Como a pandemia ressuscitou os cinemas drive-in

Modelo que viveu seu auge nas décadas de 1950 e 1960 retorna como possibilidade de experiência cinematográfica enquanto as salas estão fechadas

    Temas

    Praticamente extintos no Brasil antes da pandemia de coronavírus, os cinemas drive-in despontaram como uma alternativa para reviver a experiência cinematográfica em meio à incerteza que cerca a reabertura das salas de cinema, um dos muitos espaços que se encontram fechados para prevenir a disseminação do vírus.

    Para gerações mais jovens, trata-se provavelmente de um modelo só visto em produções audiovisuais do século 20 ou de época: um pátio aberto cheio de carros estacionados, com a tela grande à frente e os espectadores encerrados nos veículos, sintonizando o som do filme pelo rádio.

    Os drive-ins ganharam novos espaços e recuperaram sua popularidade durante a pandemia em países como Estados Unidos, Alemanha e Coreia do Sul. Eles são mais seguros em relação à transmissão do novo coronavírus por manterem os espectadores confinados em seus veículos, sem contato com outras pessoas ou com o ambiente.

    Seguindo a tendência internacional, iniciativas do tipo têm pipocado em cidades brasileiras.

    Inaugurado em 1973 e considerado até recentemente o último estabelecimento do tipo em funcionamento no Brasil, o Cine Drive-In de Brasília chegou a suspender suas atividades em abril devido à pandemia de covid-19. Em maio, no entanto, o estabelecimento reabriu e se tornou um dos dois cinemas do gênero responsáveis pela quase totalidade (98,8%) da bilheteria arrecadada no país entre 21 e 24 de maio.

    No mundo pós-pandemia, o modelo dos drive-ins também é estudado como possibilidade não só para a exibição de filmes como para outros tipos de evento, como formaturas, cultos de igrejas e shows musicais.

    Quais as iniciativas no Brasil

    A partir de junho, o pátio do Memorial da América Latina, em São Paulo, irá abrigar o Belas Artes Autorama Drive-in, com capacidade inicial para cem carros, que poderá ser ampliada caso haja espaço. As sessões no Memorial foram idealizadas pelo cinema de rua Petra Belas Artes. O dono das salas, André Sturm, negocia os detalhes finais do projeto com o governo do estado, que administra o Memorial, e com a prefeitura de São Paulo.

    A expectativa é que as sessões se iniciem em 16 de junho e, a princípio, se estendam até o final de julho. Sturm, porém, quer manter o projeto funcionando até o final de 2020. “O drive-in vai poder conviver com a volta dos cinemas tradicionais, até porque quando eles reabrirem haverá uma limitação de assentos ocupados”, disse Sturm ao jornal Folha de S.Paulo.

    No estado de São Paulo, os cinemas só poderão ser reabertos na última etapa (chamada de fase 5) do plano de afrouxamento da quarentena, divulgado pelo governador João Doria na quarta-feira (27). Não há previsão para isso em nenhuma das cidades paulistas.

    A inauguração do Belas Artes Autorama Drive-in ficará a cargo da exibição do clássico “Apocalypse now” (1979), de Francis Ford Coppola. A programação completa, com cerca de 35 filmes, e a venda de ingressos (com preços de R$ 40 a R$ 60) serão divulgadas em breve.

    No início de maio, a rede Cinesystem, em parceria com um shopping na Praia Grande, litoral paulista, já havia realizado sessões do tipo no estacionamento externo do estabelecimento.

    O Cinesystem Litoral Plaza Drive-In foi um sucesso de público de primeira hora – 40 veículos na primeira exibição e lotação máxima, de 60 carros, na segunda –, o que motivou a ampliação do número de sessões para três por dia aos fins de semana. Foram exibidos “Nasce uma estrela” (2018), de Bradley Cooper, e “Maria e João: O conto das bruxas” (2020), de Rob Hayes. O valor do ingresso por pessoa é de R$ 15.

    No Rio de Janeiro, o LoveCine Drive-in, instalado na Jeunesse Arena, na Barra da Tijuca, tem sua abertura prevista para 4 de junho. Além de filmes, a programação também contará com apresentações musicais. O ingresso será de R$ 100 por carro.

    Drive-ins também começaram a funcionar na segunda quinzena de maio nas cidades de Uruguaiana (RS) e Curitiba (PR), no sul do país, segundo o site Filme B. Outros parques de exibição a céu aberto, instalados em estacionamentos de shopping e outros espaços, devem ser inaugurados em breve em cidades brasileiras.

    A origem dos cinemas drive-in

    A exibição de filmes em espaços abertos para espectadores motorizados surgiu nos EUA em 1933, na cidade de Camden, em Nova Jérsei. A invenção do primeiro cinema nesses moldes, originalmente chamado de Park-In Theater, é atribuída a Richard Hollingshead (1900-1975), então gerente de vendas da empresa de autopeças de seu pai.

    A invenção teria sido inspirada por reclamações de sua mãe, que não se sentia confortável nas poltronas de cinema convencionais. Hollingshead começou a realizar testes na garagem de casa com técnicas de projeção e som que tornassem possível a realização de sessões ao ar livre, em que espectadores pudessem assistir a filmes de dentro de seus veículos.

    Ele chegou a patentear o conceito em 1933, e fundou a empresa Park-In Theaters, Inc., que anunciava a ideia como fonte de diversão para toda a família.

    Mas foi no pós-guerra, após a patente de Hollingshead ser revogada em 1949, que os cinemas drive-in alcançaram seu auge nos EUA. A popularização dos alto falantes internos em carros na década de 1940 também contribuiu para esse processo, melhorando a qualidade do áudio das projeções ao permitir que cada espectador sintonizasse o som do filme em seu equipamento de rádio.

    Atraindo tipicamente não apenas famílias mas também jovens casais, eles se tornaram um ícone da cultura americana da década de 1950 a meados dos anos 1960, quando o número de drive-ins nos Estados Unidos ultrapassou 4.000.

    Quanto à programação, os drive-ins muitas vezes exibiam “filmes B” e até eróticos, ficando com uma espécie de segundo escalão dos lançamentos. As salas de cinema costumavam ter preferência em relação à distribuição dos principais títulos, por terem em geral capacidade de exibir mais filmes e programar mais sessões de um filme em um único dia. Os filmes adultos contribuíram para a sobrevivência de alguns dos cinemas drive-in quando o formato entrou em decadência.

    O aumento do preço da terra nos arredores das cidades americanas, onde muitos desses cinemas estavam instalados, é visto como um dos principais fatores que levaram ao declínio dos drive-ins, que teve início na década de 1970 e se intensificou dos anos 1980 em diante. Essa valorização dos terrenos, impulsionada pela expansão das cidades, também ocorreu em outros países do mundo para onde os drive-ins haviam se espalhado.

    A competição da televisão e do “home video”, com as locadoras, também participaram do processo. Os drive-ins remanescentes nos EUA ficaram reduzidos a algumas centenas nos anos 2000.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante? x

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: