Quais os questionamentos ao maior estudo realizado sobre a cloroquina

Carta assinada por 140 pesquisadores contesta metodologia e dados de levantamento com 96 mil pacientes de covid-19. Periódico faz correções, mas diz que elas não comprometem conclusões

    O maior estudo já feito a respeito dos efeitos da cloroquina e da sua derivada hidroxicloroquina em pacientes com covid-19 está sendo contestado por especialistas em alguns de seus aspectos. Amplamente divulgado pela imprensa, o levantamento publicado em 22 de maio analisou dados de 96 mil doentes de vários países.

    Do total, 14.888 pacientes haviam recebido algum tratamento com cloroquina ou hidroxicloroquina, sozinhas ou em combinação com outros remédios. Segundo o estudo, em todas as situações houve aumento no risco de morte e de arritmias cardíacas graves. A conclusão do trabalho foi de que a “segurança e benefícios” da cloroquina e sua derivada hidroxicloroquina tiveram “avaliação ruim” quando usadas no tratamento da covid-19.

    Encabeçado por Mandeep R. Mehra, do centro cardiovascular da Escola de Medicina de Harvard, a pesquisa foi publicada e revisada pela revista médica britânica The Lancet, referência mundial.

    Na sexta-feira (29), 140 médicos e pesquisadores de diversos países (nenhum brasileiro) enviaram uma carta à Lancet na qual pedem transparência com relação à metodologia, aos dados e ao processo de revisão do estudo. “Os autores [do estudo] não aderiram a práticas que são padrão nas comunidades de aprendizado de máquina e estatística. Não divulgaram seu código ou dados”, afirmaram os cientistas. Os pesquisadores solicitaram ainda que o trabalho fosse validado por um comitê independente apontado pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

    A publicação da pesquisa motivou a OMS a suspender estudos clínicos com a hidroxicloroquina. A França alterou a recomendação para uso de hidroxicloroquina no tratamento com covid-19 e interrompeu testes após a divulgação do estudo. Outros países europeus também vetaram o uso do remédio.

    Diversas pesquisas anteriores, realizadas com grupos menores de pacientes, já haviam apontado que o remédio não surtia efeito contra o novo coronavírus. Fabricada há mais de 80 anos, a cloroquina e sua derivada hidroxicloroquina são tradicionalmente receitadas a pacientes com malária, artrite reumatóide e lúpus.

    O presidente Jair Bolsonaro e seu colega americano Donald Trump defenderam o uso da cloroquina como tratamento para covid-19 ao longo da pandemia. No Brasil, o remédio passou a ser recomendado pelo Ministério da Saúde para doentes em todos os estágios da covid-19, em 20 de maio. A medida é uma orientação, e a decisão final de receitar é dos médicos, com autorização do paciente.

    No domingo (31), a Casa Branca comunicou que o governo americano mandou duas milhões de doses de hidroxicloroquina para o Brasil.

    O que os cientistas apontam

    A carta ao Lancet lista dez aspectos problemáticos da pesquisa. Abaixo estão alguns dos principais pontos:

    • Falta de informações a respeito dos hospitais que forneceram dados de pacientes usados no levantamento ou identificação dos países onde estão localizados. A base de dados pertence a uma empresa americana chamada Surgisphere, especializada em análise de dados de saúde, que negou acesso às informações solicitadas pelos pesquisadores, alegando questões contratuais com governos. O presidente da Surgisphere, cirurgião vascular Sapan Desai, é coautor do estudo.
    • Segundo os pesquisadores, dados sobre África contidos no estudo indicam que quase 25% de todos os casos de covid-19 e 40% de todas as mortes no continente ocorreram em hospitais associados ao Surgisphere, com sistemas eletrônicos sofisticados de coleta de dados e monitoramento de pacientes, o que segundo os pesquisadores não condiz com a realidade. “Tanto o número de casos e de mortes, e a coleta de dados em detalhes, parecem improváveis”, diz o texto da carta.
    • Dados relativos à Austrália não são compatíveis com relatórios das autoridades, e incluíam “mais mortes hospitalares do que haviam ocorrido em todo o país durante o período do estudo”. Também registravam muitos casos para apenas cinco hospitais. A Surgisphere explicou que, neste caso, houve um erro que classificou um hospital da Ásia como sendo australiano. Para os pesquisadores, isso indica a necessidade de revisão em todo o banco de dados.
    • Na visão dos cientistas, diversas características dos casos analisados (severidade da infecção, dose utilizada, efeitos temporais), chamados “fatores de confusão”, jargão da estatística para variáveis que podem levar a interpretações distorcidas, não foram considerados de forma adequada.

    Um dos signatários da carta, James Watson, cientista sênior do Centro de Pesquisa de Medicina Tropical Mahidol Oxford, teve seus questionamentos a respeito da análise estatística do estudo reproduzidos em um blog da universidade de Columbia, nos EUA.

    Segundo ele, o fato de o estudo registrar uma mortalidade de quase o dobro em pacientes que receberam cloroquina ou hidroxicloroquina em comparação aos que não receberam é algo inusitado. A proporção é muito maior do que a observada em estudos anteriores sobre o medicamento.

    Watson também chama a atenção para o fato de o estudo ter apenas quatro autores, “o que é estranho para um estudo global em 96 mil pacientes”. Segundo o cientista, estudos com esse perfil na medicina em geral são desenvolvidos em grupos colaborativos, e podem chegar a ter entre 50 e 100 autores.

    “Não estou acusando os autores/empresa de dados de qualquer coisa desonesta, mas como eles quase não dão detalhes sobre o estudo e ‘não podem compartilhar os dados’, é preciso analisar as coisas de uma perspectiva cética”, escreveu.

    O tempo levado pelos pesquisadores para a conclusão do trabalho também foi considerado atípico. Em pouco mais de cinco semanas, os autores analisaram dados de dezenas de milhares de pacientes, escreveram o artigo e passaram pela revisão por pares da revista Lancet.

    O que dizem os autores do estudo

    “As análises foram realizadas com cuidado e as interpretações fornecidas foram avaliadas intencionalmente. Estudamos um grupo muito específico de pacientes hospitalizados com covid-19 e declaramos claramente que os resultados de nossas análises não devem ser interpretados para aqueles que ainda não desenvolveram a doença ou para aqueles que não foram hospitalizados”, afirmou Sapan Desai, presidente da Surgisphere e coautor do estudo publicado na Lancet. Ele ressaltou que as limitações de um “estudo observacional” foram destacadas e reafirmou a conclusão de que o uso da cloroquina fora do contexto de testes clínicos não era recomendável.

    No sábado (30), a revista científica publicou duas correções ao estudo, mas afirmou que “não houve alterações nas conclusões do artigo”. Ao New York Times, uma representante da publicação disse que mais atualizações serão fornecidas conforme necessário. “O Lancet incentiva o debate científico e publicará as respostas ao estudo, juntamente com uma resposta dos autores, na revista no devido tempo”, afirmou.

    Um representante do doutor Mandeep R. Mehra, professor de Harvard que encabeçou o artigo, declarou que os autores da pesquisa pediram uma revisão acadêmica independente e uma auditoria do estudo.

    Método científico

    Pesquisas científicas são apresentadas ao mundo por meio de artigos em publicações científicas. Antes de serem publicadas, esses artigos são revisados por pares, etapa na qual especialistas naquela determinada área verificam a solidez do estudo, dos experimentos, da metodologia e das conclusões obtidas.

    No entanto, mesmo uma pesquisa revisada por pares continua aberta a discussões e contestações, em um processo completamente normal e esperado na esfera científica. Muita dela poderá ser provada simplesmente errada. A pesquisa revisada é “conhecimento provisório, talvez verdadeiro, talvez não”, definiu o estatístico da universidade de Columbia e analista de pesquisa Andrew Gelman, em um artigo sobre o estudo da Lancet.

    Um movimento chamado Ciência Aberta defende uma prática científica que disponibiliza informações em rede, pela internet, com o objetivo de que estas sejam acessíveis a toda a comunidade, incluindo universidades, instituições financiadoras e outros pesquisadores.

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