O manifesto que une esquerda e direita pela democracia

Movimento ‘Estamos Juntos’ conta com FHC, Huck, Haddad, Dino e Freixo, além de artistas, empresários e intelectuais. Sem citar Bolsonaro, o texto fala em ‘resgatar a identidade da nação’

    Um manifesto publicado em página inteira nos jornais de sábado (30) convoca representantes políticos a exercerem “com afinco e dignidade seu papel diante da devastadora crise sanitária, política e econômica que atravessa o país”. “Somos muitos, estamos juntos, e formamos uma frente ampla e diversa, suprapartidária, que valoriza a política e trabalha para que a sociedade responda de maneira mais madura, consciente e eficaz aos crimes e desmandos de qualquer governo”, diz o texto.

    O anúncio é de autoria de um movimento autointitulado “Estamos Juntos” e une políticos dos mais diversos espectros ideológicos, com apoio, por exemplo, do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), do ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT), do governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), do deputado federal Marcelo Freixo (PSOL) e do apresentador de TV Luciano Huck, que dá seus primeiros passos no mundo da política.

    Entre artistas, o manifesto vai de Caetano Veloso a Lobão. Tem ainda figuras como o youtuber Felipe Neto, o produtor Kondzilla, o escritor Paulo Coelho, entre centenas de outras pessoas. “Somos cidadãs, cidadãos, empresas, organizações e instituições brasileiras e fazemos parte da maioria que defende a vida, a liberdade e a democracia”, afirma o manifesto.

    “Somos a maioria de brasileiras e brasileiros que apoia a independência dos Poderes da República e clamamos que lideranças partidárias, prefeitos, governadores, vereadores, deputados, senadores, procuradores e juízes assumam a responsabilidade de unir a pátria e resgatar nossa identidade como nação”, diz o texto.

    O nome de Jair Bolsonaro não é citado, mas a iniciativa ocorre num momento de crise entre Poderes no Brasil, com ameaças de ruptura institucional feitas por integrantes do governo e pelo próprio presidente da República. Bolsonaro tem atacado o Supremo e já disse que não vai mais obedecer a ordens que considera “absurdas”. O governo está acuado diante de inquéritos no tribunal que têm como alvo, por exemplo, uma rede de fake news bolsonarista e as suspeitas de interferência presidencial na Polícia Federal.

    Bolsonaro também é criticado por minimizar a pandemia do novo coronavírus. Já chamou a covid-19, doença causada pelo vírus, de “gripezinha”. O presidente é contra as medidas de isolamento social adotadas por parte de governadores e prefeitos. Contraria, assim, a comunidade científica mundial. Ele defende o armamento da população como forma de garantir o que ele chama, neste momento, de liberdade de ir e vir.

    Segundo dados oficiais divulgados no sábado (30), Brasil passou a ser o quarto país com o maior número de mortes pelo novo coronavírus, atrás apenas de EUA, Reino Unido e Itália. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde) a América do Sul se tornou o novo epicentro mundial da pandemia.

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    era o número de mortes por covid-19 registradas no Brasil até 30 de maio

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    era o número de casos confirmados de covid-19 no Brasil até 30 de maio

    À rádio CBN, a presidente da Associação Brasileira de Autores Roteiristas, Carolina Kotscho, uma das pessoas que redigiram o manifesto, disse que a iniciativa é uma reação ao “desespero” do momento.

    Ao jornal Folha de S.Paulo, o escritor Antonio Prata, outro articulador do manifesto, falou sobre o lugar em que se encontra o “Estamos Juntos”. “A gente não está entre o bolsonarismo e o comunismo, estamos entre o bolsonarismo e a civilização”, disse. “Tem todo mundo do chamado fla-flu de antes desse fla-flu de hoje, de quando a disputa política ainda era entre PT e PSDB”, afirmou.

    “Como aconteceu no movimento Diretas Já, é hora de deixar de lado velhas disputas em busca do bem comum. Esquerda, centro e direita unidos para defender a lei, a ordem, a política, a ética, as famílias, o voto, a ciência, a verdade, o respeito e a valorização da diversidade, a liberdade de imprensa, a importância da arte, a preservação do meio ambiente e a responsabilidade na economia”

    Manifesto ‘Estamos Juntos’

    publicado em anúncio de página inteira em jornais brasileiros

    O movimento das Diretas Já, citado no manifesto, pedia o voto direto para presidente no Brasil, após duas décadas de regime militar. As mobilizações ocorreram entre os anos de 1983 e 1984, com grandes comícios suprapartidários que reuniam políticos de diversas linhas ideológicas, assim como artistas e intelectuais. O movimento, porém, foi derrotado com a derrubada da emenda constitucional que estabelecia o voto direto.

    Em 1985, Tancredo Neves foi eleito presidente pelo Colégio Eleitoral, com votação apenas de parlamentares. O ex-governador de Minas viria a morrer antes de começar o governo, que ficou com o vice José Sarney. O Brasil viria a eleger seu primeiro presidente por voto direto depois da ditadura militar em 1989, com Fernando Collor de Mello. Desde então, Collor, em 1992, e Dilma Rousseff, em 2016, sofreram impeachment. FHC e Lula foram os únicos presidentes eleitos pelo voto direto que conseguiram completar seus mandatos.

    A desarticulação em torno do impeachment

    O manifesto suprapartidário publicado nos jornais de sábado (30) não pede o impeachment de Bolsonaro. Entre os signatários, há quem defenda a renúncia do presidente, como FHC, há também quem defenda o impeachment do presidente, como Haddad, e quem ache que Bolsonaro tem de ficar no cargo até o fim da crise do novo coronavírus, como Flávio Dino.

    No Congresso, há dezenas de pedidos de impeachment contra Bolsonaro. As iniciativas, porém, não têm uma unidade. À esquerda, há um bloco que une o PDT de Ciro Gomes, a Rede de Marina Silva, além do PSB e do PV. Também nesse espectro político, PT, PSOL e PCB, aliados a movimentos sociais, formam uma outra frente.

    Mais à direita, o PSDB de FHC e do governador de São Paulo, João Doria, que se transformou num dos principais antagonistas de Bolsonaro na crise do novo coronavírus, segue sem uma linha de ação. Os tucanos têm cargos e até ministro no governo Bolsonaro, o ex-deputado federal Rogério Marinho, do Desenvolvimento Regional.

    O presidente da República, por sua vez, tem distribuído cargos ao centrão, grupo de congressistas que costumam se unir para aumentar seu poder de pressão sobre o Executivo e assim conseguir emendas parlamentares e espaços na máquina pública. O centrão garante, por ora, certa estabilidade política a Bolsonaro, que dispõe ainda de um apoio popular significativo: apesar do aumento da rejeição ao governo, ao menos um terço da população continua a seu lado.

    Em entrevista publicada também no sábado (30) pelo jornal Folha de S.Paulo, o professor de filosofia da Unicamp e presidente do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), Marcos Nobre, afirmou que a saída do impeachment está no horizonte, mas não é para já. “Há um desespero de muita gente para que aconteça um impeachment imediatamente tamanha a sequência de barbaridades. Mas o processo de deslegitimação de um presidente sempre demora”, disse Nobre, que também é signatário do manifesto “Estamos Juntos”.

    A desunião no segundo turno da eleição

    A frente que começa a se formar no país, após um ano e cinco meses de governo Bolsonaro, chegou a ser ensaiada ainda na campanha de 2018, quando Haddad, candidato do PT à Presidência, foi para o segundo turno das eleições. Havia, porém, muitas brechas e desacertos, especialmente no campo da esquerda, com uma tentativa do partido do ex-presidente Lula de se manter hegemônico nesse campo.

    Ciro Gomes, do PDT, terceiro colocado nas eleições de 2018, não apoiou Haddad contra Bolsonaro. Ciro chegou a viajar para fora do país para não precisar participar da campanha. O PSDB de FHC, enfraquecido, surfava na onda de extrema direita daquela eleição, com Doria, principal nome do partido, usando o slogan “BolsoDoria” na sua tentativa (exitosa) de conquistar o governo de São Paulo.

    Luciano Huck, que chegou a ensaiar sair candidato em 2018, disse no segundo turno daquela eleição que não se sentia representado por ninguém, nem por Haddad nem por Bolsonaro. O clima de antipetismo era forte, após 13 anos de governo do partido em Brasília, com recessão econômica e escândalos em série envolvendo o governo e seus aliados.

    Bolsonaro, cujo discurso mudou pouco desde então, algo que inclui a defesa da ditadura militar e a exaltação de torturadores do período, acabou garantindo sua vitória com apoio de boa parte do empresariado brasileiro, sob a chancela dos planos liberalizantes de Paulo Guedes, que viria a se tornar seu ministro da Economia.

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