Como a polícia responde aos protestos antirracistas nos EUA

Cenas de brutalidade policial convivem com registros de união entre forças de ordem e manifestantes, enquanto Trump fala em colocar o Exército nas ruas

    Os protestos raciais que irromperam nos EUA no dia 25 de maio são majoritariamente pacíficos, mas os episódios de vandalismo e as cenas de brutalidade policial registradas ao longo da semana terminaram por fazer da violência o assunto político mais importante do país.

    As polícias estaduais e a Guarda Nacional têm sido filmadas em cenas de abuso do uso da força, que vão desde atropelamento de manifestantes com carros e cavalos, até disparos à queima roupa com balas de borracha, passando pela detenção arbitrária de jornalistas e por incidentes com mortos, que ainda estão sendo investigados.

    Muitos manifestantes têm relatado que policiais estão agindo como parte interessada nos protestos. Como as manifestações são contra a violência policial, muitos deles reagem como se as demandas fossem ofensas pessoais, e, assim, tentam simplesmente dispersar concentrações pacíficas e impedir que as marchas aconteçam, violando um direito constitucional.

    Ao mesmo tempo, grupos de policiais têm aderido voluntariamente aos protestos, segurando faixas durante as caminhadas ou até mesmo apoiando um dos joelhos no chão, num gesto celebrizado por atletas americanos na luta por igualdade racial no país.

    Em Fort Lauderdale, na Flórida, um policial foi repreendido em público por uma colega negra fardada, depois de ter avançado contra uma manifestantes que estava de joelhos.

    A multidão que presenciou a cena correu atrás do policial, atirando objetos como copos plásticos e garrafas d’água, enquanto o homem ouvia sua colega policial gritar, repreendendo-o pela atitude.

    A mistura da brutalidade com as cenas de busca por diálogo e entendimento são o retrato de um país no qual há enormes disparidades sociais, além de uma convivência racial classificada por 58% dos americanos como “ruim”, e onde 80% dos habitantes consideram que os negros ainda hoje são desfavorecidos na sociedade por uma herança da escravidão. Os dados são de uma pesquisa feita pelo Pew Research Center em 2019.

    A soma de três grandes crises

    A onda de manifestações – e os choques violentos que se sucederam a ela – ocorrem no ano em que os EUA passam por uma eleição presidencial, disputada entre o atual presidente, o republicano Donald Trump, e seu rival democrata, Joe Biden.

    O país também lida com uma pandemia de alcance inédito que, até terça-feira (2), havia deixado mais de 100 mil mortos pelo novo coronavírus, além de um rastro de destruição econômica sem paralelo desde a Grande Recessão de 2008.

    A confluência dessas três grandes crises – política, sanitária e econômica – explodiu no dia 25 de maio quando um homem negro de 46 anos foi morto por um policial branco diante das câmeras, na cidade de Minneapolis, no centro-oeste americano.

    O homem, chamado George Floyd, foi asfixiado até a morte por oito minutos. A cena, filmada por transeuntes circulou pelas redes sociais, e a última frase de Floyd, “eu não consigo respirar”, transformou-se num grito de guerra dos protestos que se espalharam pelo país.

    Quando o policial responsável pela morte de Floyd, Derek Chauvin, teve a prisão decretada, cinco dias após a ocorrência, em 30 de maio, os protestos já tinham se alastrado de tal forma pelo país que pelo menos 40 dos 50 estados americanos decretaram “estado de emergência”, muitos deles – incluindo a cosmopolita Nova York – com toque de recolher noturno.

    Na Quinta Avenida, icônico ponto novaiorquino, lojas de grife foram depredadas e saqueadas. Em Los Angeles, grupos de saqueadores, a pé ou em caravanas de carro, percorreram a região de Hollywood durante a noite. Em Louisville, no Kentucky, um comerciante morreu alvejado quando a polícia disparou na direção de manifestantes, e pelo menos um manifestante morreu com disparo de arma de fogo em Austin, no Texas.

    O sistema descentralizado de segurança pública nos EUA – em alguns sentidos, semelhante ao do Brasil – dificulta a contabilização do total de pessoas detidas, feridas e presas nos enfrentamentos. A imprensa local noticia inúmeros casos de pessoas feridas à bala e atropeladas deliberadamente por automóveis , em eventos que ainda estão sob investigação da Justiça.

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    policiais foram feridos por armas de fogo nos EUA durante os protestos raciais, até 1º de junho

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    estados pediram reforço de policiamento à Guarda Nacional americana

    Trump: de acuado a ofensivo

    Na noite de sexta-feira (29), o presidente Donald Trump chegou a ser levado pelo serviço secreto para um abrigo subterrâneo da Casa Branca, depois que manifestantes se concentraram diante da construção histórica que serve de residência e local de trabalho para o chefe do Executivo. No domingo (31), as luzes externas da Casa Branca foram apagadas para impedir que pessoas pulassem as grades e tentassem invadir o local.

    Nos arredores da Casa Branca, restaurantes, hotéis e lojas foram pichados. Carros foram virados e incendiados. Monumentos nacionais – alguns deles em memória dos veteranos da Segunda Guerra – foram vandalizados.

    Trump, que passou dois dias acuado, sem cumprir nenhum evento da agenda oficial, partiu para uma contraofensiva, apoiado na estratégia da ameaça de um uso ainda mais contundente da força.

    O primeiro pronunciamento público de Trump após a morte de Floyd em Minneapolis só ocorreu na segunda-feira (1º), uma semana após o início dos protestos. Em tom enérgico, o presidente americano se apresentou como “o presidente da lei e da ordem”. Ele disse que os governadores devem sufocar as manifestações violentas com um emprego “esmagador” das forças de segurança.

    O presidente americano também ameaçou empregar tropas das Forças Armadas para fazer frente ao que ele chamou de “anarquistas”, “criminosos” e “terroristas internos”, desatando um amplo debate acerca da legalidade da medida à luz da legislação americana.

    Enquanto Trump discursava, ressoava ao redor dos jardins da Casa Branca, nas imediações da histórica Praça Lafayette, o som das explosões das bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral. A polícia retirou os manifestantes à força do caminho que separa a Casa Branca da Igreja de São João, atacada na véspera. Trump fez um discurso no local, com um Bíblia na mão.

    A imprensa americana notou que Trump é o único presidente dos EUA que não havia frequentado a Igreja de São João desde a posse, e que ele tampouco costuma ir à missa. Seus opositores classificaram o gesto de hipócrita e chamaram atenção para o que consideram um gesto eleitoreiro de convocar as Forças Armadas contra manifestantes.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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