A queda no PIB sob os primeiros impactos da pandemia

Números do IBGE captam os efeitos iniciais da crise sanitária na atividade econômica. Tombo de 1,5% em relação ao fim de 2019 foi o pior em quase cinco anos

    O PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro caiu 1,5% no primeiro trimestre de 2020, na comparação com o fim de 2019. Os números foram divulgados na sexta-feira (29) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). A retração representa o pior resultado desde o segundo trimestre de 2015. Ou seja, foi o pior trimestre em quase cinco anos.

    OS ÚLTIMOS 5 ANOS

    Variações trimestrais do PIB do Brasil. Pior resultado em quase cinco anos

    O PIB é o resultado da soma de todos os novos bens e serviços produzidos no país em certo período de tempo. Por ser um indicador de quanto e como a economia produziu em determinado período observado, o PIB aponta se a economia se expandiu, encolheu ou se manteve igual na comparação com outros momentos. Em sua metodologia, o IBGE contabiliza apenas os produtos finais, para evitar contagem dupla de valores.

    A variação negativa do PIB no primeiro trimestre de 2020 interrompeu uma sequência de quatro trimestres consecutivos de crescimento. No acumulado dos últimos quatro trimestres – ou seja, contando desde o segundo trimestre de 2019 –, houve crescimento de 0,9%.

    O período contemplado

    Os números divulgados pelo IBGE compreendem os meses de janeiro, fevereiro e março de 2020. Portanto, não captam todo o período da pandemia do novo coronavírus, cuja gravidade escalou no Brasil a partir de meados de março.

    Da mesma forma, nem todas as medidas tomadas pelo governo estão contempladas no período. É o caso do auxílio emergencial, principal política do governo para suporte econômico da população na pandemia, que só começou a ser pago a partir do início de abril. O auxílio só terá seus efeitos captados pela medição da atividade econômica do segundo trimestre.

    A ótica setorial

    Os números do IBGE mostram como os diferentes setores desempenharam no primeiro trimestre de 2020. A maior retração veio no setor de serviços, que teve seu pior trimestre desde o último de 2008, quando o Brasil e o mundo sentiam os efeitos de uma das piores crises financeiras da história.

    1,6%

    foi a queda no setor de serviços no primeiro trimestre de 2020, na comparação com o último de 2019

    A queda foi bastante sentida nos serviços de transporte, armazenagem e correio, que registraram redução de 2,4% na comparação com o fim de 2019. As atividades de informação e comunicação, que abarcam empresas de telecomunicações e informática, tiveram queda de 1,9%. O comércio, por sua vez, registrou uma retração menor, de 0,8% entre janeiro e março, na comparação com o trimestre final de 2019.

    A indústria também registrou queda significativa no primeiro trimestre de 2020, tendo seu pior desempenho trimestral desde o fim de 2016.

    1,4%

    foi a queda na indústria no primeiro trimestre de 2020, na comparação com o último de 2019

    Dentro do setor industrial, duas atividades se destacaram negativamente. A indústria extrativa, que engloba a mineração, teve queda de 3,2% em relação ao fim de 2019. O setor já vinha de um ano ruim, marcado pela tragédia de Brumadinho, que matou mais de 250 pessoas em janeiro de 2019.

    Ainda na indústria, houve queda de 2,4% no setor de construção civil e retração de 1,4% na indústria de transformação, mais ligada ao formato tradicional de fábricas. A agropecuária, por sua vez, não sentiu tanto os efeitos da pandemia: no primeiro trimestre de 2020, o setor cresceu 0,6%.

    Consumo privado e investimento

    Conforme esperado na pandemia, o consumo das famílias teve forte queda no primeiro trimestre de 2020.

    2%

    foi a queda do consumo das famílias no primeiro trimestre de 2020, na comparação com o último de 2019

    O número pode não parecer tão significativo, mas representa o pior trimestre do consumo privado desde o terceiro trimestre de 2001. Naquela época, o Brasil vivia graves problemas no setor de energia elétrica, em momento conhecido como a crise do apagão. O consumo das famílias representa mais de 60% do total da atividade econômica no Brasil, por isso, sua queda tem forte peso no resultado do PIB.

    Ao contrário do consumo privado, o investimento teve alta, tendo o melhor trimestre desde o terceiro de 2018. O dado é divulgado pelo IBGE sob a rubrica de “formação bruta de capital fixo” e computa, basicamente, os gastos que farão a economia crescer mais no futuro, como a compra de máquinas e equipamentos.

    3,1%

    foi o crescimento do investimento no Brasil no primeiro trimestre de 2020, na comparação com o último de 2019

    Governo e setor externo

    Além do consumo privado e do investimento, entram na conta do PIB o consumo do governo e o saldo de exportações e importações. O consumo do setor público teve leve alta de 0,2% no primeiro trimestre de 2020, na comparação com o fim de 2019.

    Já no setor externo, mesmo com a alta do câmbio – que torna os produtos brasileiros mais baratos no exterior –, as exportações caíram 0,9% no primeiro trimestre de 2020, se comparadas com o fim de 2019. Isso acontece em um contexto de forte desaceleração do comércio mundial. Já as importações tiveram alta de 2,8%.

    Duas análises sobre o PIB

    O Nexo conversou com economistas para entender os números do PIB do primeiro trimestre de 2020. São eles:

    • Cristina Helena de Mello, professora de economia da PUC-SP
    • Eduardo Correia, professor de economia do Insper

    Por que os números mostram aumento dos investimento mesmo com a deflagração da crise?

    Cristina Helena de Mello Esses investimentos estão associados à importação de máquinas e equipamentos. Eles não estão relacionados com investimentos que sejam encomendas no mercado local. Então, muito possivelmente, eles estão associados a encomendas que foram feitas no ano passado [2019]. A gente tinha a expectativa de um desempenho econômico melhor em 2020.​

    Agora há, claramente, um impacto de paralisação [dos investimentos na pandemia]. Como não conseguimos construir cenários futuros, é difícil fazer um plano de negócios. É difícil imaginar um novo investimento neste momento.

    O que vemos são as empresas monitorando dados, tentando construir novos cenários e, ao mesmo tempo, identificando novas oportunidades. Por isso, o que podemos imaginar de investimentos que ocorram daqui para frente são investimentos relacionados a novas oportunidades de negócios que esta situação de pandemia está construindo. Essa identificação e essas possibilidades criam alternativas de investimento. Mas elas vão diminuir a redução [amenizar a queda] dos investimentos, e não aumentá-los.

    Eduardo Correia Consigo pensar em dois fatores. Primeiro, antes mesmo da crise do coronavírus, já estávamos entrando em uma crise política, e isso gerou um cenário de incerteza que acabou fazendo com que as bolsas de valores tivessem perda acumulada. Tivemos quedas na bolsa e as ações em geral perderam valor. Então, nesse momento, para investidores, é uma oportunidade para fazer aquisições de participação acionária. E sabemos que, quando há mudanças em participação acionária e coisas do tipo, existe um investimento real [produtivo, não só financeiro] que vem acompanhado com isso, para complementar.​

    O segundo fator é que, no período da recessão sob Dilma Rousseff e Michel Temer [2° trimestre de 2014 ao 4° trimestre de 2016], o investimento foi para um patamar muito baixo, da ordem de 15% do PIB. E no começo do governo Bolsonaro também estava assim. Não vejo com muito otimismo essa explicação, mas acho que a gente ficou tanto tempo com investimento num patamar tão baixo, que começou a haver depreciação. Então, agora, muitas empresas estão investindo simplesmente para repor estoque de capital.

    É como se tivéssemos atingido o fundo do poço. Se você deixa o investimento muito baixo durante muitos anos, pode ser que a depreciação comece a destruir o estoque de capital, as máquinas vão ficando velhas. Acho que as empresas viram este último período como uma oportunidade de repor uma parte do estoque de capital. Seria mais uma resposta ao nível de investimento baixíssimo dos últimos anos.

    O período contemplado pelos dados não capta a maior parte das medidas tomadas pelo governo na pandemia. As ações tomadas pelo poder público até o momento serão suficientes para conter ou amenizar a retração da economia? Como avalia a condução da política econômica na pandemia?

    Cristina Helena de Mello Muitos dos dados de queda sobre os quais estamos falando são comparações com o quarto trimestre [de 2019]. O primeiro trimestre de todo ano é um primeiro trimestre que, quando comparado com o quarto trimestre do ano anterior, é de desaceleração. Porque o quarto trimestre tem as festas de Natal. Então normalmente há essa redução.​

    Em 2020, a redução foi maior, o que já pode estar associado com a situação de pandemia. Mas a gente imagina que, de março para frente, o impacto da pandemia vai ser mais expressivo sobre esse resultado do PIB e da atividade econômica. A gente imagina um agravamento dessa situação.

    Porque as medidas que estão sendo adotadas são, de certa forma, muito adequadas e corretas, mas a forma de implementação é absolutamente ineficiente e deixa a desejar. Precisaria haver mais velocidade e mais assertividade nas ações de políticas públicas. E mais coordenação entre os diferentes níveis de governo. O conflito entre níveis municipal, estadual e federal não colabora para uma melhora de resultado. O momento exige e pede lideranças que sejam capazes de formar alianças e caminhar numa única direção de bem-estar social, que é de manutenção das vidas e minimização de impacto da atividade econômica.

    Eduardo Correia O ministro [da Economia] Paulo Guedes foi lento para acordar para a gravidade da situação. E uma parte das pessoas que estão com ele no ministério – prefiro não citar nomes –, num primeiro momento, teve também uma visão completamente errada. [Tiveram] uma preocupação fiscalista muito grande.​

    Não estou dizendo que o governo deva perdoar a dívida de estados ou perder o controle do Orçamento. Mas é claro que despesas excepcionais voltadas justamente para combater a pandemia seriam necessárias. E esses assessores do Guedes tinham uma preocupação de que medidas do ministério fossem antes sancionadas pelo Congresso, e isso também levou a uma demora.

    Falando sobre o auxílio emergencial de R$ 600: na verdade, esse valor de R$ 600 veio de uma votação do Congresso. Não foi uma obra do Paulo Guedes. E na implementação do socorro houve uma ineficiência grande. Seria mais eficiente jogar dinheiro de helicóptero do que a maneira burocrática e lenta como foi implementada a política.

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