Quais os riscos de flexibilizar a quarentena em São Paulo agora

Maioria dos países em fase de retomada das atividades afrouxou as regras cerca de 44 dias após a etapa mais aguda da pandemia, o que ainda não ocorreu no Brasil. Casos aumentaram onde já houve abertura

    Temas

    O Brasil ainda não atingiu o pico de casos do novo coronavírus, mas estados e cidades do país já anunciaram planos de flexibilização das quarentenas e de retomada das atividades econômicas, o que preocupa cientistas devido às chances de piora na crise sanitária.

    O estado de São Paulo é um caso emblemático. Na sexta-feira (30), a região mais afetada pela pandemia no Brasil, que responde por 22% de todos os infectados pela covid-19 no país, ultrapassou a marca dos 100 mil casos da doença. Sua curva de contágio apresenta uma tendência de alta. Na quinta-feira (28), o estado bateu o recorde de registros de doentes num período de apenas 24 horas, com 6.382 novos casos.

    O número foi alcançado um dia depois de o governador João Doria (PSDB) anunciar um plano de reabertura de atividades não essenciais, chamado por ele de “retomada consciente”. A flexibilização irá ocorrer em cinco fases, e a classificação de cada região paulista levará em consideração critérios como capacidade dos hospitais e a evolução da doença.

    101.556

    casos foram confirmados em São Paulo até sexta-feira (29), segundo o governo paulista

    7.275

    era o número de mortes pela covid-19 no estado até a mesma data

    48%

    foi a taxa de isolamento social alcançada na sexta-feira (29); na capital paulista, o índice ficou em 49%

    Na fase 1 do plano de flexibilização do estado de São Paulo, a mais restrita, o quadro permanecerá como está, com autorização de funcionamento apenas para atividades consideradas essenciais. É a situação de parte da região metropolitana e do sul do estado. Algumas cidades do litoral estavam incluídas nessa fase, mas o governo decidiu recuar das quarentenas rígidas em nove cidades do litoral paulista.

    Na fase 2, o plano permite que cidades do interior e a capital paulista possam, a partir de 1º de junho, reabrir com restrições o comércio de rua, shopping centers, concessionárias e retomar atividades imobiliárias e de escritório. Na etapa seguinte, que também abrange cidades do interior, poderão funcionar bares, restaurantes e salões de beleza. Ainda não há regiões classificadas nas fases 4 e 5, com restrições mais leves. A classificação das regiões será reavaliada pelo governo a cada 14 dias.

    465.166

    casos de covid-19 foram registrados em todo o Brasil até a sexta-feira (29), segundo o Ministério da Saúde

    27.878

    era o número de mortes no até a mesma data, de acordo com o órgão

    A situação de São Paulo

    Um levantamento divulgado pelo jornal O Estado de S. Paulo na sexta-feira (29) mostrou que 86% dos municípios paulistas que tiveram alta de casos nos últimos dias terão autorização para retomar atividades não essenciais.

    A flexibilização poderá ocorrer, ao todo, em 165 cidades paulistas que apresentam a curva de contaminação em ascensão. Na fase 2, onde haverá reabertura de shoppings, por exemplo, serão 124 municípios com alta de casos, e na 3, com permissão para bares e restaurantes abrirem, outros 41.

    Em São José dos Campos, por exemplo, houve aumento de 86% nos casos no período de uma semana analisado pelo jornal até a quinta-feira (28). A cidade foi classificada na fase 2. A mesma situação foi verificada em municípios como Jundiaí (aumento de 60% nos casos) e Piracicaba (alta de 137%). Elas também poderão retomar atividades dentro dos critérios da fase 2.

    583

    municípios paulistas estão nas fases 2 e 3 e poderão flexibilizar as quarentenas; elas representam 90% das 645 cidades do estado

    Especialistas em saúde pública criticaram o plano apresentado pelo governo de São Paulo. Ao jornal O Estado de S. Paulo, o epidemiologista Paulo Lotufo, professor da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), disse que a medida é “arriscada” e que a flexibilização só deveria ocorrer depois de uma redução consistente nos números, com ao menos sete dias seguidos de queda.

    O governo paulista diz que fará o acompanhamento diários dos casos e que as medidas serão reconsideradas a cada duas semanas. “Vamos monitorar dia a dia a evolução. Se tivermos de dar um passo atrás, não hesitaremos em fazê-lo”, afirmou Doria, durante o anúncio.

    Segundo notícias de bastidores publicadas pela imprensa na sexta-feira (29), o governador cedeu à pressão de prefeitos e de empresários ligados à Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) pela reabertura — muitos deles aliados ao tucano — ao apresentar o plano de retomada.

    A decisão coloca Doria numa situação política delicada, já que ele vinha se opondo ao presidente Jair Bolsonaro, um crítico das quarentenas e um dos poucos chefes de estado do mundo que minimizam a gravidade da doença. O governador desagradou especialistas em saúde pública ao deixar de seguir pela primeira vez as recomendações de seu Centro de Contingência do Coronavírus formado por infectologistas. O plano também tende a confundir a população, já que o abrandamento das quarentenas ocorre justamente na pior fase da evolução da pandemia.

    As pressões sobre o governo paulista continuaram mesmo após o anúncio da flexibilização. Como só São Paulo foi classificada como fase 2 na região metropolitana, o plano foi criticado pelos prefeitos das cidades vizinhas. O critério usado para o caso da capital, segundo o governo paulista, foi o número de leitos disponíveis para tratar os doentes. Na sexta-feira (29), Doria negou se submeter às pressões e disse que o governo se orienta pela ciência, mas ele deve reavaliar a situação de algumas cidades da região.

    71,7%

    dos leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do estado estavam ocupados na sexta-feira (29)

    83,4%

    dos leitos de UTI da região metropolitana de São Paulo estavam ocupados até a mesma data, segundo o governo do estado

    O caso de Santa Catarina

    O relaxamento das medidas de restrição tem significado um agravamento da pandemia. Em Santa Catarina, por exemplo, a reabertura do comércio ocorreu em 13 de abril. Depois disso, o casos da doença aumentaram na região.

    Na terça-feira (26), o estado registrou o maior número diário de mortes desde o início da pandemia: foram 12 em 24 horas. Após a flexibilização das quarentenas, Santa Catarina pulou de 26 mortes e 826 casos em 13 de abril para 126 mortes e 7.500 casos até a quinta-feira (28).

    O secretário estadual de Saúde, André Motta, reconheceu que há uma tendência de “aceleração da transmissão do vírus”. “Esse enfrentamento está ainda começando, precisamos reforçar o isolamento social”, afirmou em pronunciamento na quinta-feira (28).

    Os prefeitos de Santa Catarina têm cobrado maior autonomia para decidir sobre as próprias medidas, e o governador Carlos Moisés (PSL) sinalizou na quarta-feira (27) que isso deve ocorrer. Ele não descartou, porém, adotar medidas para restringir a flexibilização no estado.

    Como foi a reabertura em outros países

    Países que já viveram o agravamento da pandemia só começaram a relaxar as restrições de circulação ao menos um mês depois do pico da doença. Estados Unidos, Reino Unido, Itália, França e Espanha esperaram, em média, 44 dias após o pico para flexibilizar as quarentenas, segundo levantamento do jornal O Estado de S. Paulo com base em dados da Universidade Johns Hopkins, nos EUA.

    A Itália, por exemplo, que alcançou o pico em 21 de março, começou a reabertura apenas em 4 de maio (44 dias depois). Mesmo assim, a maioria dos serviços não essenciais e as áreas públicas continuaram fechados num primeiro momento.

    Na França, que atingiu a fase mais aguda da pandemia em 12 de abril, o relaxamento começou em 11 de maio, um mês depois. Bares, cafés e hotéis continuam fechados e só poderão voltar em junho.

    No Brasil, segundo um estudo da Funcional Health Tech, plataforma de dados do setor de saúde, o pico da covid-19 deve acontecer apenas em 6 de julho, quando o país poderá alcançar 1,7 milhão de doentes. No estado de São Paulo, a estimativa é que o pico ocorra um pouco depois, em 10 de julho, com 601 mil infectados.

    Os critérios da OMS para o fim do isolamento

    A OMS (Organização Mundial de Saúde) já estipulou critérios para que os países retomem suas atividades. A entidade alertou em abril que os países não podem reabrir repentinamente sem ter capacidade para identificar onde o vírus está, isolar os casos, mapear as redes de transmissão e ter leitos para tratar todos os pacientes.

    “Existem coisas que precisam ser feitas. Você não pode substituir a quarentena por nada. Você precisa substituir a quarentena por uma comunidade muito profundamente educada, comprometida, engajada e empoderada. Nós precisaremos mudar nosso comportamento pelo futuro previsível”

    Michael Ryan

    diretor do programa de emergências da OMS, em fala sobre o relaxamento das quarentenas, em abril

    O órgão definiu seis critérios que deveriam ser seguidos pelos governos locais:

    • A transmissão da doença precisa estar controlada;
    • O sistema de saúde tem de estar funcionando plenamente, com capacidade para detectar, testar, isolar e tratar todos os casos;
    • O riscos de haver novos surtos precisam ser minimizados;
    • Locais de trabalho e escolas, onde há aglomerações de pessoas, devem adotar medidas preventivas;
    • Os governos têm de controlar os riscos de importações de novos casos da doença;
    • As comunidades devem estar educadas, engajadas e empoderadas para poderem combater a pandemia.

    O reitor da Ufpel (Universidade Federal de Pelotas), Pedro Hallal, que é doutor em epidemiologia e coordenou a maior pesquisa sobre a covid-19 no Brasil, disse à jornalista Renata Lo Prete, da TV Globo, que apressar a reabertura das atividades antes que haja evidências de que os números de casos estão caindo é uma decisão bastante “delicada” e que pode custar a vida de milhares de brasileiros.

    “Qual a implicação dessa decisão de reabrir antes da curva já estar na descendente? É que pode ser que demore mais para a curva chegar na descendente. Vai chegar uma hora que tem que reabrir as atividades, todos nós sabemos que vai ter que reabrir. A pauta do distanciamento social não é ideológica, é de saúde pública”, disse.

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