Os efeitos mais graves da pandemia nas periferias, em 4 pontos

Estudo da Rede de Pesquisa Solidária entrevistou lideranças de comunidades vulneráveis sobre os principais impactos da crise

A pandemia do novo coronavírus atingiu de forma acentuada as comunidades e periferias de grandes cidades brasileiras. Os efeitos são múltiplos, e estão relacionados tanto às consequências econômicas da crise como aos impactos sanitários da doença.

Em cidades como São Paulo, bairros da periferia são os locais com mais mortes registradas pela covid-19. Com acesso mais limitado a serviços de saúde e condições mais precárias de moradia, comunidades e bairros mais pobres estão entre as áreas mais vulneráveis ao novo coronavírus. Foi só na segunda-feira (1°), quase três meses após o início da pandemia, que o governo federal anunciou as primeiras medidas concretas para essa população. As ações envolvem a criação de centros de referência para identificar casos de covid-19 em comunidades.

13,6 milhões

é o número de pessoas morando em comunidades no Brasil, segundo estimativa dos institutos Data Favela e Locomotiva

Nesse cenário, um estudo da Rede de Pesquisa Solidária, que une pesquisadores de várias universidades, levantou as principais consequências e dificuldades vividas por essas comunidades na pandemia. A pesquisa, publicada em 22 de maio, também levanta as expectativas da comunidade com relação à crise sanitária, e recomenda ações urgentes para evitar que quadros que já são críticos se agravem ainda mais.

O levantamento foi feito a partir de questionários com lideranças de comunidades, bairros, territórios e localidades de alta vulnerabilidade social em seis regiões metropolitanas brasileiras: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Brasília (Distrito Federal) e Manaus. Foi feito contato com 99 lideranças comunitárias, sendo que houve resposta de 72 delas. As entrevistas virtuais foram feitas entre 5 e 10 de maio de 2020.

A pesquisa capta, portanto, a percepção das lideranças sobre a pandemia em suas comunidades. Segundo o próprio estudo, essa visão é relevante para a identificação de problemas nessas áreas, uma vez que são pessoas que têm diálogo constante com a população e estão mobilizadas no dia a dia para atuar nas dificuldades enfrentadas.

Abaixo, o Nexo elenca quatro pontos levantados pelo estudo da Rede de Pesquisa Solidária sobre a urgência enfrentada nas comunidades e periferias brasileiras.

Trabalho e renda

A pandemia transformou um quadro que já era de crescimento lento em uma retração generalizada da atividade econômica. Essa queda – relacionada à menor circulação de pessoas e às dificuldades das empresas de manterem as portas abertas – se reflete em aumento do desemprego e redução dos rendimentos totais do trabalho. Segundo números do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), quase 5 milhões de pessoas perderam o emprego entre fevereiro e abril.

Esse movimento de depressão econômica aparece no estudo da Rede de Pesquisa Solidária. A percepção é que parcelas consideráveis da população das comunidades e periferias foi afetada por desemprego e falta de renda, o que leva a problemas como atraso de aluguéis e falta de recursos para comprar comida e bens de higiene pessoal.

As lideranças comunitárias mencionaram frequentemente que a situação tende a ser mais crítica entre os trabalhadores informais. De acordo com o IBGE, o Brasil tinha 38 milhões de trabalhadores na informalidade em 2019, o que inclui empregadas domésticas não registradas e trabalhadores por conta própria informais, como motoristas de aplicativos de transporte e ciclistas de aplicativos de entrega. Os informais foram os mais atingidos pela crise, representando cerca de três quartos dos postos de trabalho perdidos.

O quadro de desemprego e dificuldade de acesso a renda foi mencionado por mais de 60% das lideranças comunitárias ouvidas pela pesquisa da Rede de Pesquisa Solidária. A situação crítica leva muitas pessoas à desrespeitar orientações sanitárias em busca de dinheiro para sobreviver. O relato de uma liderança do Morro do Coroa, no Rio de Janeiro, mostra como esses dados se traduzem na vida da comunidade:

“Em relação às domésticas, diaristas, cuidadoras de idosos e babás, essas mulheres estão sofrendo com a queda da renda. No início, até que algumas patroas pagaram, mas poucas. Isso tem feito com que essas mulheres voltem a trabalhar, circulem pela cidade e interajam com muitas pessoas.”

Liderança comunitária do Morro do Coroa, no Rio de Janeiro

em relato para a Rede de Pesquisa Solidária

O auxílio emergencial

O auxílio emergencial, principal política de apoio do governo federal à população afetada economicamente pela crise, também foi citado pela pesquisa como uma fonte de problemas. Isso porque as pessoas que têm direito a receber o benefício – informais, microempreendedores individuais, trabalhadores autônomos e desempregados – nem sempre conseguem acesso ao dinheiro.

A pesquisa mostra que em 30% das comunidades foram relatadas dificuldades relacionadas ao cadastro, saque e recebimento do auxílio. O registro vai na mesma linha de outros problemas que circundam o programa desde o início de sua implementação. A política é marcada por atrasos e erros que vão desde problemas técnicos no aplicativo até filas enormes nas agências da Caixa Econômica Federal.

A insegurança alimentar

O quadro traçado pela pesquisa mostra que há fome em 68% das comunidades que responderam o questionário. Isso significa que, em cada 10 áreas pesquisadas, em quase 7 há relatos de pessoas que não têm o que comer.

A fome nas comunidades e periferias das grandes cidades brasileiras está intrinsecamente ligada ao momento econômico vivido pelo país. A percepção generalizada de que as famílias estão passando fome está fortemente relacionada às dificuldades financeiras vividas na pandemia. Mas, além disso, outro problema foi identificado pela pesquisa.

Mesmo quando há iniciativas de ajuda para doação e distribuição de alimentos, na forma de cestas básicas, as iniciativas tendem a ser insuficientes e desorganizadas. Isso porque há comunidades que não estão nos mapas de doações, e mesmo dentro das comunidades que são contempladas, há famílias que não conseguem acesso às cestas básicas. A desorganização e a escassez levam a filas e disputas por comida.

Desinformação e adesão às medidas de prevenção

A falta de emprego e renda impacta a capacidade da população de comunidades e periferias de acessar produtos de higiene pessoal e equipamentos de proteção como máscaras. As condições das moradias também impedem, por vezes, que se cumpram as orientações de autoridades sanitárias – o que está relacionado à falta de saneamento básico e à impossibilidade de cumprir rigorosamente o isolamento social em residências pequenas ocupadas por muitas pessoas.

Ainda assim, a pesquisa dá conta de que a não-adesão a medidas de prevenção está também relacionada a uma descrença sobre a gravidade da covid-19 e a rapidez do contágio. Isso aparece na circulação normal das pessoas em algumas comunidades, e em comércios que seguiram abertos mesmo com a quarentena.

A desinformação e a falta de acesso a informações corretas a respeito da doença foram mencionadas por uma a cada seis lideranças comunitárias.

Há três elementos que aparecem como centrais quando o assunto é acesso à informação. O primeiro é a dificuldade de entender o “perigo intangível” do coronavírus; o segundo é a disseminação de notícias falsas; e o terceiro é o desencontro do discurso de autoridades municipais, estaduais e federais, que mais desorienta do que ajuda a população.

Os impactos psicológicos

Os problemas relatados nas comunidades e periferias também aparecem no cuidado à saúde mental. Cerca de 15% das lideranças comunitárias ouvidas pela pesquisa demonstraram preocupação com os efeitos psicológicos da situação pandêmica na população.

Os relatos são de pânico e ansiedade, advindos muitas vezes de desespero com a situação econômica, e também do medo de morrer. Entre pessoas com comorbidades, como diabetes e hipertensão – que estudos preliminares apontam ser mais comuns entre pessoas menos escolarizadas –, há apreensão e desesperança.

A insegurança está relacionada tanto à doença e às dúvidas que ela coloca sobre a sobrevivência, como à incerteza sobre como a família obterá recursos para comprar comida no futuro próximo. A angústia com relação ao presente se estende, muitas vezes, ao futuro.

“Muitas pessoas, principalmente as mulheres, [nos] procuram para relatar medo de morrer, angústias, não quererem lutar mais pelos sonhos, fazer faculdade, casar. [...] A falta de expectativa de vida que a pandemia traz tem impactado o psicológico da comunidade. [...] [Também são frequentes] angústias das mulheres de presidiários, que já recebem cartas de despedidas de seus companheiros.”

Liderança comunitária do Morro do Coroa, no Rio de Janeiro

em relato para a Rede de Pesquisa Solidária

As preocupações e recomendações

Nesse quadro desenhado pelo estudo da Rede de Pesquisa Solidária, aparecem também preocupações das lideranças comunitárias com relação ao futuro próximo. Sobre o horizonte das semanas que viriam pela frente, as respostas dos questionários feitos no início de maio apontaram temor com uma expansão do contágio do novo coronavírus, em parte baseado em uma percepção de que haveria cada vez menos adesão às medidas preventivas. Outro aspecto que aparece é a dificuldade de acesso à saúde, que tende a aumentar conforme diminui a capacidade de atendimento dos postos de saúde e hospitais públicos.

Há também uma preocupação com o agravamento do quadro de fome, e com um possível crescimento de casos de violência. As lideranças relatam tanto o temor pelo aumento da violência doméstica, como de conflitos locais e furtos e saques.

Diante dos relatos das lideranças comunitárias e das preocupações levantadas para o futuro, o estudo da Rede de Pesquisa Solidária elenca dois pontos de ação urgente para atender às necessidades das comunidades e periferias das grandes cidades.

O primeiro é relativo ao combate à fome. O quadro relatado mostra que é urgente ampliar e coordenar esforços para levar alimentos à população mais vulnerável – o que não exclui outros esforços de proteção social.

O segundo ponto diz respeito à atuação do Estado. É apontada a necessidade de atuação do poder público para dar suporte social e psicológico à população das comunidades, para evitar que cresça o cenário de desesperança. Além disso, o estudo diz que é necessário que as autoridades de diferentes níveis – municipal, estadual e federal – encontrem coordenação para ajudar as comunidades e orientar de forma menos difusa sobre a prevenção ao novo coronavírus.

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