Quais as ações do Twitter contra os posts de Donald Trump

Rede social marca como falsas informações postadas pelo presidente dos EUA e amplia controle sobre conteúdo político difundido por líderes mundiais

    O Twitter inseriu avisos de advertência contra o conteúdo inverídico de duas postagens feitas pelo presidente americano, Donald Trump, na terça-feira (26). Essa foi a primeira vez que a rede social tomou essa atitude desde que Trump criou seu perfil no Twitter, em março de 2009.

    A atitude tomada pela rede social levantou a possibilidade de que conteúdos falsos ou imprecisos postados por outros líderes mundiais também passem a ser sinalizados ou até mesmo removidos com maior frequência. Isso já ocorreu no passado com o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, com o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e com o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, em casos ligados à difusão de informações falsas sobre a covid-19. Bolsonaro, inclusive, chegou a ter seu nome citado por Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, como exemplo de disseminação de desinformação na pandemia.

    Nos últimos anos, redes como o Twitter, o Facebook e o WhatsApp tornaram-se centrais na disputa política, e seus gestores sofrem pressão crescente pelo controle de conteúdo – o que impõe um dilema a respeito dos limites da liberdade de expressão, e de quem tem legitimidade para regulá-la.

    Trump fez 18 mil afirmações falsas em pouco mais de três anos, segundo o Washington Post

    Nas duas postagens sinalizadas de Trump, o presidente americano põe em dúvida a confiabilidade do voto pelo correio nos EUA. O presidente americano diz ter certeza de que esse tipo de votação, comum no país, é fraudulenta.

    O comentário foi feito no momento em que cresce a probabilidade de que um número grande de eleitores americanos recorram ao voto pelo correio nas presidenciais de novembro nos EUA, na qual Trump é candidato à reeleição contra o rival democrata Joe Biden. Na média das pesquisas realizadas entre 7 e 20 de maio, Trump perdia para Biden por 5,5 pontos percentuais. Biden tinha 48,4% e Trump, 42,9%.

    O recurso ao voto postal seria uma forma de driblar as restrições impostas pela pandemia da covid-19, que obriga o distanciamento social e desaconselha aglomerações, como as que ocorrem em locais de votação.

    Até quarta-feira (27), os EUA lideravam o ranking mundial de infectados e mortos pelo novo coronavírus, com 1,6 milhão de casos detectados e mais de 98 mil mortos.

    O que dizem os posts

    O comentário de Trump foi dividido em dois posts seguidos, formando uma curta “thread” ou fio (posts concatenados). Juntos, os dois textos dizem o seguinte: “NÃO HÁ NENHUMA MANEIRA (ZERO!) de que as cédulas por correio sejam alguma coisa que não algo substancialmente fraudulento. Caixas de correio serão roubadas, cédulas forjadas e mesmo impressas ilegalmente e assinadas de maneira fraudulenta. O governador da Califórnia está mandando cédulas para milhões de pessoas, qualquer um vivendo no estado, não importando quem sejam ou como chegaram lá, muitos jamais pensaram em votar antes, ou como e mesmo em quem votar. Será uma eleição fraudada. Sem chance!”

    O que fez o Twitter

    Abaixo de cada uma das postagens que formam o fio publicado por Trump, foram inseridas duas marcações em azul, uma espécie de selo de verificação, com um ponto de exclamação em negrito, dentro de um círculo, realçando o caráter de advertência ao leitor.

    “Conheça os fatos sobre votação por correio”, diz o texto de advertência, que contém um hiperlink. Ao ser clicada, essa advertência remete o leitor a uma seleção de conteúdos jornalísticos produzidos pelas grandes empresas de comunicação e por jornalistas com perfis verificados dos EUA, que confrontam as afirmações do presidente.

    Além disso, o leitor é remetido a um texto explicativo que diz o seguinte: “Trump alegou falsamente que a votação por correio levaria a uma eleição fraudulenta. Entretanto, agências de checagem de fatos afirmam que não há evidências de conexão entre voto por correio e fraudes na cédulas.”

    O texto afirma ainda que só eleitores registrados podem votar no estado da Califórnia, ao contrário da afirmação contida no post presidencial, e esclarece por fim que cinco estados americanos já realizam votações integrais por correio e todos os demais contam com algum sistema de voto justificado à distância.

    A reação de Trump

    Horas depois da ação tomada pelo Twitter, Trump reagiu postando um novo fio com dois textos na mesma rede social: “Agora o Twitter está interferindo na eleição presidencial de 2020. Eles estão dizendo que minhas afirmações sobre a voto por correio, que levará a fraude e corrupção massivas, são incorretas [e fazem isso] com base em agências de checagem de fatos da CNN e da Amazon Washington Post”.

    No segundo post atrelado, o presidente americano segue: “Twitter está completamente agredindo a LIBERDADE DE EXPRESSÃO e, eu, como presidente, não vou permitir que isso aconteça!”

    Nesta quarta-feira (27), em nova postagem, ele acusou as redes sociais de enviesamento político e ameaçou fechá-las. “Os republicanos sentem que as plataformas de mídia social silenciam totalmente as vozes conservadores. Vamos regular fortemente, ou fechá-las, antes de permitir que isso aconteça”.

    80 milhões

    é o número de seguidores que Trump possui no Twitter

    Em março, o Twitter já havia sinalizado como falso um vídeo postado originalmente pelo diretor de redes sociais da Casa Branca, Dan Sacavino, e replicado em seguida por Trump.

    O vídeo apresentava um recorte de uma fala de Biden na qual o candidato democrata parecia dizer que apoiava a reeleição de seu rival, Trump.

    Apoio e preocupação

    De acordo com o jornal americano The Washington Post, Trump somava 18 mil informações falsas feitas entre a data de sua posse, em janeiro de 2019, e o mês de abril de 2020. Muitas dessas afirmações são feitas no Twitter, rede na qual Trump se manifesta assiduamente.

    Os EUA têm dezenas de agências jornalísticas que se encarregam de checar a veracidade das informações veiculadas pelas autoridades políticas. Essas checagens são publicadas tanto nas redes sociais quanto na imprensa, mas o Twitter nunca tinha se baseado no trabalho desses grupos para sinalizar um post de autoria do presidente americano.

    Alguns acadêmicos da área de comunicação nos EUA manifestaram preocupação com os critérios adotados pelo Twitter e sobretudo com a escolha das agências envolvidas na checagem.

    De parte do Twitter, “não há método claro de abordagem a conteúdo falso, o que desperta ceticismo justamente quando o efeito deveria ser o contrário

    Lucas Graves, por exemplo, que é pesquisador sênior do Instituto Reuters de Jornalismo e professor na Universidade de Wisconsin-Madison, diz que a “medida provocará um debate interminável a respeito de quem tem autoridade para checar [os posts presidenciais] e quando”.

    Graves, que é também autor do livro “Deciding What’s True” (Decidindo o que é Verdade, em tradução livre), sobre agências de checagem, e que deu uma entrevista ao Nexo em 2019 sobre “como lidar com um presidente que mente” disse ainda, em sua conta no Twitter: “Eu admiro o espírito da decisão, mas o Twitter ainda não está pronto para isso. O trabalho de checagem precisa ser feito por entidades independentes e institucionalizadas como o IFCN [sigla em inglês da Rede Internacional dos Checadores de Fatos, lançada em 2015, no Instituto Poynter de Jornalismo, em Tampa, na Flórida, para estabelecer padrões técnicos e éticos para o trabalho de checagem de dados].”

    “O Twitter tem sido acusado há muito tempo de não responder adequadamente às inverdades publicadas em sua plataforma, e essa medida em relação ao presidente Trump parece ser uma resposta, que mostra uma postura pró-ativa no contexto das eleições americanas”, disse ao Nexo Baybars Örsek, diretor da ICFN.

    Entretanto, ele considera que “a empresa precisa ainda responder a algumas questões essenciais em relação à transparência da metodologia usada para exibir materiais como resultantes de checagens de fatos, e mostrar, ademais, se foram checagens feitas por organizações independentes e não partidarizadas de checagem”.

    A jornalista Tai Nalon, diretora executiva e co-fundadora da agência brasileira de checagem Aos Fatos, ligada à IFCN, dos EUA, disse ao Nexo que “ainda não está claro como o Twitter vai agir em relação a conteúdos falsos ou enganosos. As plataformas têm sido mais severas em relação a posts que põem sob suspeição o sistema eleitoral americano. Questões relativas à supressão de voto, informações enganosas sobre o processo eleitoral, esses são temas sensíveis às plataformas, que não querem se ver mais uma vez acusadas de terem sido instrumento de manipulação do voto”.

    Assim como Örsek e Graves, ela também considera que “não há método claro de abordagem a conteúdo falso, o que desperta ceticismo justamente quando o efeito deveria ser o contrário. Checadores têm método, abrem suas fontes, explicam por que checam determinadas informações. O Twitter lança mão de curadoria e diz que está trazendo fatos ao debate. Não é bem assim que funciona”.

    Como é no Brasil

    No fim de março, Bolsonaro teve duas postagens removidas pelo Twitter, sob a justificativa de que elas atrapalhavam as políticas de saúde relacionadas à pandemia da covid-19.

    O conteúdo removido eram vídeos nos quais Bolsonaro aparecia circulando pelo comércio do Distrito Federal, causando aglomeração e violando regras de distanciamento social.

    O presidente brasileiro também orientava os cidadãos a voltarem ao trabalho, a despeito das recomendações contrárias feitas pelas autoridades nacionais, estaduais e municipais de saúde.

    No início de abril, o Twitter publicou uma advertência num post publicado pelo deputado federal Osmar Terra (MDB-RS). No texto, o político afirmava que “a quarentena aumenta o número de casos do coronavírus”.

    No caso de Terra, a advertência que passou a acompanhar o post do deputado dizia: “As regras do Twitter aplicam-se a este tweet. No entanto, o Twitter determinou que pode ser do interesse público que o tweet continue disponível.”

    Ao contrário do que aconteceu com Bolsonaro, o post de Terra não chegou a ser removido pela empresa.

    João Paulo Charleaux é repórter especial do Nexo e escreve de Paris

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