Os relatos de medo e abandono de profissionais de saúde

Sem treinamento, apoio e proteção, agentes comunitários, enfermeiros e médicos dizem se sentir despreparados para enfrentar pandemia, segundo pesquisa da Fundação Getulio Vargas

    A maioria dos profissionais de saúde que atuam no combate ao novo coronavírus no Brasil se sente despreparada, abandonada pelos governos e com medo da doença. A conclusão é da pesquisa “A pandemia de covid-19 e os profissionais de saúde pública no Brasil”, realizada pelo Núcleo de Estudos da Burocracia da Escola de Administração de Empresa de São Paulo da FGV (Fundação Getulio Vargas).

    O estudo ouviu 1.456 trabalhadores de saúde pública, entre enfermeiros, médicos e agentes comunitários de saúde e de combate a endemias, no período de 15 de abril a 1º de maio, por meio de questionários eletrônicos. Do total, 79% eram mulheres e 65% trabalhavam havia mais de uma década na área.

    “O que mais chama a atenção é a condição de vulnerabilidade à qual esses profissionais são expostos. Eles são formados e lidam, na prática, com o risco, com o adoecimento e com a morte. São condições normais de quem trabalha na saúde. Mas quando a gente olha como esses profissionais estão se sentindo durante a pandemia, chama muito a atenção como estão exacerbados os sentimentos de medo e falta de preparo”, disse ao Nexo a professora da FGV Gabriela Lotta, que coordena o núcleo responsável pela pesquisa.

    Os resultados do estudo

    O levantamento mostra que o medo é muito alto em todas as categorias pesquisadas. Entre os agentes de saúde, o índice de profissionais que temem a contaminação pelo vírus chega a 91,3%. Embora se reduza nas demais categorias, a taxa se mantém alta entre os enfermeiros (84,3%) e os médicos (77,7%).

    O sentimento de pavor com a doença é especialmente alto nas regiões Norte (92,3%) e Nordeste (90,6%), onde os sistemas de saúde entraram primeiro em colapso, com filas de espera em leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e sobrecarga no sistema funerário.

    55%

    dos profissionais de saúde disseram conhecer alguém que se contaminou ou apresentou quadro suspeito da doença

    A pesquisa também revelou que apenas 14,2% dos entrevistados dizem se sentir preparados para lidar com a covid-19. Dentre as categorias pesquisadas, os agentes comunitários de saúde são os que mais verbalizaram a sensação de despreparo (apenas 7,6% se sentem aptos a atuar na crise sanitária). Entre os médicos, profissão entre as pesquisadas que costuma ter maiores privilégios, apenas 38% disseram ter recebido treinamento e formação oficial sobre a pandemia.

    “Virou rotina. Todo domingo à noite tenho crises de ansiedade, insônia, taquicardia, agitação. Às vezes, pico hipertensivo. No trabalho, só cobranças, chefia que quer implantar novos fluxos. São inúmeros colegas se ausentando, procedimentos e prescrições equivocadas da equipe médica diante de casos suspeitos. Vivo sob tensão. Choro todos os dias quando volto para casa. Não abraço meu filho. Tenho medo de contaminar minha família. Tenho medo da morte levar alguém querido. Não vejo mais o meu pai, a quem sou tão agarrada. Não vivo mais. Sou um objeto animado mecanicamente que todos os dias, ao acordar, no mesmo momento agradece por ter acordado e se desespera por ter que encarar mais um dia”

    Enfermeira anônima

    em relato feito à pesquisa da FGV

    Para Gabriela Lotta, o medo desses profissionais não é infundado e está relacionado ao modo como eles estão sendo colocados para lidar com a pandemia. “É claro que é uma doença nova, que a gente não sabe muito como lidar, mas, ainda assim, a gente sabe pelos dados que a grande maioria dos profissionais não recebeu equipamentos e treinamento e não sente que tem suporte governamental”, disse.

    O conflito político entre presidente, governadores e prefeitos está presente na atuação deles, segundo a pesquisadora. O presidente Jair Bolsonaro é um dos poucos líderes do mundo que ainda minimizam o impacto da pandemia e trabalha contra as medidas de isolamento social adotadas por governadores e prefeitos.

    “O contexto de trabalho desses profissionais é muito pouco institucionalizado, está muito baseado em achismo, em falta de informação, em práticas que vão enfrentando e recriando na ponta, justamente pela falta de suporte. A gente tem relatos nos questionários de agentes comunitários que estão fabricando e costurando suas próprias máscaras”, afirmou a professora.

    Ela descreve a situação como sendo de descaso devido à falta de respaldo dos órgãos de governo. “A gente vê esse enrosco em torno da cloroquina. É para dar ou não? A diretriz da OMS [Organização Mundial de Saúde] diz uma coisa, e o presidente, outra. O Ministério da Saúde faz um documento que não tem respaldo na ciência, mas recomenda dar o remédio mesmo assim. Esses profissionais, como não tem a informação e o treinamento oficiais, ficam com mais sensação de medo ainda. O que fazer em meio a tudo isso?”, disse.

    “Estou tendo que adquirir meu próprio material [de proteção] e o da minha família. Minha esposa também trabalha em hospital e precisa usar, pois tem comorbidades. Se não fosse eu mesmo ir buscar informações sobre como atuar e estudar sobre o vírus, principalmente em canais internacionais, eu e minha família estaríamos 100% perdidos”

    Enfermeiro anônimo

    em relato feito à pesquisa da FGV

    A sensação de falta de apoio recai mais sobre o governo federal (67%) do que sobre os estaduais (51%), segundo a pesquisa. Mas 71,8% dos entrevistados também disseram não ter apoio de seus chefes diretos.

    32%

    relataram ter recebido equipamentos de proteção individual; o número é ainda menor entre os agentes de saúde: 19,7%

    A pesquisa também registrou relatos de profissionais de saúde com medo de serem hostilizados publicamente, ainda mais depois do episódio de agressão a enfermeiras que protestavam pacificamente na Praça dos Três Poderes, em Brasília, por apoiadores do presidente.

    Segundo Lotta, os profissionais reportam que isso se relaciona com a falta de valorização por parte do governo. “É como se estivessem sendo jogados no meio de uma guerra, de olhos vendados e sem nenhuma arma pra lutar. É bem essa sensação de solidão”, disse.

    A relação com os pacientes

    O estudo também mostra que a relações de trabalho e de interação entre os profissionais e os pacientes mudou na opinião de três em cada quatro entrevistados. Eles relataram alterações no fluxo de trabalho, mudanças de prioridades e introdução de novas tecnologias.

    O maior impacto, porém, diz respeito ao distanciamento físico. “Entre os agentes comunitários e os enfermeiros, uma das coisas que apareceu muito foi que eles não podem mais tocar fisicamente nas pessoas. Uma agente comunitária diz que o mais triste é não poder segurar a mão de seu paciente e dizer para ficar calmo porque tudo vai passar. Essa coisa do contato físico cotidiano é um objeto interessante para se pensar. O distanciamento é triste porque corta os vínculos”, disse Lotta.

    “O medo do morador e o meu são o mesmo. Ele não quer ser infectado por mim, e eu não quero ser infectado por ele. Não temos como exercer com eficiência um trabalho de excelência. Nossa atuação está muito superficial: não podemos entrar nas casas, não podemos ter a mesma maneira de trabalhar. Estamos sem orientação e sem material”

    Agente comunitário anônimo

    em relato feito à pesquisa da FGV

    Os questionários também perguntaram aos profissionais como eles pensam o futuro. Segundo a pesquisadora, a maioria vê a crise com desesperança, inclusive quando opinam sobre um possível arrefecimento da pandemia.

    A sensação entre os profissionais é que será preciso reconstruir redes de contato e vínculos sociais daqui para frente. “É uma sensação de terra arrasada, um pouco como se fosse um pós-guerra. Eles dizem: ‘A gente vai ter que ver como é que vai ser a saúde daqui pra frente’”, afirmou.

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