A escalada de protestos nos EUA. E a reação de Trump

Manifestações contra o racismo e a violência policial completam seis dias seguidos. Casa Branca apaga as luzes enquanto presidente se abriga no subterrâneo e cancela eventos oficiais

    Na sexta noite seguida de protestos contra o racismo e a violência policial nos EUA, a Casa Branca apagou as luzes, ficando às escuras no domingo (31), enquanto manifestantes aglomeravam-se diante do edifício histórico, que é ao mesmo tempo sede do Executivo e residência oficial do presidente americano, Donald Trump.

    O blecaute foi provocado pelos próprios agentes responsáveis pela segurança no local, provavelmente como forma de dificultar tentativas de invasão e oferecer uma vantagem tática às forças internas, que dispõem de óculos de visão noturna.

    Na sexta-feira (29), quando manifestantes ameaçaram ultrapassar as barreiras de segurança pela primeira vez, Trump foi levado para um abrigo subterrâneo existente na construção. O local é usado quando um risco iminente de ataque terrorista contra o presidente é detectado.

    Nos arredores da Casa Branca, em Washington, hotéis, bares, restaurantes e lojas tiveram vitrines quebradas e muros pichados com palavras de ordem contra o governo, os bancos e principalmente a polícia. Carros foram virados e incendiados, enquanto a polícia respondia usando balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo.

    Além da capital dos EUA, dezenas de outras cidades americanas foram palco de protestos contra o racismo e a violência policial. Esses protestos são, na maioria das vezes, marchas pacíficas. Porém, em muitos contextos, ocorrem saques, depredações e incêndios, que são acompanhados pela repressão policial.

    O estopim dos protestos

    A onda mais recente de manifestações raciais nos EUA teve início depois que um policial branco matou um homem negro em Minneapolis, no estado de Minnesota, no centro-oeste americano.

    O homem, George Floyd, de 46 anos, foi asfixiado até a morte pelo policial Derek Chauvin numa abordagem ocorrida na segunda-feira (25). Transeuntes filmaram a cena e postaram o vídeo nas redes sociais.

    No vídeo, Chauvin imobiliza Floyd no chão, ao lado de uma viatura. O policial coloca todo o peso do corpo em seu joelho, que aparece apoiado contra o pescoço de Floyd. Rendido, sem esboçar reação, e com as mãos para atrás, o homem imobilizado avisa o policial que já não consegue respirar. A situação se mantém inalterada por oito minutos, até que Floyd é levado inconsciente por uma ambulância e, em seguida, é dado como morto.

    Chauvin, o policial que matou Floyd, teve sua prisão decretada no dia 30 de maio, cinco dias depois da morte de Floyd, e depois de os promotores estaduais responsáveis pelo caso terem relutado em apresentar a denúncia, o que insuflou ainda mais as manifestações em Minneapolis até o final de semana.

    A frase “por favor, não consigo respirar”, dita por Floyd e ignorada pelos policiais, tem aparecido em pichações de muros e em cartazes em manifestações por todo o país desde então. Ela remete também ao caso de Eric Garner, outro homem negro que morreu em 2014 em circunstâncias parecidas. Também há um vídeo do momento da sua morte em que ele diz à polícia, em vão, que não consegue respirar.

    Os atos pelo país

    Em meio aos protestos que se espalham pelo país, muitas abordagens excessivamente violentas da polícia têm sido registradas por celular. Postadas nas redes sociais, elas aumentam ainda mais a revolta dos americanos – especialmente dos jovens e dos membros da comunidade negra –, retroalimentando as marchas que atingem uma proporção histórica no país.

    Prefeitos de 40 cidades já decretaram toque de recolher, numa tentativa de retirar as pessoas das ruas no período da noite. Governadores de pelo menos 20 dos 50 estados americanos pediram reforço à Guarda Nacional, que funciona como uma espécie de força de reserva das polícias em casos de grandes distúrbios e calamidades.

    Em Louisville, no Kentucky, sete pessoas foram feridas à bala na quinta-feira (28) durante as manifestações. Neste domingo (31), houve novo registro de confronto com arma de fogo, e uma pessoa morreu. Um policial foi ferido por arma de fogo em Venice, Los Angeles. Na mesma cidade, um homem avançou com um carro contra uma multidão, atropelando duas pessoas. Atropelamento semelhante foi protagonizado por viaturas da polícia de Nova York.

    Reações diversas

    Trump – que tentará a reeleição em novembro contra o democrata Joe Biden – endureceu com os manifestantes. Ele ameaçou classificar como “organização terrorista” as organizações antifa (antifascistas) e prometeu ordenar o uso de munição real contra pessoas envolvidas em saques e destruição.

    Os protestos acentuaram a divisão entre uma América branca que, sobretudo no meio-oeste, é mais afeita a Trump, e uma América negra que majoritariamente o rejeita. A linha de cisão deve se acentuar com a escalada dos protestos até a chegada da eleição, com a comunidade negra e latina tendendo a apoiar o democrata Biden.

    Apesar da sobreposição da pauta racial e política, em algumas cidades, lados teoricamente opostos têm protagonizado momentos de união. Alguns policiais unem-se à linha de frente de manifestações pacíficas, demonstrando apoio à causa. Em outros casos, circulam imagens de policiais se ajoelhando no chão em respeito às vítimas, rechaçando a confrontação.

    Familiares de Floyd – homem negro cuja morte, em Minneapolis foi o epicentro dos protestos – têm se manifestado publicamente contra os saques e destruição, dizendo que o próprio Floyd era um pacifista e não aceitaria esse comportamento.

    58%

    dos americanos classificam como “ruins” as relações raciais no país, segundo pesquisa do Pew Research Center, de 2019

    56%

    acham que o presidente Donald Trump tornou as relações raciais ainda piores

    80%

    dos americanos consideram que a herança da escravidão prejudica os negros ainda hoje nos EUA

    Presidente acuado

    A média das dez principais pesquisas de opinião feitas nos EUA entre os dias 13 e 31 de maio mostram que a maioria dos americanos (53,8%) desaprovam a gestão de Trump na presidência. Apenas 44,3% têm uma avaliação positiva do seu governo.

    Ao mesmo tempo, a média das oito principais pesquisas de opinião feitas entre 13 e 28 de maio nos EUA dão a maioria das intenções de votos para Joe Biden (48,4%), com Trump atrás (42,5%).

    O presidente americano tem passado uma imagem de líder acuado. Há dois dias ele não mantém eventos públicos em sua agenda oficial. O palácio apagado diante dos manifestantes passou uma imagem de fraqueza, e o uso do esconderijo, uma mensagem de desconexão, na avaliação do jornal americano The New York Times.

    A reação raivosa de Trump aparece circunscrita ao Twitter, com mensagens dirigidas contra Biden e contra governadores democratas em geral.

    Enquanto isso, o país lidera a lista de países afetados pela covid-19. Até segunda-feira (1º) eram mais de 1,7 milhão de pessoas diagnosticadas com a doença e mais de 104 mil mortos nos EUA.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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