O que representa a bandeira ucraniana usada em atos no Brasil

Símbolo levado a protestos na avenida Paulista foi ressignificado desde o século 10. Uso mais recente envolve grupos nacionalistas e neonazistas

    Manifestantes que apoiam o presidente Jair Bolsonaro levaram à Avenida Paulista, em São Paulo, em pelo menos duas ocasiões – nos dias 25 e 31 de maio –, bandeiras que costumam ser usadas pela extrema direita e até por movimentos neonazistas da Ucrânia.

    De acordo com a Polícia Militar de São Paulo, foi a disputa por uma dessas bandeiras que desatou o confronto entre manifestantes contrários e favoráveis a Bolsonaro, no domingo (31), na Avenida Paulista.

    O coronel Álvaro Batista Camilo, secretário-executivo da Polícia Militar de São Paulo, disse à CNN Brasil que a confusão entre os dois grupos teve início quando um manifestante contrário a Bolsonaro tentou pegar uma dessas bandeiras ucranianas que estava com um manifestante favorável a Bolsonaro.

    Coronel Camilo diz que membros dos dois grupos se enfrentaram então, levando a PM a intervir, lançando bombas de gás lacrimogêneo na direção dos manifestantes que se opõem ao presidente.

    Um dos lados era formado principalmente por membros de torcidas organizadas dos quatro maiores clubes de futebol do estado de São Paulo: Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos, que se uniram sob gritos de “democracia” e contra o “fascismo”. De outro, estavam apoiadores de Bolsonaro, que costumam se reunir na Paulista aos domingos com camisas da seleção brasileira para demonstrar apoio ao presidente e para protestar contra a quarentena imposta pelo governador João Doria (PSDB) durante a pandemia.

    Os confrontos ocorreram no dia em que o Brasil totalizou mais de 29 mil mortes pela covid-19, com mais de 500 mil pessoas diagnosticadas com o vírus no país, cuja propagação ocorre justamente em ambientes de muita proximidade e aglomeração.

    O contexto dessas bandeiras no Brasil

    As bandeiras da extrema direita ucraniana têm sido exibidas na Avenida Paulista durante protestos que criticam a esquerda e o comunismo, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal, e que pedem a intervenção dos militares para manter Bolsonaro no poder.

    O primeiro registro em redes sociais a respeito da aparição dessas bandeiras foi identificado pelo Nexo numa postagem de 25 de maio. Nessa postagem, a bandeira vermelha e negra, com um tridente estilizado ao centro, aparece pendurada num carro de som, ao lado da bandeira do Brasil.

    No domingo (31), a bandeira voltou a aparecer – também em versão amarela e azul, que são as cores da Ucrânia – nas mãos de manifestantes bolsonaristas, e também penduradas às costas ou amarradas ao pescoço, como capas, em pessoas que caminhavam pela avenida.

    A aparição dessas bandeiras na avenida Paulista ocorre um mês depois de o deputado federal Daniel Silveira (PSL) ter postado a seguinte mensagem no Twitter: “Está na hora de ucranizar o Brasil! Quem sabe o que foi feito lá [na Ucrânia] entenderá”.

    O deputado é um dos que, em outubro de 2018, quebraram ao meio uma placa com o nome da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL), assassinada a tiros no Rio, junto com o motorista Anderson Gomes, sete meses antes. Neste domingo (31), ele postou um vídeo em suas redes dizendo esperar que algum manifestante contrário a Bolsonaro tome um tiro “no meio da caixa do peito”.

    No mesmo domingo (31) em que essas bandeiras foram ostentadas na avenida Paulista, um grupo de manifestantes autodenominados “300 Pelo Brasilmarchou na Praça dos Três Poderes, em Brasília, e fez uma vigília noturna, segurando tochas e usando máscaras, na frente do edifício-sede do Supremo.

    A indumentária e o ritual foram associados ao da Ku Klux Klan, grupo de extrema direita que prega o ódio racial nos EUA. À frente dos autodenominado 300 está uma ativista cujo apelido é Sara Winter. Foi ela quem disse, dias antes, que o acampamento desses militantes na Praça dos Três Poderes contava com a presença de militantes armados. Em seguida, a jovem foi alvo de mandados de busca e apreensão expedidos pelo ministro do Supremo, Alexandre de Moraes, no contexto do inquérito das fake news.

    Além do deputado Silveira ter pedido a “ucranização” do Brasil, Sara Winter também fez referência ao país europeu ao dizer que foi treinada por lá. Antes de unir-se ao movimento bolsonarista, ela militou no grupo feminista Femen, cuja matriz é em Kiev, capital da Ucrânia.

    O contexto dessas bandeiras na Ucrânia

    Entre os que ostentam essas bandeiras no país europeu, há desde simpatizantes do nazismo, abertamente alinhados a Adolf Hitler, até cidadãos que veem na flâmula apenas uma forma de realçar uma identidade nacional ucraniana em oposição à submissão do país a uma potência estrangeira – seja uma submissão em relação à União Soviética, da qual a Ucrânia foi uma das repúblicas até 1992, seja em relação à Rússia atual, da qual a Ucrânia se afastou politicamente em 2014.

    Esse uso do símbolo, como um sinal de oposição ao comunismo e à esquerda, à União Soviética e à Rússia, parece aproximar a extrema direita brasileira ao contexto ucraniano. O próprio Bolsonaro fez do combate ao que ele vê como “comunismo” uma bandeira permanente no Brasil, tentando conectar sua agenda local à agenda internacional contra a esquerda.

    À CNN Brasil, o embaixador da Ucrânia no Brasil, Rostyslav Tronenko, disse que essas bandeiras não são fascistas nem nazistas. Segundo ele, trata-se de uma “bandeira histórica que significa a terra fértil da Ucrânia, com a faixa negra, e [a vermelha] o sangue que ucranianos durante séculos derramaram na luta pela soberania, liberdade e independência”.

    O tridente, colocado ao centro, é, de acordo com ele, “símbolo do príncipe Vladimir, do século 10, que trouxe o cristianismo à Ucrânia, e esse tridente significa a Santíssima Trindade"

    A despeito da explicação sobre as origens, as bandeiras bicolores em questão remetem a camadas de simbologias e de mensagens que se acumulam desde o século 10, mas que foram ressignificadas durante a história do país. Serviram tanto para representar movimentos nazistas locais quanto grupos de jovens estudantes que protestaram contra o governo do presidente Viktor Yanukovych, mais recentemente, em 2014.

    Nas batalhas campais ocorridas há seis anos no centro de Kiev, torcidas organizadas do Dínamo de Kiev, por exemplo, usavam essa bandeira. Essas torcidas, compostas muitas vezes por jovens da extrema direita nacionalista e até por neonazistas, se uniram aos estudantes ucranianos que protestavam contra o governo de Yanukovych em 2014, na simbólica Praça Euromaidan, no centro da capital.

    Yanukovych era próximo do presidente da Rússia, Vladimir Putin, que tentava então manter a Ucrânia sob sua esfera de influência de Moscou, a exemplo do que acontecia com todas as as ex-repúblicas soviéticas da região. Contudo, a juventude ucraniana de então rechaçou essa aproximação entre Yanukovych e Putin, e decidiu lutar pela queda do governo pró-Rússia e pela instauração de um governo mais próximo da União Europeia, percebida como mais moderna e cosmopolita.

    Essas manifestações se degeneraram em batalhas campais que duraram meses na Praça Euromaidan. Contra o governo Yanukovych, formou-se um amálgama de forças diversas, compostas tanto por jovens estudantes democratas quanto por neonazistas vinculados ao rechaço histórico ao domínio comunista do país.

    Terminada a crise, parte desse movimento derivou na criação de partidos locais de extrema direita, hoje representados no Parlamento ucraniano, como o Pravyi Sektor, enquanto uma outra parte derivou em seguida na formação de grupos armados.

    Um desses grupos armados foi o Batalhão Azov, que se engajou em combates contra mercenários russos na disputa pela Crimeia, península ucraniana que acabou anexada por Moscou em 2014. O Batalhão Azov é hoje parte das Forças Armadas ucranianas e está presente ativamente na disputa em curso pela região do Donbass.

    ‘Radicais brasileiros querem mais espaço’

    Ao Nexo, o professor de história contemporânea da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora) Odilon Caldeira Neto, que estuda neonazismo e fascismo e é membro do Observatório da Extrema Direita, diz que o apelo à “ucranização” tem dois sentidos.

    O primeiro deles é a inspiração de ruptura com o sistema político tradicional, como ocorreu na Ucrânia em 2014, quando políticos chegaram a ser arremessados pela massa dentro de latas de lixo em praça pública. Segundo, ele vê nessa inspiração ucraniana a oportunidade de criar um espaço de participação para os grupos mais radicais à extrema direita, que na Ucrânia chegaram a ser incorporados pelo Estado, como ocorreu com o Batalhão Azov.

    “O bolsonarismo tem muitas tendências internas em disputa. Esse setor radical tenta criar seu espaço, se legitimar e se impôr, e para isso busca na Ucrânia algo que possa parecer a um modelo de ação, uma referência para os que buscam uma radicalização nazifascista”, disse Caldeira Neto.

    Perguntado sobre a viabilidade de algo assim ocorrer na prática, o professor respondeu dizendo que é difícil prever o futuro, mas que “ninguém diria, em 2017, 2018, que Bolsonaro, então com baixas intenções de voto, viria a se transformar no que ele hoje se transformou”.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto informava que a Ucrânia foi um Estado satélite da URSS. Na verdade, o país foi uma das repúblicas da União Soviética. A correção foi feita às 12h50 do dia 1º de junho de 2020.

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