O que diferencia mídia alternativa de sites de fake news

Investigados no inquérito do Supremo e alvos da página Sleeping Giants dizem divulgar ‘verdades omitidas’ pela mídia tradicional. Profissionais da comunicação falam sobre os limites da desinformação

O inquérito do Supremo Tribunal Federal que investiga a existência de uma rede de propagação de fake news, ofensas e ameaças, especialmente contra os ministros do tribunal, atingiu pessoas que se declaram parte da mídia alternativa. Na quarta-feira (27), esses comunicadores, apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, foram alvo de mandados de busca e apreensão cumpridos pela Polícia Federal.

19 milhões

é o número de seguidores somados dos comunicadores que foram alvo da operação, consideradas em conjunto as plataformas YouTube, Facebook, Twitter e Instagram

A operação aconteceu pouco tempo depois da chegada da página Sleeping Giants ao Twitter no Brasil, outro golpe ao sistema de comunicação bolsonarista. A página, que já atua nos EUA desde 2016, se propõe a alertar empresas de que seus anúncios comerciais, feitos de forma programática por meio da plataforma publicitária do Google, estão aparecendo em sites que, segundo o Sleeping Giants, são divulgadores de fake news ou de discurso de ódio.

Como resultado desses alertas, pelo menos 30 marcas já se mobilizaram para retirar seus anúncios desses sites, num movimento que os desarticula financeiramente. No Brasil, a única página afetada até o momento, Jornal da Cidade Online, é apoiadora do governo federal.

A reação bolsonarista ao inquérito

No inquérito das fake news aberto no Supremo ainda em março de 2019, o ministro-relator Alexandre de Moraes ordenou a quebra dos sigilos fiscal e bancário de investigados, a fim de entender como vem funcionando o financiamento desses sites, desde a campanha eleitoral de 2018.

O Procurador-Geral da República, Augusto Aras, pediu para que as investigações fiquem suspensas até que uma ação da Rede, que pede pela anulação do inquérito, seja julgada. A ação movida pelo partido está pronta para ir a plenário do Supremo. Depende apenas de um agendamento por parte do presidente do tribunal, Dias Toffoli.

Pressionados pela Justiça e pela iniciativa digital, os veículos que foram relacionados à difusão de fake news se dizem tolhidos em sua liberdade de expressão. Eles afirmam dar uma opção à mídia tradicional que, segundo o discurso do próprio presidente, protege o establishment e a “velha política”.

Filhos do presidente, como o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-RJ) e o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), também reclamaram. Segundo o jornal Folha de S.Paulo, os dois são alvo do inquérito das fake news. Os irmãos negam as suspeitas. Depois das apreensões, Eduardo disse no canal Terça Livre, também investigado, que uma “ruptura” institucional é questão de tempo.

Para Bolsonaro, o objetivo da ação foi atingir quem o apoia. Estão perseguindo gente que apoia o governo de graça. Querem tirar a mídia que eu tenho, a meu favor, sob o argumento mentiroso de fake news, disse ele.

A reação bolsonarista ao Sleeping Giants

Quanto à atuação do Sleeping Giants, Fabio Wajngarten, chefe da Secom (Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência), afirmou que o Jornal da Cidade Online “faz um trabalho seríssimo”, “a julgar pela turma que está esbravejando contra”. E disse que “as agências de checagem e o jornalismo dito progressista” são usados como “disfarces” de censura ideológica.

Eduardo Bolsonaro afirmou que o movimento de alertas sobre publicidades programáticas é uma “nova maneira de censurar a direita” e pediu aos empresários para que “não se curvem ao politicamente correto”.

Seu irmão Carlos criticou o Banco do Brasil por ter retirado anúncio do Jornal da Cidade Online. Ele disse que a instituição pública “pisoteia em mídia alternativa que traz verdades omitidas”. O banco depois voltou atrás na sua decisão, mas uma decisão do TCU (Tribunal de Contas da União) retomou a suspensão das peças publicitárias.

A atuação do Sleeping Giants ainda é pouco conhecida. Segundo Cristina Tardáguila, diretora-adjunta da International Fact-Checking Network (rede internacional de checagem de fatos), “o questionamento das mídias programáticas é muito relevante”, mas “é cedo para fazer uma avaliação completa” da iniciativa.

“Ainda faltam algumas lacunas para serem preenchidas”, disse ela por telefone ao Nexo na quinta-feira (28), enfatizando a importância de um comportamento “completamente transparente” como “quesito número um para combater a desinformação”, disse.

Do ponto de vista dos checadores [de fatos], estamos observando a atuação do Sleeping Giants Brasil ainda questionando algumas coisas, sobretudo em relação à transparência. Não sabemos muito bem quem eles são, pessoas físicas, não sabemos nada sobre financiamento desse movimento. Também não sabemos nada sobre metodologia de trabalho: por que um veículo é atacado primeiro? Qual será o próximo?

Cristina Tardáguila

diretora-adjunta da International Fact-Checking Network e fundadora da Agência Lupa, ao Nexo no dia 28 de maio de 2020

Duas análises sobre a rede bolsonarista

O Nexo conversou com profissionais especializados no tema das fake news sobre a atuação da mídia dita alternativa, no governo atual e em governos passados.

  • Cristina Tardáguila é diretora-adjunta da International Fact-Checking Network e fundadora da Agência Lupa
  • Ivan Paganotti é professor do mestrado profissional em Jornalismo do Fiam-Faam

O que diferencia a chamada mídia alternativa de sites de fake news?

Cristina Tardáguila A mídia alternativa mostra outros lados, mas sem corromper a verdade. Já a notícia falsa não se sustenta em dados comprováveis. Traz equívocos, distorções, informações enganosas. Não reflete a realidade. ​​​

Mas definição de fake news é sempre um desafio. A IFCN [International Fact-Checking Network], desde 2016 pelo menos, participa de diversos grupos e iniciativas que tentam definir esse conceito. E nunca conseguimos chegar a uma definição que fosse totalmente redonda, perfeita. Ou ficava muito curta e deixava casos de fora, ou ficava tão ampla que acabava abarcando até arte, humor, piada.

Na Ásia, há diversas leis implementadas tomando definições de fake news simplificadas e resultando em sérios avanços contra a liberdade de expressão. Então eu temo muito todas as definições de fake news.

Ivan Paganotti Os meios de comunicação alternativos tentam apresentar informações ou pontos de vista que não tenham uma grande divulgação, em formatos ou em temáticas que não são frequentemente adotados pela mídia hegemônica, pela mídia mais frequente. Eles mostram posições que estão abertas para debate. São opiniões, percepções pessoais. Mas a informação objetiva apresentada, aquela que pode ser verificada, não pode ser falsa. Se for, os veículos, sejam alternativos ou tradicionais, devem ser responsabilizados. ​​​

O conceito de fake news é a grande polêmica do inquérito do Supremo. A forma como o tribunal caracterizou as ameaças e as notícias falsas contra seus próprios membros está muito ampla. Basicamente qualquer coisa pode ser incluída nesse guarda-chuva, qualquer veículo.

Academicamente, não há uma única definição para o termo fake news. Há uma vertente que considera uma definição o mais ampla possível, abarcando qualquer notícia inverídica. Isso dá espaço para arbitrariedades. Outra vertente, na qual eu me incluo, dá um recorte bem mais estrito. Considera que é um fenômeno bem mais recente, dos últimos cinco anos, e abarca informações que são demonstrativamente falsas, que circulam em redes sociais e que mimetizam o formato de um discurso de autoridade, como o discurso jornalístico. E ainda exige o elemento de intencionalidade, isto é, de intenção de enganar o receptor da mensagem.

Os sites ligados a apoiadores do governo e envolvidos nesses casos, como Jornal da Cidade Online e Terça Livre, são mídia alternativa ou sites de fake news?

Cristina Tardáguila Os checadores [referência às agências especializadas em checagem de fatos] analisam conteúdos, frase a frase. Fazemos uma análise granular do que é publicado. Isto é muito importante: os checadores não exercem a função de etiquetar páginas. Não existe dentro do escopo do trabalho dos fact checkers essa função, de dizer se uma página é válida ou não, de produzir listas de “sites de fake news”. Isso jamais existirá. Dito isso, nesses sites já foi identificado esse conteúdo [de fake news]. Mas não só neles. ​​​

Ivan Paganotti Como algumas partes do processo estão em sigilo, ainda não temos como saber especificamente qual foi a postagem ou qual foi a imagem ou o termo utilizado por esses alvos da investigação. Então fica difícil de avaliar, por não termos essas informações. ​​​

Fica difícil também porque não sabemos nem a categoria que o Supremo usa para definir o que é fake news. Aparentemente, desde 2019, com a polêmica da Crusoé [quando a revista teve uma reportagem sobre o presidente do Supremo, Dias Toffoli, censurada pelo inquérito], eles [os ministros] têm utilizado mais as terminologias “ameaça” ou “ofensa”.

O comportamento de blogs e sites que apoiavam governos petistas se assemelha ao que acontece hoje?

Cristina Tardáguila A desinformação sempre existiu no meio da militância. Óbvio que havia desinformação em governos petistas. A Lupa [agência de checagens], por exemplo, foi criada em 2015, no início do processo de impeachment da [então presidente] Dilma [Rousseff], e viu muito disso. Sabemos que a Secom [Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência] de Lula apoiava blogs petistas. Saía dinheiro oficial para esses blogs.​​​

No entanto, o que vemos nesse exato momento é um grau maior de sofisticação. O problema sempre esteve lá, mas ele cresce geometricamente com o avanço tecnológico. Nas eleições de 2014, por exemplo, não havia a questão da desinformação pelo WhatsApp. A tecnologia avança, e avançam as capacidades de desinformação. Sempre houve algum tipo de apoio à militância, mas agora vemos mais porque há mais canais.

Ivan Paganotti Tanto em governos do PT quanto agora, veículos alternativos usam uma retórica de que a mídia tradicional mente, esconde informações e não permite que algumas vozes tenham representação, e de que por isso é necessário haver veículos alternativos que abram espaço para essas informações, para essas perspectivas. Até aí, nada de absurdo. Até a crítica acadêmica também utiliza esses argumentos. Outra semelhança [entre a realidade atual e cenários passados] é a tendência de privilegiar a interlocução com veículos mais estrategicamente próximos ao governo. ​​​

Uma diferença importante é a forma como esses veículos têm agido em relação à mídia tradicional. Se no passado existia um discurso crítico, um discurso combativo, esse discurso não passava à prática de ameaças contra jornalistas. Mas o que temos visto nos últimos dias é que uma parte da militância está agindo de uma forma mais agressiva. Em particular, o que está sendo investigado agora é se há um financiamento, direto ou indireto, de partidos, de empresários, do governo federal ou de outras instâncias a essas entidades.

Nos anos 2000 [governo Lula], houve uma pulverização do perfil de financiamento públicos aos veículos de comunicação, o que incluiu desde campanhas de informação do ministério da Saúde até publicidade do Banco do Brasil. Tentou-se apoiar financeiramente também veículos menores, alternativos. Mas o governo tem que utilizar critérios técnicos para alocar suas verbas. Por exemplo, o governo pode observar que surgiram novos veículos de comunicação e que houve uma reorganização da audiência, e reorganizar a destinação de suas verbas também. O que não se pode fazer e gera questionamentos de improbidade é esse embasamento ideológico, contrário à impessoalidade, que o presidente [atual] tem utilizado com frequência.

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