A revisão dos padrões de beleza. E as novas rotinas da pandemia

Mulheres enfrentam pressões maiores para corresponder a determinadas imposições sobre a aparência. Em casa, algumas têm se permitido abandoná-las e criar as próprias regras

    Em boa parte do país, salões de beleza estão fechados desde março em decorrência das quarentenas que tentam conter a pandemia de coronavírus – ainda que o presidente Jair Bolsonaro os tenha incluído na lista de serviços essenciais recentemente, em uma tentativa de forçar a retomada da atividade econômica.

    Com as recomendações de isolamento social, al��m disso, uma parcela da população tem passado a maior parte do tempo dentro de casa, sem comparecer presencialmente a compromissos sociais ou profissionais. Essa mudança na rotina vem permitindo deixar de lado certos códigos e obrigações relativos à aparência. Muitos estão priorizando roupas e sapatos confortáveis. Rituais de beleza antes imprescindíveis agora deixaram de fazer parte da rotina.

    Para as mulheres, alvo de uma pressão maior para seguir padrões de beleza, a experiência da quarentena pode ser especialmente libertadora.

    Sem ser vistas pelo mundo lá fora, muitas pararam de se depilar, se maquiar e de usar sutiã, e passaram a reavaliar o gasto de tempo e dinheiro com a manutenção dessa feminilidade tradicional.

    Essas mulheres também questionam, dada a atual circunstância, se cumprem esses rituais por escolha ou por imposição social. Para outras, a impossibilidade de acessar os serviços oferecidos pelos salões causa incômodo.

    “Se a feminilidade é uma performance, o que acontece quando ninguém está olhando?”, questiona um artigo publicado pelo jornal americano New York Times.

    No âmbito econômico, multinacionais do setor de cosméticos – sobretudo as voltadas para maquiagem – já apresentaram queda significativa nas vendas a partir das últimas semanas de março, como resultado da combinação de salões e lojas fechadas e de uma demanda menor pelos produtos com as pessoas em casa. No Brasil, projeções para a indústria de beleza apontam à mesma direção.

    Novos comportamentos

    Ao Nexo a influenciadora digital de beleza Julia Petit, criadora da marca de cosméticos Sallve, disse ter percebido uma mudança recente de atitude nesse quesito, que ela classifica como positiva.

    “Aquela coisa de famosos se mostrarem sem maquiagem se tornou normal na quarentena e todo mundo deu uma relaxada. Há muito mais gente de cara lavada, menos exigente com a própria aparência. Tem sido muito legal as pessoas se encontrarem com elas mesmas e se mostrarem para os outros desse jeito”, diz Petit.

    No caso das mulheres que tingem os cabelos brancos ou que são adeptas do alisamento, a quarentena pode ser um momento propício para passar pela transição capilar, processo em que mulheres de cabelo crespo e cacheado abandonam a química em favor do visual natural, ou para se acostumar com o grisalho, menos aceito nas mulheres do que nos homens.

    “A maior parte dos brasileiros está se dedicando a sobreviver física e emocionalmente. Então um monte de coisa que se faz, como pintar o cabelo, fazer a unha, depilar e maquiar não são prioridades de quase ninguém nesse momento. Acho que estamos num momento de repensar nossos valores e de cuidar das pessoas que a gente ama”, disse a antropóloga Mirian Goldenberg ao jornal O Globo.

    Faça você mesmo

    Há ainda quem mantenha, mesmo em casa, alguns hábitos de beleza que têm impacto positivo sobre seu bem-estar. Nas redes sociais, muitos brincam estar fazendo na quarentena o mesmo que no Natal: “se arrumando para ficar na sala”.

    Trata-se de uma tentativa de manter alguma normalidade, segundo Hannah McCann, professora da Universidade de Melbourne, na Austrália, especializada em temas como teoria feminista e cultura da beleza. “Manter seus rituais de beleza é uma forma de se sentir no controle”, disse McCann ao New York Times.

    “Eu brinco que a gente virou aquele desenho, o Wally, de pijama e moletom o tempo inteiro. Então é super compreensível que as pessoas tenham vontade de se arrumar. Tem um fundo lúdico em se vestir, passar um batom, colocar um sapato para ir de um quarto para o outro da casa. Num período como esse, as pessoas têm que fazer o que tiverem vontade, o que for preciso para diverti-las e deixá-las felizes”

    Julia Petit

    influenciadora digital de beleza e criadora da marca de cosméticos Sallve, em entrevista ao Nexo

    McCann também identificou, como tendências do momento atual, o aumento nas buscas por dicas caseiras de beleza e tutoriais para cortar o cabelo.

    Segundo a pesquisadora, as pessoas não só estão se aventurando com o “faça você mesmo” como vêm adotando um comportamento mais livre, encarando essas experimentações como uma brincadeira. Há muitos cabelos sendo pintados de cores vibrantes e franjas tortas sendo compartilhadas no Instagram em um tom de autodepreciação bem-humorada.

    Os padrões seguem vivos

    A tendência de abandonar as rígidas imposições ligadas à beleza ainda convive, no entanto, com a ansiedade e a autocobrança relativas à aparência que “deveríamos” estar exibindo ou que mostrávamos às pessoas antes da pandemia.

    Essa preocupação se manifesta nos pedidos de desculpas de muitas mulheres por aparecerem com o cabelo desarrumado ou de cara limpa em videochamadas, sobretudo em contextos profissionais, como aponta uma reportagem do site Vox.

    Além de estarem sobrecarregadas, tendo que encontrar maneiras de trabalhar com os filhos em casa, muitas mulheres se sentem mal por sua aparência nas reuniões virtuais com colegas de trabalho e clientes, e sentem necessidade de se justificar de uma maneira que não ocorre aos homens.

    Especialistas também veem muita ansiedade em torno de ganhar peso durante a quarentena, devido a um aumento do sedentarismo. Entre os americanos, há inclusive uma nova expressão para os quilos adquiridos durante a quarentena: são os “covid 15”, um trocadilho entre o nome da doença provocada pelo novo coronavírus e o ganho de peso.

    O efeito a longo prazo

    Como tudo que diz respeito ao futuro pós-pandemia, há bastante especulação sobre o legado do momento atual para as exigências relativas à aparência que pesam principalmente sobre as mulheres.

    Enquanto alguns especialistas acreditam que a pandemia pode ter um efeito mais duradouro, ajudando as pessoas a aceitarem sua aparência natural e seus corpos, outros preveem um retorno aos rituais e imposições de antes assim que as rotinas puderem ser retomadas.

    Ao New York Times, a psicóloga americana Caren Shapiro prevê que a saída da quarentena virá com um posicionamento agressivo da indústria de beleza, que buscará se recuperar “nos bombardeando com mensagens para minar a aceitação da nossa aparência”.

    A influenciadora e empresária Julia Petit também considera as duas vias possíveis. “Acho que todo mundo descobriu que dá pra gente ter uma vida muito mais simples, isso é evidente. Todo mundo percebeu que a gente pode usar muito menos roupas, menos produtos. Não sei se essa experiência da simplicidade, da aceitação e do ‘deixa pra lá’ vai durar de fato. Tenho uma dúvida cruel se vamos virar pessoas muito mais simples e desapegadas ou se vai haver quase que uma explosão de escapismo depois, de maximalismo, com super maquiagens, roupas e sapatos super rebuscados”, disse ao Nexo.

    Pessoalmente, ela afirma não se imaginar praticando esse escapismo, mas diz ser difícil prever. “Acho que o tempo que a gente teve pra conviver consigo mesmo nessa quarentena já deve ter ajudado bastante gente a se aceitar melhor. Estamos em uma época em que há uma preocupação tão grande com coisas mais graves que a esperança que eu tenho é que todos esses pequenos problemas de aceitação que a gente enfrenta no dia a dia fiquem muito pequenos para sempre. Isso sim é algo que eu gostaria: que os problemas de aceitação desaparecessem porque a gente passou por um problema muito grave, pelo qual a gente nunca tinha passado antes”.

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