresentavam logotipos de marcas dos setores alimentício, de cosméticos e de turismo, entre outras que integravam associações signatárias do anúncio pró-Salles. Muitas delas, como Sadia, Boticário, Turma da Mônica e Pedigree, são bastante conhecidas do público.

    As ONGs também marcaram os perfis das empresas nas redes sociais, cobrando diretamente um posicionamento delas sobre a peça das entidades. Como várias são multinacionais, os perfis em inglês das companhias também foram abordados por clientes estrangeiros questionando a adesão ao material.

    Rapidamente, dezenas de marcas se manifestaram dizendo que não haviam sido consultadas sobre o anúncio em favor do ministro, e repudiaram seu conteúdo. Em suas mensagens, as marcas em geral afirmaram ter compromisso com a sustentabilidade e a preservação do meio ambiente.

    Foto: Reprodução
    Ao topo, cabeça de Salles com a frase "a boiada de Salles tem essas marcas". Abaixo, as logos de empresas como BRF, Sadia, Qualy, Batavo, Marfrig, Seara e Friboi
    Anúncio vincula marcas a apoio de associações empresariais ao ministro Ricardo Salles

    Em 27 de maio, a Abihpec (Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos) anunciou que iria abandonar o manifesto de apoio ao ministro do Meio Ambiente. Empresas que integram a entidade, como a Natura, L’Occitane e o Grupo Boticário, negaram ter apoiado a iniciativa. Segundo a associação, o conselho decidiu por unanimidade deixar de aderir à campanha.

    Outra entidade, a Adit Brasil (Associação para o Desenvolvimento Imobiliário e Turístico do Brasil), foi em caminho contrário. Reiterou apoio ao manifesto, afirmando que ele não prega o desmatamento nem a destruição da Amazônia. Por discordarem do posicionamento, a rede de resorts Beach Park e a cadeia de hotéis Bourbon se desligaram da Adit Brasil.

    O histórico de Salles com ruralistas

    “Vocês gostaram do ministro do Meio Ambiente agora, né? Com toda certeza”, afirmou em dezembro de 2018 o presidente eleito Jair Bolsonaro a um grupo de ruralistas e artistas sertanejos. Bolsonaro tomaria posse algumas semanas depois. Salles foi um dos últimos ministros anunciados por ele.

    Na mesma época, circulou um vídeo em que Salles aparece ao lado do conselheiro e diretor da Sociedade Rural Brasileira, deputado federal eleito Frederico D’Ávila (PSL-SP) e o então presidente da União Democrática Ruralista (UDR), atualmente secretário especial de Assuntos Fundiários do Ministério da Agricultura, Luiz Antônio Nabhan Garcia.

    Salles é advogado. Em 2006, fundou e presidiu o Movimento Endireita Brasil, criado para “chamar a atenção da sociedade para pautas como a redução da burocracia e o direito à propriedade privada”. O atual ministro foi secretário estadual do Meio Ambiente de São Paulo no governo de Geraldo Alckmin (PSDB), de quem foi também secretário particular entre 2013 e 2014.

    “Não há um país que vá para frente sem a defesa de algumas coisas. Hoje, por força daquele Código Florestal, do CAR [Cadastro Ambiental Rural], do PRA [Programa de Regularização Ambiental], está muito ruim o problema do campo. Então, segurança jurídica é importantíssima. Segundo: a defesa da propriedade privada. Essas invasões, essas coisas de MST, quilombola, índio ameaçando propriedade produtiva, isso é um grande atraso, e a gente precisa defender o produtor para ele poder trabalhar em paz. O produtor rural sempre foi cioso, consciente de seus deveres e é ameaçado todo dia em razão dessa falta de segurança jurídica e do excesso do Estado”, afirmou Salles em uma entrevista veiculada em seu canal do YouTube, em julho de 2018.

    Ação e condenação

    Em 2017, Salles se tornou réu em um processo por improbidade administrativa. Então secretário de Meio Ambiente do governo Alckmin, ele foi acusado pelo Ministério Público de fraudar processo do Plano de Manejo da Área de Proteção Ambiental da Várzea do Rio Tietê, em 2016, para beneficiar empresas mineradoras. Em dezembro de 2018, já escolhido para o ministério de Bolsonaro, foi condenado em primeira instância. Salles recorreu.

    Em agosto de 2019, o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) abriu uma investigação para averiguar suspeitas de que Salles teve enriquecimento ilícito entre 2012 e 2017. Ele teria aumentado seu patrimônio em R$ 7,4 milhões nesse período.

    Segundo notícia veiculada na sexta-feira (29), o MP-SP quebrou o sigilo de Salles e descobriu que ele realizou 54 transferências da conta de seu escritório de advocacia para sua conta pessoal, num total de R$ 2,75 milhões, entre 2014 e 2017. O MP paulista busca indícios de sonegação e lavagem de dinheiro. Salles afirmou que os rendimentos são honorários ganhos por meio de sua atividade como advogado, sem relação com o governo.

    Na quarta-feira (27), o Ministério Público Federal (MPF) solicitou abertura de inquérito contra Salles por possível crime de responsabilidade relacionado a suas declarações no vídeo da reunião ministerial. De acordo com o MPF, as imagens mostram “clara intenção de promover a desregulamentação do Direito Ambiental pátrio”, indo contra as atribuições de seu cargo.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: